As notícias têm um grande defeito: se perdem no tempo. Amanhã ninguém mais se lembra delas.

Em março de 2000, com a grande mortandade de peixes que houve na lagoa Rodrigo de Freitas, publicamos a matéria que se segue. Para que não se perca, como tantas outras, resolvemos transcrevê-la na íntegra para este espaço dedicado ao bairro Lagoa.

Que sirva de alerta e eterna lembrança para aqueles que insistem em destruir a natureza. Que seja um estímulo e alento para aqueles que amam a vida e se preocupam com o nosso planeta.

A lagoa pede socorro!

Lagoa Rodrigo de Freitas - Foto de José Conde da Rocha

Foto de José Conde da Rocha

O problema é antigo e cada vez se agrava mais.

 Conforme aumenta a população dos bairros vizinhos, mais poluentes são despejados na lagoa.

Os postos de gasolina jogam seus produtos químicos, os rios que ali desembocam  estão poluídos por esgotos e muitos outros produtos nocivos.

Peixes continuam a morrer na Lagoa Rodrigo de Freitas

A Rodrigo de Freitas é, na verdade, alimentada mais por água doce (chuva e rios) do que pela água do mar. Sempre foi assim, mesmo quando era ocupada pelos índios Tamoios (aqueles que mais tarde foram assassinados pelo Governador Salema, como contamos na seção HISTÓRIA).

As opiniões são desencontradas. As autoridades não se entendem. Cartas aos jornais são verdadeiras pérolas. Um diz que a lagoa está viva. Se assim não fosse não haveria tantos peixes morrendo. Até tem lógica. Melhor seria dizer: a lagoa tinha vida; outro leitor recomenda o aterro, pura e simplesmente, pois pouquíssimas pessoas utilizam a lagoa para lazer e esportes náuticos. Ipanema não ficaria tão espremida e poderia surgir um novo bairro.Quem sabe até um novo Shopping, para alegria dos especuladores e inimigos do planeta. Parece piada, mas dizem que um governador quase aterrou a lagoa para fazer um outro bairro.

Várias medidas devem ser adotadas imediatamente. Aumentar o Canal do Jardim de Alah, que já teve mais de dois metros de profundidade e hoje tem apenas alguns centímetros e alargá-lo são providências  fundamentais. Antes da construção do Jardim de Alah o canal era bem mais largo e profundo.  Já foram feitos estudos para prolongá-lo cerca de duzentos metros. O prolongamento do lado oeste (Leblon) poderia ser menor que o do lado leste (Ipanema) para aproveitar as marés de sudoeste e suas fortes ondas (1). A comporta do Jardim de Alah, construída para manter um nível mínimo de água na lagoa (que está acima do nível do mar) deveria ficar sempre aberta. As marés fariam o serviço de renovação da água e manutenção do nível.

Foto de Augusto Malta tirada no início do século 20.

A lagoa ia até a "Pedreira do Baiano" e não existia a ilha onde fica o Clube Caiçaras.

Seria necessário aumentar a fiscalização para evitar despejo de poluentes na lagoa, mesmo havendo uma maior renovação de água.

Acabar com aterros. Isso é fundamental. Muitos já ficaram ricos. Agora chega.

Ainda lembro (era garoto) dos caminhões, em comboio,  circulando entre a praia e o  Clube Caiçaras, quando este aumentou a sua área original em mais de 100%. Deixavam um rastro de areia pela Epitácio Pessoa. Para quem não percebeu na ocasião, pois o trabalho foi feito muito depressa, e até durante a noite, os caminhões recebiam a  areia da praia, diretamente da draga que a retirava do Canal do Jardim de Alá, e de lá seguiam para o Caiçaras. A areia era colocada nos caminhões que faziam fila para receber e transportar a preciosa carga. Toneladas foram retiradas do Leblon para este e outros aterros particulares. Esta foi uma das causas do desaparecimento "inexplicável" da praia alguns anos depois. A natureza não perdoa. Sempre cobra as agressões que sofre.

Mais tarde, junto ao Jóquei outra grande área foi aterrada.  Basta ir ao Corcovado e comparar fotos mais antigas com a imagem atual.

Quem tem aquário em casa sabe que, freqüentemente, faz-se necessário trocar parte da água. Então, de imediato, devemos cuidar do Jardim de Alah, aumentando e alargando o canal. Chega de estudos de viabilidade. Isso é história antiga e vários estudos já foram feitos e pagos. É hora de agir. O importante é começar a salvar o que ainda resta, antes que algum governante maluquinho resolva acreditar na sugestão do aterro.

1 - Os técnicos dizem que a  abertura deve ser para o lado de Ipanema, justamente para evitar que as grandes ressacas originárias do sudoeste (Leblon) acabem por  demolir o enrocamento (email de um leitor que não quis se identificar).


Os leitores opinam:

Lagoa Rodrigo de Freitas - Foto de José Conde da Rocha

Foto de José Conde da Rocha

Abaixo a modesta contribuição de um Leblonense autêntico, caso v. resolva participar do debate público sob o destino do canal.

Acredito que triplicar a largura do canal de 10 para 30 metros (tem espaço de sobra para tanto) seria  ideal. Lembre-se que o projeto inicial previa o dobro da largura e já naquela época, por contenção de despesas, resolveram construí-lo com a metade da largura (viu no que deu).

Nas margens, marinas para atracação de barcos (com vagas rotativas) e bares.

A profundidade teria que ser de cerca de cinco metros, possibilitando a navegação de pequeno porte para incentivar o turismo náutico.

No litoral do Rio de Janeiro existem poucos abrigos que possibilitem a navegação (Posto seis e Canal da Barra, assim mesmo, com condições de mar favoráveis).

Quanto às comportas, são de total inutilidade, pois aprofundando-se o acesso a própria maré se encarregaria da renovação (tal qual acontece com o canal da Barra da Tijuca que nunca assoreia).

Sobre a extensão do quebra-mar os técnicos dizem, ao contrário da sua opinião, que a abertura deve ser para o lado de Ipanema, justamente para evitar que as grandes ressacas originárias do sudoeste (Leblon) acabem por demolir o enrocamento.

Estas obras são de baixo custo. O mais caro seriam as pontes e viadutos que deveriam ser mais altos justamente para possibilitar, como disse acima, a sua navegação.


Agora cá pra nós, se parar agora a mortandade de peixes, esse assunto vai ficar pra ser cogitado é no próximo século!

        e ficou mesmo...

Canal do Jardim de Alá - Lagoa Rodrigo de Freitas

Canal da Barra da Tijuca


Email recebido de Claudia Antunes,  jornalista - Rio de Janeiro:

Há cinqüenta anos, camarões graúdos eram um elo da cadeia alimentar da lagoa Rodrigo de Freitas. Seu espelho d'água ocupava cerca de 40% do atual entorno, no qual a ciclovia oficializou a demarcação da faixa marginal de proteção.

Para quem é leigo no assunto, eu explico: os corpos d'água têm direito a uma área de inundação. A lei ambiental não permite ocupações em espaço correspondente a 20 metros, que vai do espelho d'água até as margens. Quando as chuvas de janeiro de 96 inundaram a ciclovia, os nobres moradores do bairro recorreram aos jornais. Reclamavam que estavam dividindo a ciclovia com as garças, mas na verdade, a lagoa estava usufruindo de seu direito de inundação.

Cinqüenta anos foi o bastante para desfigurar o ecossistema litorâneo de águas mistas, troca com o mar que lhe garantiu riqueza em fauna lacustre, interrompida pelo assoreamento constante do canal do Jardim de Alah. A areia fina e clara que compunha suas margens desapareceu. O manguezal, vegetação típica de ecossistema litorâneo de águas mistas, está sendo reimplantado desde 94, por iniciativa do biólogo Mário Moscatelli, um estudioso do assunto. Entre uma polêmica e outra, o manguezal permanece, embora alguns governantes sem ética ambiental aleguem que ele traz mau cheiro, entre outros absurdos.

O que provoca o odor fétido é o despejo de esgoto in natura.

Atitudes surpreendentes de ambientalistas sem diploma podem ser vistas quase que diariamente. A colônia de pescadores que sobrevive da pesca na lagoa faz a sua parte: em canoas, munidos de instrumentos improvisados, recolhem o lixo que se acumula nas margens. Dividem a sua simplicidade e esforço com a tecnologia da Comlurb, que faz um trabalho conseqüencial, uma vez que não atira no foco.


Em BAIRROS DO RIO - LEBLON  uma história etílico-ecológica: OS CARANGUEJOS. Vale a pena conferir e descobrir como os bares do Leblon contribuem para salvar a lagoa.

 

29/01/2002 - GOVERNO VAI RETIRAR O LODO DA LAGOA

Metade do lodo acumulado na Lagoa Rodrigo de Freitas deverá ser retirado no decorrer deste ano. A obra custará R$ 2,73 milhões e só terminará em dezembro.

O prolongamento do canal do Jardim de Alah, constantemente assoreado, também deveria merecer a atenção de nossas autoridades. Recentemente foi instalada uma nova comporta mas esta, como as anteriores, não terá utilidade por não haver comunicação permanente entre a lagoa e o mar. Nos poucos momentos em que isso ocorre não é interessante interromper a renovação das águas. Foi, ao que parece, um gasto desnecessário.

A retirada do lodo preocupa bastante. As mortandades de peixes ocorrem quando o vento quente, vindo de noroeste, revolve o fundo liberando gases, causando mau cheiro e diminuindo a quantidade de oxigênio na água. Esta mesma situação vai, agora, ser provocada por uma draga e durará o ano todo.

Outra dúvida é quanto ao destino que será dado a este lodo. Para onde será levado?

Poderá haver, segundo dizem alguns especialistas, o risco de desabamento. Qualquer criança, ao fazer um buraco na areia da praia, percebe que as margens desabam na medida em que este fica mais profundo. O que acontecerá na lagoa? Ocorrerá um processo semelhante?

Esta é uma obra que pode trazer mortandade de peixes, mau cheiro e risco de desabamento, sem atacar diretamente a causa do problema. Seria necessário, segundo afirmam alguns técnicos, prolongar o canal, abrindo a comunicação entre a lagoa e o mar. Mas, como bons cariocas, vamos torcer para que tudo dê certo e que as águas da lagoa, já bem menos poluídas do que antes, melhorem em qualidade.

9/02/2002 - PEIXES AGONIZAM NAS ÁGUAS DA LAGOA

Uma enorme quantidade de peixes procura um pouco de oxigênio nas águas da lagoa Rodrigo de Freitas. A mortandade atinge até as espécies mais resistentes, como as tainhas. Pescadores afirmam que desta vez o estrago vai ser grande.

No canal do Jardim de Alá, que liga a lagoa ao mar, pescadores aproveitam para retirar das águas as tainhas que ainda conseguem se manter vivas.

Mais à frente, junto ao mar, parte da areia retirada pelas dragas é embarcada em caminhões e levada para a praia de São Conrado, onde está sendo feita uma obra para acabar com a língua negra que lá existe há muitos anos. A areia do canal deveria ser devolvida à praia do Leblon, pois foi a sua retirada, tempos atrás, que fez com que o Leblon perdesse parte da sua praia.


10/02/2002 - MAU CHEIRO JÁ INVADE AS CASAS

Toneladas de peixes já foram retiradas das águas da lagoa.

Começou a soprar um vento de noroeste, muito quente. A situação pode se agravar.

As duas imagens, de José Conde da Rocha, mostram a situação neste domingo.


11/02/2002 - DE QUEM É A CULPA?

O GLOBO de hoje publica em sua página 14 uma matéria sobre o assunto. Nela, o Prefeito Cesar Maia culpa o governo do estado:

"Já tinha alertado o governo do estado por diversas vezes sobre a possibilidade de mortandade de peixes na Lagoa. O estado fechou o canal do Jardim de  Alah, impedindo a entrada da água do mar. Foi uma mortandade anunciada."

Trata-se de um equívoco do Sr. Prefeito. Afirmamos isso sem querer tomar qualquer partido. Achamos que enquanto a Lagoa for utilizada para fazer política os peixes continuarão morrendo. Na verdade a comporta foi fechada na maré vazante, impedindo que o nível das águas ficasse muito baixo e a situação se agravasse. Quando há ressaca não adianta fechar nada, pois o mar invade o canal de qualquer maneira, passando por cima da comporta. (Somente quando há ressaca as águas do mar entram pelo canal.)

Na verdade a Prefeitura é a grande culpada pois não iniciou as obras de ampliação do canal do Jardim de  Alá. Somente uma renovação permanente das águas vai melhorar a situação. Por que não morreram peixes nas lagoas da Tijuca, Camorin e Jacarepaguá, que estão bem mais poluídas que a Rodrigo de Freiras? Lá, apesar dos esgotos lançados in natura, as marés atuam duas vezes por dia, diariamente, renovando parte das suas águas.

Os peixes morrem na Lagoa Rodrigo de Freitas, antes conhecida por Lagoa Piraguá (água parada) ou Sacopenapan (caminho dos socós), pelo menos desde a época em que os índios Tamoios viviam em suas margens. A mortandade é um fenômeno natural, causado pelo aumento de temperatura da água no verão, agravado pelo vento noroeste que, além de muito quente, revolve o lodo do fundo, diminuindo a quantidade de oxigênio. Na época dos Tamoios o canal de ligação com o mar era mais largo e profundo. O problema era bem menor. Quando fizeram o Jardim de Alá reduziram a largura e a profundidade. E o problema se agravou com a poluição.

Vamos esperar que a obra de ampliação do canal seja logo iniciada para que tenhamos um próximo verão sem as imagens tristes que mostramos todos os anos.

(coloque o cursor do mouse sobre a figura)

Um vôo pela história da cidade

Um vôo virtual misturado com uma viagem no tempo. É essa a proposta do CD multimídia Rio 500 Anos, lançado pelo Instituto Pereira Passos, da prefeitura. O CD é uma homenagem ao aniversário do quinto centenário da chegada dos europeus ao Rio, e traz visões aéreas da cidade em três dimensões, permitindo comparações entre a geografia atual e aquela que os descobridores encontraram quando chegaram aqui pela primeira vez.

O passeio virtual pela cidade começa em 1502, época da primeira exploração portuguesa na região, e vai até os dias de hoje. Através da Janela do Tempo, é possível perceber todas as modificações que aconteceram na geografia da cidade, como o aterro de parte da Lagoa e da Baía de Guanabara, na altura do Flamengo, e a remoção do Morro do Castelo, no Centro. O programa simula um vôo de helicóptero partindo do heliporto prefeitura, na Lagoa.

Produzido com o objetivo de divulgar a história da cidade, o CD contém um resumo da época do descobrimento e pode funcionar como uma boa ferramenta de trabalho para professores, além de material de consulta para estudantes. O CD estará disponível, inicialmente, na biblioteca do Instituto e, no início de 2003, poderá ser encontrado também nas bibliotecas da cidade.

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10-jun-2008