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Mesmo
após a fundação do Rio, os franceses não deixaram a cidade. Em 1567, no
dia 18 de janeiro, Mem de Sá mandou reforços para enfrentá-los. A batalha
final aconteceu em 20 de janeiro, dia de São Sebastião, no
Outeiro da Glória. Os
portugueses venceram, mas Estácio de Sá foi ferido no rosto e morreu um
mês depois. Com a sua morte, Mem de Sá transfere
a cidade da Vila Velha, no Cara de Cão, para o Morro do Descanso, depois
conhecido como Morro do Castelo.
JEAN
DE LÉRY
Jean de Léry e André de Thevet foram os responsáveis pelas primeiras referências
sobre o pau-brasil em livro. Léry chegou ao Brasil em 1557, época em que
Nicolau Durand de Villegaignon tentou desenvolver o projeto de estabelecer no
Rio de Janeiro a 'França Antártica', uma colônia que serviria à exploração
mercantil e abrigaria os protestantes perseguidos na França. No livro
Viagem à Terra do Brasil, Jean de Léry
documentou a incompreensão do nativo em relação à necessidade de acumulação de
bens por parte dos colonizadores.
Os índios não compreendem o mercantilismo
... Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros que se deram ao trabalho de ir buscar seu
arabutã (pau-brasil). Uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros,
mairs e perós (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como supunha ele, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com seus cordões de algodão e suas plumas.
Retrucou o velho imediatamente: E por ventura precisais de muito? - Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. - Ah!, retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhes dissera: mas esse homem tão rico de que me falas não morre? - Sim, disse eu, morre como os outros.
Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso, perguntou-me de novo: E quando morrem, pra quem fica o que deixam? - Para seus filhos, se os têm, respondi: na falta destes, para os irmãos ou parentes mais próximos. - Na verdade, continuou o velho, que , como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros
mairs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem. Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois de nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados.
(Jean de Léry - Viagem à Terra do Brasil, 1557)
O Rio de Janeiro foi novamente invadido
em 1710 e 1711 pelos corsários Jean Francois Du Clerc e Duguay-Trouin.
Em 1710 os franceses foram derrotados, mas em 1711 impuseram enorme
humilhação à cidade, sob
o comando do corso francês
Duguay-Trouin. Com 6000 homens em 17 navios ocuparam e saquearam a
cidade do Rio de Janeiro, onde permanecem por 2 meses, trazendo horror e pânico
aos locais. Depois de
pilhar a cidade e afugentar a população para o interior, Duguay-Troin exigiu o
pagamento de um resgate sob pena de destruí-la. O governador de então,
Francisco de Castro, acabou pagando com seus próprios recursos parte do
valor exigido, aconselhando o corso a levar todo ouro e riquezas que
conseguisse amealhar em butim, alegando que a população levara consigo
seus pertences de valor, tornando impossível arrecadar o resgate exigido.
O
Corsário,
ao contrário do Pirata, do ponto de vista do direito internacional,
é um combatente regular, a quem o governo dava uma carta de corso.
Poderia ser mantido diretamente pelo governo ou por um particular. Não há
grande diferença dos piratas quanto aos métodos, porém, o corso reservava
de 1/3 a 1/5 do amealhado para o tesouro real.
Em 11 de agosto de 1710 chegou à
barra a esquadra do capitão-de-fragata francês Jean François Duclerc, e
foram repelidos pelos portugueses. Em 16 de agosto houve nova tentativa,
entre 8 e 9 horas da noite, com cinco naus que traziam o capitão Duclerc e
suas tropas de invasão. No dia seguinte, em 17 de agosto, a esquadra de
Duclerc, depois de trocar tiros com a Fortaleza de Santa Cruz, desiste de
forçar a entrada da barra e ruma para a Ilha Grande, onde chegam no dia 27.
Em 11 de setembro o capitão Duclerc desembarca com 1.050 homens em
Guaratiba e toma o caminho da cidade, marchando por sete dias. Cruzou o que
hoje são os bairros da Barra da Tijuca e Jacarepaguá, atravessando
montanhas e florestas. Após invadir a cidade pelos lados do atual bairro de
Santa Tereza, chegaram na Praça do Carmo (atual Praça XV) em 19 de
setembro. Nova batalha e Duclerc, com seus 600 homens restantes, renderam-se
encurralados no trapiche da cidade. Em 21 de setembro os navios de Duclerc
entregam-se por ordem de seu capitão, que foi mantido como prisioneiro de
guerra na cidade.
Em 18 de março de 1711 o capitão Duclerc
é assassinado em seu cárcere, uma confortável casa na Rua da Quitanda. A
França, a pretexto de indignação com o ocorrido envia, sob o comando do
almirante René Duguay Trouin, uma esquadra com 17 navios e 5.400 homens,
que chega ao Rio de Janeiro em 12 de setembro de 1711. Favorecida por forte
nevoeiro penetra na cidade sem ser vista e vai ocupar com 500 homens a Ilha
das Cobras. Logo após desembarcam 3.800 homens na praia de São Diogo e
ocupam sem resistência os morros de São Diogo, da Providência , do
Livramento e da Saúde. Em 20 de setembro às 11 horas da noite, depois do
bombardeio da cidade pelas forças de Duguay Trouin, o governador Francisco
de Castro Morais abandona a cidade e foge para o interior. Em meio a
medonhas trovoadas e chuvas, a população também abandona a cidade em pânico.
Em 23 de setembro a guarnição da Fortaleza de Santa Cruz rende-se às forças
francesas. Em 10 de outubro ocorre a assinatura da convenção para
pagamento de grande soma em dinheiro, pelo resgate da cidade; acordam o ato
o almirante Duguay Trouin e o mestre de campo João de Paiva Souto Maior,
representando do governador Francisco de Castro Morais. Em 11 de outubro
chega à cidade uma tropa de 6.000 homens chefiada por Antonio Albuquerque
Coelho de Carvalho, governador da capitania de São Paulo e Minas, que nada
pode fazer em função do acordo assinado entre o governador Castro Morais e
os invasores. Em 4 de novembro, após receber a última parcela do valor
acordado, Duguay Trouin evacua a cidade. Em 13 de novembro as tropas
francesas partem do Rio de Janeiro deixando para trás uma cidade totalmente
devastada.
Sobre as invasões de
1710 e 1711 Brasil Gerson, em seu famoso livro "História das Ruas do
Rio", relata:
"Rua
da Quitanda - Ela é uma rua - a da Quitanda - que está ligada, bem de
perto, a acontecimentos decisivos da nossa história, e a um crime famoso
que teve profundas repercussões da nossa vida estudantil. Porto de
desembarque para Portugal do ouro que descia das montanhas mineiras, o Rio
passou a despertar, logo no começo do século XVIII, a cobiça de muita
gente ávida de fácil enriquecimento. Esse o motivo que levou o Capitão de
Fragata Duclerc a atacá-o em setembro de 1710, com sua poderosa esquadra.
Temeroso de forçar as fortalezas costeiras, contornou-as por Guaratiba,
vindo dali a pé, à frente de seus marinheiros. O ataque foi iniciado
depois de um descanso no Engenho Velho dos jesuítas, e com inteiro êxito,
a princípio, para os invasores, só repelidos na Rua Direita (ou 1º de
março), em combates nos quais de destacaram os estudantes do Colégio da
Sociedade de Jesus, do Morro do Castelo, os maiores dos quais eram
organizados militarmente e estavam sob o comando do Capitão Bento do Amaral
Coutinho, irmão do Capitão-Mor de São Paulo do clã dos Amaral Gurgel,
descendente do francês Toussaint Gurgel e famoso aventureiro que, forçado
a abandonar o Rio, se havia então imposto como duro e vingativo
"sargento de batalha" dos emboabas contra mineradores paulistas em
Minas - e, além desses estudantes, os escravos e os homens brancos
recrutados por Gregório de Castro Morais, irmão do Governador, e pelo
Frade Francisco de Menezes, não menos aventureiro que Bento, e de Minas
escorraçado como concessionário do contrato da carne.
Refugiados
na Alfândega, acabaram por se render, e no dia 19 seu comandante Duclerc
foi levado preso para o Colégio e logo transferido para o Forte de São
Sebastião, também no Morro do Castelo, e por último para a casa do
Tenente Tomás Gomes da Silva, na esquina da Rua da Quitanda e da do Sabão
(ou General Câmara, já demolida), à vista da Candelária - e nela sendo
assassinado na noite de 18 de março de 1711 por quatro encapuçados.
Para
vingá-lo e ver se levava o que ele não levou, outra frota francesa
apareceu no Rio a 12 de setembro, ainda de 1711, dispondo de 750 peças de
fogo, entrando a barra protegida por um grande nevoeiro, e sem que lhe
pudesse oferecer maior resistência (diante da inércia do Governador Castro
de Morais) os que se tinham oposto a ele, entre os quais o Sargento-mor de
batalha Costa Ataíde, o Capitão-de-mar-e-guerra Gillet du Bocage (avô do
poeta), o Coronel Manuel Correia Vasques e os capitães Manuel Gomes Barbosa
e Bento do Amaral, este morto em combate, no dia 23, às margens da Lagoa da
Sentinela, na confluência das ruas do Riachuelo (Mata-Cavalos) e Frei
Caneca (Mata-Porcos).
O
saque foi espantoso. Tudo quanto havia de valioso ao alcance de suas mãos
eles transportaram para bordo: ouro da Casa dos Contos, açúcar e outras
cargas dos trapiches, coisas belas das igrejas e das casas particulares.
Arquivos foram remexidos e queimados. E para retirar-se, satisfeito e
vingado, Duguay-Trouin, embora algo contido nos seus ímpetos pela
mediação hábil dos padres, ainda exigiu que lhe dessem dinheiro, no valor
de 616.000 cruzados - contados moeda por moeda, na Rua da Quitanda número
89, esquina da do Sabão.
Com
os homens que lhe restariam, Costa Ataíde se retirou para o Engenho Novo, e
aí encontraria o irmão de Bento do Amaral, o Capitão-mor de Paraty,
Francisco Gurgel do Amaral, vindo do litoral de sua jurisdição com mais de
500 voluntários, para a expulsão do invasor. E a eles se juntando, por
outro lado, o Governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, com
mais de mil paulistas e emboabas já por eles apaziguados, numa marcha
batida de 17 dias através do Caminho Novo, que Rodrigues Garcia Pais (o
filho do Caçador de Esmeraldas) tinha aberto à sua custa entre Minas e o
Rio, e concluído por volta de 1700. E eis por que, sabedor de que ele já
se havia acampado em Irajá para recompor suas forças, o invasor
saciado abandonaria seu plano de fixar a bandeira da França na terra
carioca permanentemente, e zarparia, antes de ter de enfrentá-los, a
Francisco do Amaral e a Albuquerque reunidos, e razão pela qual o povo do
Rio aclamaria Albuquerque seu novo governador."
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