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Penha, Samba e Devoção
J. Carino
Lá do alto, Nossa Senhora abençoa seus romeiros. O bairro da Penha usou essa
benção para expressar, como poucos, as virtudes suburbanas contidas na fé e na
festa.
Pela longa escadaria - que dizem ter 365 degraus - a
devoção subia, subia, escalavrando joelhos, pagando promessas, resgatando
pecados, salvando almas. Lá embaixo, a festa coloria a praça com suas
barraquinhas; a música enchia de alegria os corações e envolvia os corpos na
malemolência da dança.
Sempre foi bonito subir ao adro da igreja no meio da tarde. Olhar de cima o bairro
calmo. Ouvir ao longe os latidos de vira-latas, mesclados ao apito do Curtume
Carioca, que chamava à obrigação do trabalho.
Tinha o bonde. Ah, o bonde, expressão bonita de
transporte encarnada em trilhos, balaústres, motorneiros e cobradores
portugueses bigodudos, rápidos e gentis, inacreditavelmente equilibrados nos
estribos com o bonde na velocidade máxima, uma “vertiginosa” corrida tão lerda
se comparada à dos bólidos de hoje.
Penha das peladas na “Boiada”, vastíssimo espaço
resgatado a um matadouro pelos meninos craques, os pelés e garrinchas jamais
descobertos pelo olheiro um tanto zarolha, chamado Destino, nesses campos de
várzea de nossa terra.
“Por isso, agora, lá na Penha vou mandar, minha morena pra sambar…”. Estes versos de
Noel imortalizaram o bairro da Penha e sua festa famosa, onde por décadas e
décadas pontificaram os maiores sambistas do Rio.
Por onde andará essa morena, linda, faceira, sestrosa que encantou tantos corações?
Por onde andarão o bonde, as peladas, o apito da fábrica e aquele irresistível
pôr de sol? Terão ficado no passado ou estão para sempre em nossos corações meninos?
A Penha continua aí. E lá no alto, fortalecida pela fé e
embalada pelo samba que é devoção, Nossa Senhora da Penha vela por todos nós.
Jonaedson Carino é professor universitário
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"Não há por certo, ninguém no Rio de Janeiro, que não conheça, ao menos por
tradição, a Igreja da Penha. É hoje um elegante santuário, situado no
cimo de um outeiro de pedra, na estação do subúrbio da E.F.Leopoldina
ao qual empresta o nome, próxima da estrada que, partindo da Capital, vai
dar a Petrópolis.
A construção do templo naquele pitoresco local,
data de 1635, e foi levada a efeito pelo Capitão português Baltazar de
Abreu Cardoso, sanhor abastado, proprietário de uma grande quinta, dentro
da qual se achava o penhasco.
Contam os antigos que a origem da capela
prende-se a um milagre ocorrido com o próprio Baltazar Cardoso quando,
certa vez, andava à caça em suas terras. Provavelmente perseguia algum
animal, quando subitamente lhe apareceu uma grande serpente, pronta para
dar-lhe o bote fatal.
Nesse momento angustioso o seu pensamento
voltou-se para a Virgem, e, mentalmente, implorou a sua misericordiosa
proteção. Na mesma ocasião, eis que surge dentre um monte de pedras
gigantesco lagarto e trava violenta luta com o réptil, dando a Baltazar
tempo para safar-se.
Agradecido ao céu, resolveu então o rico
proprietário edificar uma capela em honra de N.S.da Penha, no alto do
morro, para que pudesse ser vista de grande distância, relembrando sempre
o milagre que lhe havia salvo a vida
A propósito da igreja há muitas lendas,
contadas por diversos escritores; entretanto a que relatamos acima é a
mais difundida, e, tanto assim que a figura que se vê no arco do altar do
templo representa a Santa entre nuvens, tendo aos seus pés um homem
ajoelhado, em atitude de quem ora, e, em plano inferior, um lagarto e uma
cobra..."
MAURÍCIO, Augusto - Templos Históricos do Rio de
Janeiro - Gráfica Laemmert, Limitada - 2ª edição - s/d
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Feitio de
Oração
(Noel Rosa/Vadico).
Quem acha
Vive se perdendo
Por isso agora eu vou
Me defendendo
Da dor tão cruel
desta saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade.
Batuque é um privilégio
Ninguém aprende
Samba no colégio
Sambar é
Chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia.
Por isso agora
Lá na Penha
Vou mandar
Minha morena pra
Cantar com satisfação
E com a harmonia
Esta triste melodia
Que é o meu samba
Em feitio de oração.
O samba na realidade
Não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar
Uma paixão
Sentirá que
O samba então
Nasce no coração
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