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Desvendado o
enigma da Pedra da Gávea
Eric Brücher Camara
Esfinge, tumba fenícia, portal para o mundo subterrâneo? Há quase
200 anos os mistérios da Pedra da Gávea intrigam excursionistas,
pesquisadores e esotéricos. No último dia 28, uma expedição de
cientistas das UFRJ e da Uerj, acompanhada por repórteres do GLOBO e
guiada pelo montanhista Sérgio Marcondes, da Outdoor Consultants,
desvendou o enigma. Foram necessárias quase 14 horas de caminhada para
levar o equipamento GPR (sigla em inglês para radar de penetração no
solo), que "enxerga" através da rocha, até o alto dos 842
metros da pedra. O resultado deve decepcionar os iniciados:
- Os dados obtidos não mostraram nada além de rocha maciça na
Pedra da Gávea - diz a geofísica Paula Ferrúcio da Costa, professora
e líder da equipe de cientistas da UFRJ.
A existência de uma cavidade seria indício de que a pedra seria a
tumba do rei fenício Badezir, que em 850 a.C. teria sido enterrado num
salão ao lado de dois filhos, dois escravos e uma galera. A teoria
surgiu no século XIX, com um certo frei Custódio, especialista em
epigrafia (estudo de inscrições em pedra), que teria alertado dom João
VI para a existência de inscrições na Pedra da Gávea. A lenda ainda
existe, às vésperas do 31º Congresso Internacional de Geologia, que
começa hoje no Rio
Em 1839, uma expedição do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro (IHGB) não conseguiu confirmar se as marcas tinham sido
feitas pela mão do homem ou pela ação do tempo. A dúvida persistiu
e, em 1930, foi publicado o livro "Inscripções e tradições da
América pré-histórica", de Bernardo de Azevedo da Silva Ramos.
Nele, o arqueólogo amador traduzia as supostas inscrições. De acordo
com Ramos, elas diziam "Tiro, Fenícia, Badezir, primogênito
Jethbaal" - sendo Tiro uma das cidades-estados da Fenícia e
Badezir outra grafia de Baalazar, que teria reinado naquela cidade entre
855 e 850 a.C.
- As tais inscrições não passam de falhas geológicas. Com as
intempéries, os minérios mais sensíveis gastam e o resultado ficou
com a aparência de inscrições - afirmou o geólogo Marco André
Malmann Medeiros, da Uerj.
Balde de água fria nos seguidores da Sociedade Brasileira de Eubiose,
que cultuam a Pedra da Gávea como um dos marcos do "Brasil fenício".
Em seus escritos, o patrono do grupo, Henrique José do Nascimento,
compara a forma da pedra a uma esfinge egípcia e conta a história dos
fenícios Jethbaal, sua irmã Jeth Baal-Bey e o pai, Badezir, que teriam
sido expulsos de Tiro.
- Ainda não há prova científica da vinda dos fenícios ao Brasil.
Nem no Rio, nem em outro estado - afirmou o professor Francisco Otávio
da Silva Bezerra, antropólogo cultural e um dos fundadores do Centro
Brasileiro de Arqueologia.
O portal dos fenícios, uma reentrância retangular de cerca de 15
metros de altura bem próxima ao cume da Pedra da Gávea, também é
objeto de lendas. A mais fantástica conta que o portal seria a entrada
para Agarta, império subterrâneo com milhares de habitantes.
Se a arqueologia não confirma a tese dos fenícios e tampouco a
descarta, a geologia é mais categórica: as medições realizadas com o
GPR pelos geofísicos da UFRJ, no dia 28 de julho, não apontaram
qualquer reentrância atrás do portal.
O diagnóstico também é desanimador para quem esperava um túnel
escondido. Os geofísicos Carlos Eduardo Guerra e Marcelo Marques, da
UFRJ, analisando os gráficos obtidos pelo equipamento, descartam a
existência de qualquer caverna nas proximidades do portal.
A aura de mistério da Pedra da Gávea atraiu de cientistas a esotéricos,
passando pelo cantor Roberto Carlos; o ator José Mojica Marins, o Zé
do Caixão; o tecladista inglês Rick Wakeman; e o paranormal Uri Geller.
Em 1952, a revista "O Cruzeiro" publicou uma das primeiras
fotos de disco voador de que se tem notícia, bem ao lado da pedra.
Hoje, sites na Internet difundem lendas para todos os gostos. Em 1989
foi a vez de o filme "Os Trapalhões na terra dos monstros"
explorar a suposta origem fenícia da pedra.
Em 1973, a revista "Planeta" publicou uma entrevista com o
vidente Alex Madruga, que garantiu ter visto vultos que vestiam mantos
de cor púrpura bordados a ouro. Anos depois, foi a vez de Uri Geller
dizer que sentira vibrações na pedra, que teria sido palco de sacrifícios.
Em 1977, o escritor Erich von Däniken, autor do best-seller
"Eram os deuses astronautas?", escreveu o prefácio do livro
"Mensagem dos deuses: para uma revisão da História do
Brasil", do jornalista Eduardo B. Chaves, obra dedicada à Pedra da
Gávea. Entre as teorias apresentadas, está a de que os descendentes
dos habitantes de Atlântida - o continente perdido citado pelo filósofo
Platão em um de seus "Diálogos" - teriam modelado a pedra.
A Internet oferece farto material com outras explicações. Um dos
mais respeitados sites sobre cultura fenícia, apresenta um texto em que o autor lista vestígios da cultura fenícia
no Brasil, entre eles inscrições na Pedra da Gávea.
Uma velha vontade de ver fenícios
por toda a parte
Vontade não faltou
para encontrarem vestígios de fenícios ou vikings no Brasil. O
historiador Johnni Langer, da Universidade Federal do Paraná, em
Curitiba, procura esclarecer na tese de doutorado "A arqueologia no
Brasil Império" tamanha disposição de arqueólogos e cientistas da
época para descobrir sinais de outras civilizações avançadas
anteriores à chegada dos descobridores, em 1500. Langer chegou à
conclusão de que os esforços faziam parte da construção de um
nacionalismo comparável ao da Europa.
- Foi a época em que se começou a construir a nação. E o berço da
civilização não podia ser apenas a Europa - explica o historiador, que
dedicou o capítulo "O enigma de uma esfinge" aos mistérios da
Pedra da Gávea.
A tese traça um paralelo entre as "descobertas" fenícias no
Brasil e a interpretação de inscrições ditas fenícias nos Estados
Unidos. Em 1680, o americanista francês Antonio Court de Gebelin estudou
as inscrições da pedra de Dighton, no estado de Massachusetts e chegou
à conclusão de que eram de procedência fenícia. Para ele, os fenícios
haviam estado em toda a Terra.
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