Nascido a 13 de agosto de
1951 em Montes Claros (norte de Minas Gerais, quase divisa com Bahia), o
leonino Alberto de Castro Guedes, filho dos baianos (seus pais são de
Riacho de Santana) Dona Júlia de Castro Guedes e Godofredo Guedes, caçula
de uma família de oito irmãos (3 homens e 5 mulheres), adora aviões -
aeromodelos ou ultra-leves.
Com uma voz aguda e cortante, "isso é trejeito mesmo, é uma coisa
natural da minha estranheza - eu sou um cara de trejeitos estranhos..." é
o músico, compositor e vocalista: Beto Guedes.
Com oito anos estava tocando seu primeiro instrumento, um pandeiro para
acompanhar seu pai num conjunto regional que ele formara com uma porção de
parentes e amigos.
Aos nove anos muda-se para Belo Horizonte, tornando-se vizinho de Lô
Borges, com quem forma um conjunto de violão e 4 vozes: The Beevers -
composto por Lô, Márcio, Yé Borges e Beto Guedes, com repertório
exclusivamente dedicado aos Beatles.
Nessa época Milton morava com Lô e tentou várias vezes ensaiar o
conjunto para se apresentar com ele, mas eram muito preconceituosos com a
"Bossa Nova" e preferiram ficar com os Beatles e The Birds.
O conjunto formado por Beto, Lô, Yé e Márcio Borges dura 5 anos e ele
muda para Montes Claros, onde com 15 ou 16 anos liga-se a um grupo da
cidade "que só trabalhava nas férias" tocando Beatles, The Birds, Roberto
Carlos e as versões de Renato e seus Blue Caps -eram Os Brucutus: Cabaré,
Patão, Boca e Beto.
A beatlemania dura até 1968/69 e Beto está com 18 anos, quando o
conjunto se desfaz porque parte da turma passa no vestibular. Na metade de
69, Beto volta a encontrar Lô e começam a trabalhar juntos. Aparecem os
festivais e eles passam a participar.
No Festival Estudantil da Canção tiraram 5º lugar com a música
"Equatorial" - (Lô, Márcio Borges e Beto Guedes). No Festival
Internacional da Canção (1970), "Feira Moderna" (Lô, Beto e Fernando
Brant) fica em 8º lugar. Essa música é apresentada pelo Som Imaginário,
que era composto por Wagner Tiso, Luiz Alves, Robertinho Silva, Tavito, Zé
Rodrix e Fredera. Milton Nascimento participa nesse festival com "Clube da
Esquina" (Milton, Ló e Márcio Borges).
A partir do Fic, Beto passa a morar durante 6 meses com Milton, Lô,
Márcio Borges, Ronaldo Bastos e outros no Rio de Janeiro, participando de
quase todas as faixas do disco Clube da Esquina. Tocando baixo, guitarra,
percussão e faz vocal (1971). Começa a se apresentar nos espetáculos que
traziam Milton Nascimento, Som Imaginário e Lô Borges.
Volta para Minas Gerais (Belo Horizonte) e reorganiza o chamado "Bloco
B" - uma espécie de Clube de Esquina na mesma esquina das ruas Divinópolis
e Paraisópolis no bairro Santa Tereza que Milton homenageia em seu disco.
Um novo elenco de mineiros começa a aparecer: Flávio Venturini, Zé Geraldo
(Vermelho), Tavinho Moura, Toninho Horta, Hely e Zé Eduardo. Desse bloco,
em 72, forma-se o grupo Fio da Navalha (que não chegou a gravar), composto
por Lô, Flávio Venturini, Vermelho, Sirlan e Beto. É desse bloco também,
que, em 73, surge o primeiro disco de Beto Guedes. Dispondo de "um quarto
do disco" ao lado de Novelli, Toninho Horta e Danilo Caymmi (reeditado em
77).
Em 75, grava com Milton Nascimento no LP "Minas", a música "Fé Cega,
Faca Amolada" a qual teve muita importância, pois foi o incentivo para que
os dois gravassem um compacto: de um lado "Caso você queira saber" (Beto,
Flávio V. Márcio B. e Vermelho) e do outro "Norwegian Wood" (John Lennon e
Paul Mc Cartney). Este compacto foi gravado no mesmo ano em que Beto
participa do LP "Minas".
Em 76, assina contrato com a Odeon e em 77 lança seu primeiro disco
individual: "A Página do Relâmpago Elétrico", que recebe ótimas críticas e
supera as previsões de vendagem.
Nesse LP vem uma espécie de selo com uma fruta chamada "pequi", que só
nasce naturalmente, não podendo ser plantada e é usada como símbolo das
suas músicas (referente ao bucolismo que existe em sua linha musical).
Ainda em 77, casa-se com Silvana na Capela Santo Antônio, em Belo
Horizonte. Em 78, no dia 1º de abril nasce seu primeiro filho, Grabriel.
Lança no mesmo ano, seu terceiro disco "Amor de Índio" onde procura cantar
o que resta do índio em cada um de nós, nosso lado primitivo e puro, que
sabe não ter nada a perder. É um canto de louvor à vida, como diz: "Todo
dia é de viver/Para ser o que for/e ser tudo".
Participa do LP Clube da Esquina 2 de Milton Nascimento em 79.
Em 80, sai seu quarto LP "Sol de Primavera". O pequi não está na capa
desse disco "porque o LP foi gravado em outubro e pequi só dá em dezembro
e janeiro. Também tinha que mandar o pequi de Montes Claros para ser
fotografado... ih era muito trabalho".
Aos 14 de maio de 81, nasce o seu segundo filho, Ian. Lança neste mesmo
ano, seu 5º disco: "Contos de Lua Vaga" que só é promovido em shows no
final de 81.
Em outubro de 83, lança uma coletânea de seu trabalho entre os anos de
76 a 81, com o título de "Lumiar".
Em 84, lança seu 6º LP: "Viagem das Mãos".
Este é Beto Guedes que adora conversar nos bares e pescar, que se perde
nas datas, que curte andar de ultra-leve, que em todos os seus discos
homenageia seu pai, encerrando um dos lados com uma música de sua autoria.
Em outubro de 86, na cidade de São Paulo, Beto Guedes dá inicio à sua
maior tournée realizada até então em sua carreira.
Começa a promover o LP ALMA DE BORRACHA que seria lançado pela ODEON em
janeiro, dando-lhe rapidamente seu 1º Disco de Ouro, ultrapassando a marca
de 200 mil cópias vendidas. Marca recorde em sua carreira.
Acompanhado por uma super banda, com vocal e tudo que tem direito,
inclusive visual (outubro de 86 a outubro de 87), Beto realiza pouco mais
de 70 shows, atingindo um público de mais de 400 mil pessoas.
Quebra recordes em vários locais (São Paulo, Recife, Rio, Salvador e
Brasília) e resolve gravar um LP AO VIVO para comemorar seus 10 anos de
carreira solo (A PÁGINA DO RELÂMPAGO ELÉTRICO foi lançado em 77). Convida
Caetano Veloso, que logo aceita o convite e grava em agosto/87, no Morro
da Urca seu novo LP: um apanhado geral de sua carreira na sua concepção
musical atual.
A música e os aviões sempre
tiveram muito em comum na vida de Beto Guedes. Quando pegou num
instrumento ela primeira vez - aos oito anos, em Montes Claros (MG), sua
cidade natal - ele não seria capaz de adivinhar que um dia voaria tão alto
na carreira de músico. E nem que conseguiria pisar num avião de verdade -
seu medo de voar contrastava com a obsessão por aeromodelismo. O tempo
livre de Beto sempre foi dividido entre os aviõezinhos de brinquedo e a
paixão pelos instrumentos herdada do pai, Godofredo Guedes, músico e
compositor, responsável pela maioria dos bailes e serestas de Montes
Claros.
O gosto pela música estava diretamente ligado aos Beatles. Em 1964, aos
12 anos, quando o quarteto de Liverpool já era febre no mundo inteiro,
Beto, morando em Belo Horizonte, juntou-se aos vizinhos para formar o
grupo, The Bevers (com repertório dedicado aos Beatles, obviamente). Os
vizinhos, no caso, eram os irmãos Márcio, Yé e Lô Borges. A Beatlemania
durou toda a adolescência e ainda incluiu um outro grupo, Brucutus, que
animava festinhas durante as férias em Montes Claros.
No final da década, mais
amadurecidos, Beto e Lô começaram a compor e participar de festivais. Em
1969, quando foram ao Rio participar do Festival Internacional da Canção
com a música "Feira Moderna", bateram na porta do conterrâneo Milton
Nascimento. A acolhida de Milton não poderia ter sido mais proveitosa. A
amizade e a admiração profissional mútua fizeram com que ele convidasse
Beto Guedes para participar do antológico LP "Clube da Esquina", de 1971.
Tocando baixo, guitarra, percussão e fazendo vocais, Beto começava a
ganhar projeção junto com uma turma talentosa, que incluía nomes como
Wagner Tiso, Ronaldo Bastos e Toninho Horta.
A safra de novos músicos
mineiros era completada por Flávio Venturini, Sirlan, Vermelho, Tavinho
Moura, entre outros, que Belo foi encontrar quando decidiu voltar a BH. As
gravadoras passaram a abrir os olhos e em 1973 a Odeon resolveu bancar o
LP "Beto Guedes/Danilo Caymmi/Novelli/Toninho Horta". A Beto, coube um
quarto do disco. Não era muito, mas para ele, era o suficiente.
Perfeccionista e naquela altura ainda muito inseguro, não conseguia
acreditar no valor de suas músicas, embora a gravadora já lhe acenasse com
ofertas para gravar um disco solo.
Quatro anos foi o tempo
necessário para que criasse asas próprias. Em 1977, ele finalmente
levantou vôo, a bordo do LP "A Página do Relâmpago Elétrico". O título foi
sugestão do parceiro Ronaldo Bastos, depois que este viu no álbum de um
colecionador de fotos de aviões da 2ª guerra, uma imagem do avião
"Relâmpago Elétrico". Tá na cara que Beto, fanático por aviõezinhos de
brinquedo, adorou a sugestão. O disco, que tinha a colaboração de vários
amigos mineiros, chamou a atenção por revelar seus dotes como cantor, já
que até então, ele era conhecido apenas pela versatilidade de
multi-instrumentista. O tímido sucesso das músicas "Lumiar" e "Maria
Solidária" foi suficiente para que o disco chegasse às 21 mil cópias
vendidas, três vezes mais do que calculava a gravadora.
Mal sabiam eles, que "Lumiar"
viraria um dos hinos da juventude cabeluda paz-e-amor e pró-natureza. E
que Beto seria um dos ídolos dessa geração, principalmente após o
lançamento de seu segundo álbum, "Amor de Índio". A faixa-título, dele e
de Ronaldo Bastos, integrava o espírito de todo o disco. Versos como "A
abelha fazendo o mel/Vale o tempo em que não voou" ou "Todo dia é de
viver/Para ser o que for/E ser tudo", segundo Beto, expressavam o lado
primitivo e puro que ainda havia em cada uma das pessoas, como um canto de
louvor à vida.
Quando lançou seu terceiro disco, "Sol de Primavera", em 1980, já tinha
uma legião de fãs no eixo Rio-São Paulo. Mas nunca abandonou a mineirice
que se tornara sua marca registrada. Botava o pé na estrada - de carro,
porque não perdia o medo de voar - , mas continuava morando em Belo
Horizonte, onde tinha a tranqüilidade para se dedicar aos brinquedinhos
voadores e às novas composições. Era na janela, esperando o anoitecer que
as idéias surgiam. E amadureciam tanto, que seus álbuns demoravam no
mínimo dois anos para sair. O quinto deles, "Viagem das Mãos", de 1984,
foi um marco em sua carreira. Àquela altura, Beto Guedes já era um artista
de primeira linha, com vendagens oscilando entre 50 e 60 mil cópias e uma
marca sonora registrada. Mas este álbum trazia a canção que, junto com
"Amor de Índio", seria o maior sucesso de sua carreira: "Paisagem da
Janela", de Lô Borges e Fernando Brant. Ao mesmo tempo, representava o
estouro nacional do compositor, que naquele momento superava o medo de
voar e, pasmem, já cogitava pilotar um ultraleve construído por ele mesmo!
A viagem de Beto alcançara
as alturas, e o ápice acabou sendo "Alma de Borracha", que, lançado em
1986, finalmente lhe rendeu um Disco de Ouro e o reconhecimento no
exterior. O título do disco (tradução de "Rubber Soul") homenageava os
Beatles, enquanto o repertório trazia uma grata surpresa: a faixa "Objetos
Luminosos", primeira parceria com seu mentor e padrinho musical Milton
Nascimento. O Rio de Janeiro - cidade onde fez shows antológicos e sempre
teve recepção calorosa do público - foi o local escolhido para a gravação
de um disco ao vivo, no final de 1987.
Ao todo, foram cinco anos longe dos estúdios. Em 1991, Beto Guedes
voltou a gravar. Com a meticulosidade de sempre, ele cuidou de cada
detalhe de "Andaluz", seu oitavo disco e último contrato com a EMI-Odeon.
Um disco em que o uso de sintetizadores dava um chega pra lá em alguns
instrumentos barrocos tão utilizados pelo compositor em trabalhos
anteriores. No ano seguinte, era de se esperar que Beto caísse na estrada
mais uma vez. Mas ele preferiu trocar o violão pelo macacão de mecânico e
passou a dedicar cada vez mais à sua paixão por aviões, só que construindo
um monomotor de verdade. Foram mais sete anos restritos a shows
esporádicos e muita reflexão.
Até que, lá no alto, sobrevoando os céus de Minas, ele sentiu a
sensação de quem venceu o medo de um desafio e se tornou dono de seu
próprio destino. Olhou para o futuro e viu, no horizonte infinito, música.
Os versos já estão escritos. Mineiramente, Beto Guedes está de volta.