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Bossa Nova e suas histórias

Por Sóstenes Pernambuco Pires Barros

O que é 'Bossa'? Por que 'Bossa Nova'? Onde, quando e como tudo começou?

A palavra 'bossa' era um termo da gíria carioca que, no fim dos anos cinqüenta , significava 'jeito', 'maneira', 'modo'. Quando alguém fazia algo de modo diferente, original, de maneira fácil e simples, dizia-se que esse alguém tinha 'bossa'. Se o Ricardo desenhava bem, dizia-se que tinha 'bossa de arquiteto'. Se o Paulo escrevia, redigia bem, tinha 'bossa de jornalista'. E a expressão 'Bossa Nova' surgiu em oposição a tudo o que um grupo de jovens achava superado, velho, arcaico, antigo. Sim, mas o quê era julgado superado e velho, na música popular brasileira? 'Tudo', dizia a mocidade bronzeada de Copacabana.

A tristeza e melancolia das letras, a repetição dos ritmos 'abolerados' e dos 'sambas-canção'; era tudo a mesma coisa, não obstante os grandes cantores da época: Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Carlos Galhardo. Lindas valsas e serestas? Sim, e daí? Daí é que algo tinha de ser feito.

Diferentes harmonias, poesias mais simples, novos ritmos. - Ritmo é batida, como do relógio, do pulso, do coração- E Bossa Nova é batida diferente do violão, poesia diferente das letras, cantores diferentes dos mestres. A Bossa Nova não seria melhor nem pior. Seria completamente diferente de tudo, mais intimista, mais refinada, mais alegre, otimista. Diferente. Não começou especificamente num lugar, numa rua, num evento, num Festival. A rigor, ela não é nem um gênero musical. É o tratamento que se dá a uma música, em termos de 'batida' e de ritmo.

O primeiro grande marco inicial da Bossa Nova aconteceu em primeiro de março de 1958,quando João Gilberto cantou, com a batida de violão diferente, 'Chega de Saudade', posteriormente gravada por Eliseth Cardoso, no disco 'Canção do amor demais'. Em 1956, ninguém falava em Bossa Nova, mas o apartamento onde morava Nara Leão, no Edifício Palácio Champs Elysée, em frente ao Posto 4, já era ponto de reunião dos rapazes bronzeados de Copacabana: Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Boscoli e outros. Não se compunham músicas ali. Ouviam-se. E trocavam idéias.

Só no ano seguinte, em 1957, João Gilberto chegou ao Rio e, certa noite, foi à casa de Roberto Menescal, na Galeria do mesmo nome, em Copacabana. E aconteceu o grande encontro: O ritmo encontrou a música e a poesia.

O GRANDE ENCONTRO: JOÃO GILBERTO E ROBERTO MENESCAL
UM DESLUMBRAMENTO - OS PRIMÓRDIOS DA BOSSA NOVA


- Tem um violão aí? Eu sou o João Gilberto. Podíamos tocar alguma coisa.

Menescal, surpreso com "aquela figura esquisita", mandou-o entrar.

Já ouvira falar num "baiano meio louco, genial, afinadíssimo," que às vezes aparecia no Plaza, na Rua Princesa Isabel, por volta de 1957.

Carlos Lyra já conhecia "aquela figura".

Mas voltemos ao apartamento do Menescal.

Casa cheia. Menescal levou o baiano para o quarto dos fundos. Curioso. Violão examinado e devidamente afinado, João começou a cantar "Hô–ba-la-la", de sua autoria. Uma espécie de beguine – musica caribenha já esquecida. Menescal não entendeu nada da letra. Mas quem se importava com letra? A voz do "cara" era um instrumento! Um trombone da melhor qualidade. E João Gilberto não parecia cantar. Dizia as letras, num sussurro, mal abrindo os lábios. E repetiu o estranhíssimo "Ho-ba-la-la" cinco ou seis vezes, cada uma de maneira diferente, mas com a mesma batida. A mesma bossa. Quase ninguém conhecia João Gilberto, no Rio, em 1957, principalmente os mais jovens. Quem ele era, o que fazia, como aprendera violão, como cantar daquele jeito diferente. Sabia-se, vagamente, que viera da Bahia pra cantar num conjunto, mas não se adaptara. E cantava esporadicamente, na noite do Rio. Fascinado, Menescal resolveu "mostrar sua descoberta" aos amigos.

E saiu com o baiano a tiracolo.

Com violão e tudo.

Começou pelo apartamento de Ronaldo Bôscoli, na rua Otaviano Hudson, onde João Gilberto cantou "Ho-ba-la-la" muitas vezes.

E cantou outra canção muito estranha, chamada "Bim-Bom".

Música noite a dentro - Como dormir?
A "pré-Bossa Nova" de Dick Farney


O mestre João Gilberto abriu os ouvidos de Menescal e Bôscoli para uma música que até então desconheciam. O dia amanhecia quando chegaram os três ao apartamento da Nara Leão, onde "o show" foi repetido mais uma vez.

E o grupo partiu para a Urca, onde morava Ana Lu. Fascinado, Roberto Menescal queria aprender aquela "batida" diferente e não tirava os olhos das mãos de João Gilberto. E era professor de violão, como o Carlos Lyra. E a voz? O baiano explicou como conseguia soltar "um monte" de frases num único fôlego. "Reza a lenda" que João Gilberto admirava muito a respiração de Dick Farney, que já cantava uma espécie de "pré-bossa nova". E, mesmo fumando dois maços de cigarros por dia, tinha uma técnica muito especial, em termos de respiração. Sinatra, claro, era o guru maior. Ensinou ao mestre que ensinou ao professor. Talvez João Gilberto nem soubesse que Sinatra era mestre em respiração. Seus mestres eram mesmo os yogues indianos. O baiano era muito estranho!

Com o nome de Farnésio Dutra cantor algum conseguiria ser conhecido, mesmo com o enorme charme que encantava as meninas, à época da Segunda Guerra Mundial.

Assim, um rapaz de 24 anos tornou-se Dick Farney - charme, voz, elegância, bom gosto "pra dar vender", como se dizia. Esbanjava talento no Cassino da Urca, no tempo em que o jogo era permitido. Ele tinha gravado "Copacabana", pela Continental, em 1942, de João de Barro, o nosso querido "Braguinha". Sucesso absoluto que ouve-se até hoje, nas rádios de bom gosto.

Mas Dick queria mais, muito mais. Seu "papa" era Frank Sinatra, "The Voice". Nele se inspirava para cantar, gesticular, andar no palco, estar sempre de gravata e cabelo bem penteado. Já o chamavam de "O Sinatra Brasileiro" e havia até um Fan Clube, de carteirinha e tudo: "Sinatra-Farney Fan Club".

Aos vinte e cinco anos foi para os Estados Unidos para tentar cantar e gravar em inglês, levando um contrato inicial de cinqüenta e duas semanas com a Cadeia de Radio NBC. E não é que deu certo? Gravou um grande sucesso da época: "Tenderly". Nos dois anos seguintes a Continental lançou outros sucessos, clássicos como "Ser ou não ser", "Marina" e "Esquece".

Eram os anos 1947 e 1948, quando voltou para o Brasil - não sem antes ser elogiado pessoalmente pelo maior cantor do século: Francis Albert Sinatra. Como escreveu Ruy Castro, em relação a Frank Sinatra, ouso repetir a frase com relação a Dick Farney: "Não creio que o século vinte tenha fundos para resgatar sua dívida emocional para com Dick Farney". Ele emocionou milhões de corações com "Somos Dois", "Marina", "Copacabana", "Nick Bar", "Aeromoça", "Não tem Solução", "A saudade mata a gente", "Tereza da Praia", "Uma loira", "Um Cantinho e Você" e tantas outras belezas!

Os bronzeados rapazes de Copacabana
Roberto Menescal, Carlos Lyra e a Academia de Violão


Em 1956, pressionado pela familia, Menescal teve que "deixar a boa vida" de pesca submarina, violão e milk shake. E veio o conflito natural de todo jovem: a escolha da profissão. Não sabia se, continuando a tradição familiar, faria o vestibular para Arquitetura, se entrava para a Marinha (onde havia muitos "barquinhos" e muito peixe pra pescar), ou continuava a aprender violão com o Edinho, do Trio Irakitan, para desgosto dos pais.

Falsificando a carteira de estudante, começava a invadir os lugares da noite carioca, fascinado pelo Tito Madi e pela Sylvinha Telles.

Fascinado também pelo disco "Julie is her name", onde um tal de Barney Kessel "destroçava" um tremendo violão!

Preocupados, os pais observavam o fanatismo do Menescal, que cursava o último ano do Curso Científico do Colégio Mello e Souza, na Rua Xavier da Silveira.

Ele soube que no Colégio Mallet Soares, na mesma rua, um tal de Carlos Lyra já tocava violão por cifra, quase profissional. Muitos alunos, e até professores, "matavam aula" pra ouvir o violão do Carlos Lyra, que já gravara duas músicas. Sem o conhecimento dos pais, Menescal rapidamente pediu transferência para o Mallet Soares. Queria ficar perto do mestre das harmonias.

Era 1956. Os pais de Menescal, como todos os pais, não aceitavam o violão, de jeito nenhum. Era "instrumento de boêmio irresponsável". E, coitado do Menescal, que não tinha nada de boêmio. Não fumava. Só bebia milk shake. Com a mesada cortada pelos pais preocupados, o nosso Menescal teria que virar-se. Sem dinheiro para o milk shake, propôs ao Carlinhos Lyra abrirem uma Academia de Violão. Mais que depressa, Carlos Lyra aceitou, louco pra se livrar dos desvelos de sua super-mãe.

MENESCAL, CARLOS LYRA E A ACADEMIA DE VIOLÃO
HISTÓRIAS NO APARTAMENTO DA RUA SÁ FERREIRA


João Paulo, amigo de Carlos Lyra, tinha um pequeno apartamento na Rua Sá Ferreira, para "encontros furtivos".

Sabendo que os dois "professores" planejavam montar uma Escola de Violão propôs-lhes o seguinte:

- Vocês me pagam 10% do que receberem dos alunos e a "Academia" pode começar. Fica estabelecido que os "encontros" estão automaticamente suspensos.

Negocio fechado. E o que parecia uma aventura começou a dar bons frutos. Aluno não faltava, só que a grande maioria era composta de alunas. As mães zelosas começaram a desconfiar do repentino interesse de suas filhas pelo violão. E logo souberam da verdade: Os professores eram "dois tremendos boas pinta".

Mas... negócio é negócio e os professores faziam questão de manter a Academia nos rígidos padrões de respeito às alunas, principalmente o Roberto Menescal.

Sucesso absoluto. Em poucas semanas já havia quase cinqüenta alunas, inclusive a Nara Leão, em cujo apartamento aconteciam as reuniões tão famosas.

Carlinhos Lyra, que já tinha composto sua primeira música [e letra], "Quando chegares" [1954], tinha na praça as músicas "Menino" e "Foi a noite", gravadas pela Silvinha Telles. Ficou independente das "mesadas maternas".

Enquanto dava aulas de violão, Carlos Lyra , em 1956, "estoura" com seu primeiro grande sucesso: "Maria Ninguém". Mal sabia que seria uma das músicas favoritas de Jaqueline Kennedy que cantava "Maria Nobody"!

Daí em diante foi só sucesso. O mestre Tom Jobim afirmava que Carlos Lyra era autor das melhores harmonias. Em 1962 ele estava no famoso Concerto de Bossa Nova, no Carnegie Hall, de Nova York. Uma tremenda desorganização que fez a Bossa ultrapassar fronteiras e ganhar o mundo. Nesse mesmo ano compõe com o mestre Vinicius o musical "Pobre Menina Rica".

Carlos Lyra perguntava ao Vinicius de Moraes:

- Mas, Vinicius, como pode uma menina da Vieira Souto se apaixonar por um mendigo?

E o nosso "poetinha" retrucou: 

- É primavera! É primavera!

Nesse musical estão duas obras primas de poesia e música: "Minha namorada" e "Primavera". Sem dúvida, duas das mais belas obras da nossa MPB.

SURGE UM NOVO PERSONAGEM NA HISTÓRIA DA BOSSA NOVA
RONALDO BÔSCOLI ENCONTRA ROBERTO MENESCAL
E COMEÇA UMA PARCERIA DE PRIMEIRA QUALIDADE


Era 1956. Numa roda de violão, na Gávea, Menescal encontrou um grupo de rapazes cantando "coisas diferentes". Um deles tentava cantar músicas de Dick Farney, o que já era atestado de bom gosto. Era um repórter do jornal "Última Hora" chamado Ronaldo Bôscoli. E cantava muito mal. Conversa vai, conversa vem, viram que tinham muita coisa em comum: Detestavam a tristeza das músicas que à época pareciam "dor de cotovelo". A exemplo de Dick Farney, adoravam Frank Sinatra. O forte do Menescal sempre foi a música. O do Bôscoli, a letra.

Marcaram um encontro que não houve, mas no segundo, na casa de Nara, os dois disseram "presente". Já era 1957 e a "Academia do Violão" estava fechada,"por motivo de força maior".

Ronaldo Bôscoli levou Chico Feitosa, (com quem dividia um apartamento) às famosas reuniões em casa de Nara. Chico já era parceiro de Bôscoli na canção "Fim de noite" e o nosso Ronaldo acabou instalado na casa de Nara, graças à extrema bondade dos pais da futura "musa da bossa nova". Ele tinha 28