A ORIGEM DO NOME "FAVELA"

O carnaval carioca tinha, na Praça Onze, a sua melhor vibração popular. Os freqüentadores da Praça Onze eram, sem dúvida, além de outros, os que desciam dos barracos do Morro da Providência, chamado "FAVELA", nessa sua crista superpovoada, por influência da campanha de Canudos.

Ao regressarem das expedições contra Antônio Conselheiro, no fim do século 19, receberam os soldados do Coronel Moreira Cesar e do General Artur Oscar, alguns recursos para instalar-se em casa própria no Rio. 

Foi ali, nas abas da Providência, que eles o fizeram, e logo disseram que ela era a sua "favela" carioca, numa alusão ao morro do sertão baiano de onde a artilharia legalista bombardeava o reduto daqueles jagunços místicos. * 

E o nome, popularizando-se, ficou sendo também dos nossos demais conglomerados humanos semelhantes para, afinal, figurar depois no dicionário como um novo brasileirismo, bem típico dos tempos modernos, nas nossas atravancadas metrópoles.

(História das Ruas do Rio - Brasil Gerson)

(*) A cidadela de Canudos foi construída junto a alguns morros, entre eles o Morro da Favela. O Morro de Favela tem este nome porque era coberto por uma planta, chamada de favela. Trata-se de uma planta rasteira, característica da região Nordeste.

(Gustavo Stender)

 



GUIMBAUSTRILHO e outros mistérios suburbanos

Nei Lopes

(Radiografia Carioca)

Vamos dar uma volta pelos arredores da Central.

Aquele morro ali é o morro da Providência, mais conhecido, antes, como "morro da Favela".

Favela, como vocês sabem, é todo núcleo habitacional surgido desordenadamente, em terreno público, de domínio não definido ou mesmo alheio, localizado em área sem urbanização ou melhoramentos. O termo chegou ao Rio no século 19, para denominar exatamente uma parte do morro da Providência, por semelhança com um "morro da Favela", existente no interior da Bahia, de onde vieram, após a Guerra dos Canudos, em 1897, alguns dos primeiros povoadores. Esse núcleo pioneiro tornou-se um forte pólo irradiador da cultura negra, da mesma forma que outras "favelas"  que se foram formando no Rio, no maciço da Tijuca, em direção aos subúrbios, à Baixada Fluminense e à Zona Oeste da cidade, com famílias emigradas, principalmente, do norte do Estado e do Vale do Paraíba. Hoje, a predominância de famílias negras parece se verificar apenas nos núcleos mais antigos, como os morros de Mangueira, do Salgueiro, do Formiga, do Turano, do Borel e da Serrinha. Observem o leitor e a leitora que Salgueiro, Turano e Formiga são sobrenomes de antigos proprietários ou posseiros daquelas terras. E que Borel foi o nome de uma fábrica de cigarros que se instalou no local.

Mas o fato é que, com relação às favelas de hoje, aquele papo de "barracão de zinco, sem telhado, sem pintura, lá no morro" ou "conjunto de habitações populares toscamente construídas" é coisa do passado. Hoje, os milhões de moradores dessas comunidades cariocas vêm trocando as tábuas velhas, o sopapo e o zinco pelas casas de alvenaria com lajes de concreto, esquadrias de alumínio e outras melhorias. E é claro que, vista de uma casa assim, a Presidente Vargas, aqui em baixo, fica mais bonita. Quer ver só? Canta comigo:

Salve o estadista, idealista e realizador!

Getúlio Vargas, o grande presidente de valo-o-or!

Este samba é do meu saudoso compadre Osvaldo Vitalino de Oliveira, o Padeirinho da Mangueira, um dos maiores estilistas do samba sincopado e malandreado. E foi o enredo da verde-rosa em 1956, doze anos depois da inauguração da avenida e trinta e um anos antes do Compadre Padeiro cantar para subir.

No dia 7 de setembro de 1944, o presidente Getúlio Dorneles Vargas inaugurou a nova avenida, depois da demolição de 525 casas, muitas críticas e transtornos causados ao povo. A obra foi considerada "faraônica, mirabolante, grandiosa demais e perfeitamente dispensável".

O projeto original estabelecia a criação de uma zona comercial entre a Candelária e a Praça da República e, a partir daí, até a Praça da Bandeira, a avenida seria exclusivamente residencial.

Passe o mouse sobre a foto e veja a transformação do local

Dentre os prédios demolidos estavam as igrejas de São Domingos, São Pedro, Bom Jesus do Calvário e Nossa Senhora da Conceição; o antigo prédio da Prefeitura; alguns bancos; e um mercado público. Mas foi a destruição da Praça 11 que mais provocou reações, principalmente por parte da música popular, como naquele samba de Herivelto e Grande Otelo:

Vão acabar com a Praça Onze

não vai haver mais escola de samba, não vai... 

Mas olha só! Esta era a Praça Onze tão querida! - como dizia a marcha-rancho de Chico Anísio e João Roberto Kelly. Aqui o couro comia, mermão! Pois aqui era como a Congo Square em New Orleans, o centro do carnaval das populações negras do Rio de Janeiro. Aqui se exibiam, dos anos de 1930 aos de 1950, as escolas de samba e os ranchos carnavalescos; e confraternizavam-se ou se confrontavam, nas rodas de batucada e pernada, os sambistas descidos dos morros e subúrbios.

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02-ago-2008