Adoniran Barbosa

João Rubinato, o Adoniran Barbosa, nasceu em Valinhos, São Paulo, no dia 6 de agosto de 1910. Foi compositor, cantor, humorista e ator. Era filho de imigrantes italianos. Viveu até 23 de novembro de 1982.

Ainda muito jovem, em Jundiaí, passou a ajudar o pai no serviço de cargas em vagões da E.F. São Paulo Railway, atual E.F.Santos - Jundiaí. Ainda em Jundiaí, trabalhou como entregador de marmitas e varredor numa fábrica. Em 1924, transferiu-se com a família para Santo André, onde exerceu as funções de tecelão, pintor, encanador, serralheiro e garçom, na casa do então Ministro da Guerra, Pandiá Calógeras. Posteriormente, foram para São Paulo, onde aprendeu o ofício de metalúrgico-ajustador no Liceu de Artes e Ofícios. Foi obrigado a abandonar a função porque seus pulmões ficaram afetados pelo pó do ferro esmerilhado. Empregou-se em outras funções, entre as quais a de vendedor.

"Adoniran Barbosa é um grande compositor e poeta popular, expressivo como poucos; mas não é Adoniran, nem Barbosa, e sim João Rubinato, que adotou o nome de um amigo funcionário do Correio e a soberania de um compositor admirado. A idéia é excelente, porque um artista inventa antes de mais nada a sua própria personalidade; e porque, ao fazer isto, ele exprimiu a realidade tão paulista do italiano recoberto pela terra e do brasileiro de raízes européias. Adoniran Barbosa é um paulista de cerne que exprime a sua terra com a força da imaginação alimentada pelas heranças necessárias de fora.

Já tenho lido que ele usa uma língua misturada de italiano e português. Não concordo. Da mistura, que é o sal da terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil das Escolas, se aliaram com naturalidade às deformações normais do português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto, em cuja casa nós fumo e não encontremo ninguém, exatamente como por todo esse país. Em São Paulo, hoje, o italiano está na filigrana.

A fidelidade à música e à fala do povo permitiram a Adoniran exprimir a sua idade de modo completo e perfeito. São Paulo muda muito, e ninguém é capaz de dizer aonde irá. Mas a cidade que nossa geração conheceu (Adoniran é de 1910) foi a que se sobrepôs à velha cidadezinha caipira, entre 1900 e 1950; e que desde então vem cedendo lugar a uma outra, transformada em vasta aglomeração de gente vinda de toda a parte.

A nossa cidade, que substituiu a São Paulo estudantil e provinciana, foi a dos mestres-de-obra italianos e portugueses, dos arquitetos de inspiração neo-clássica, floral e neo-colonial, em camadas sucessivas. São Paulo dos palacetes franco-libaneses do Ipiranga, das vilas uniformes do Brás, das casas meio francesas do Higienópolis, da salada da Avenida Paulista. São Paulo da 25 de março, dos sinos, da Caetano Pinto dos espanhóis, das Rapaziadas do Brás, - na qual se apurou um novo modo cantante de falar português, como língua geral na convergência dos dialetos peninsulares e do baixo-contínuo vernáculo. Esta cidade que está acabando, que já acabou com a garoa, os bondes, o trem da Cantareira, o Triângulo, as cantinas do Bixiga, Adoniran não a deixará acabar, porque graças a ele ela ficará misturada vivamente com a nova mas, como o quarto do poeta, também, “intacta, boiando no ar”.

A sua poesia e a sua música são ao mesmo tempo brasileiras em geral e paulistanas em particular. Sobretudo quando entram (quase sempre discretamente) as indicações de lugar, para nos porem no Alto da Mooca, na Casa Verde, na Avenida São João, na 23 de Maio, no Brás genérico, no recente metrô, no antes remoto Jaçanã. Quando não há esta indicação, a lembrança de outras composições, a atmosfera lírica cheia de espaço é a de Adoniran, nos fazem sentir por onde se perdeu Inês ou onde o desastrado Papai Noel da chaminé estreita foi comprar Bala Mistura: nalgum lugar de São Paulo. Sem falar que o único poema em italiano deste disco nos põe no seu âmago, sem necessidade de localização.

Com os seus firmes 65 anos de magro, Adoniran é o homem da São Paulo de entre as duas guerras, se prolongando na que surgiu como jibóia fuliginosa dos vales e morros, para devorá-la. Lírico e sarcástico, malicioso e logo emocionado, com o encanto insinuante de sua voz anti-rouca, o chapeuzinho de aba quebrada sobre a permanência do laço de borboleta dos outros tempos, ele é a voz da Cidade. Talvez a borboleta seja mágica; talvez seja a mariposa que senta no prato da lâmpada e se transforma na carne noturna das mulheres perdidas. Talvez João Rubinato não exista, porque quem existe é o mágico Adoniran Barbosa, vindo dos carreadores de café para inventar no plano da arte a permanência de sua cidade e depois fugir, com ela e conosco, para a terra da poesia, ao apito fantasmal do trenzinho perdido da cantareira."

Antônio Cândido (*)

(*) Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP e um de nossos maiores críticos literários. Nascido no Rio de Janeiro, vivendo em São Paulo, escreveu o texto para figurar na contracapa do primeiro LP de Adoniran, lançado em 1976. (Odeon).

Agradeço à amiga Maria Helena Rubinato, filha de Adoniran, por ajudar a construir essa página.

Seu Barbosa

Paulo Vanzolini

Ô Seu Barbosa, nós era dois casado certo,
Morando num bairro longe,
Mas passando ônibus perto.
Uma vista tão linda, de cima do nosso morro,
E as criança precisando, tinha um Pronto-Socorro,
- Só uma hora dali –
Eu e Marly vivia satisfeito.
O que fizeram com nós, seu Barbosa,
Não está direito.

O pivô do enguiço foi um gato
Pertencente um cidadão por nome de Rubinato.
O miau sumiu e ele botou o dedo ni mim,
Só porque me viu encourando o tamborim.

Foi na delegacia, se acertou com o escrivão,
Já no outro dia, recebi intimação.
Mas eu vou lá, quem não deve não dá bola,
Eu provo que o tamborim eu fiz com o
Gato da espanhola.
Seu Rubinato, vou lhe dar um bom conselho:
Você arranja outro gato,
E a Marly lhe ensina a fazer coelho.



Mais informações sobre Adoniran Barbosa: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

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Fotos de família, cedidas por Maria Helena, sua filha

 
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No Bixiga

 

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Largo de São Bento

 

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A bicicletinha foi uma das inúmeras que ele fez. Ele adorava trabalhar com as mãos e aproveitava qualquer pedaço de arame, lata vazia, cano plástico, enfim, qualquer material usado para construir seus brinquedos. Montou uma pequena oficina nos fundos da sua casa e lá fez um trem, um tobogã, um carrossel, um triciclo de entrega de mercadoria, as bicicletinhas, uma chaleira, enfim, alguns objetos.
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01-ago-2008