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Aquele Abraço
J. Carino
Atravesso o Rio como numa aventura. Deixo para trás
uma cidade emparedada e me lanço em direção ao subúrbio. A Avenida Brasil me
cobra uma pressa que eu não teria; me obriga a navegar rápido num mar de
automóveis; não me deixa olhar com vagar essa estranha transição entre dois
mundos que convivem na mesma cidade.
Aos poucos, a luz muda, a paisagem se transforma. Os prédios aglomerados cedem
lugar às casas, essas singularidades arquitetônicas hoje cada vez mais
escassas. E, no subúrbio, resiste-se à ditadura de uma homegeneização
arquitetônica: uma puxadinha aqui, para abrigar mais um parente, um andar a
mais para acolher a filha que casou…
Muitas casas, moradias eternamente inacabadas, em que
a falta de emboço escreve nos tijolos aparentes a história da permanente falta
de dinheiro.
Chego ao meu destino: Realengo. Na larga avenida, os
muros altos e compridos a não mais poder escondem os quartéis, lugares sérios e
proibidos ao menino que só queria não perder sua pipa ou seu balão.
Sim, ainda há pipas e balões no subúrbio. Essa
humanidade profunda contida nas brincadeiras infantis; no cansaço nunca sentido
depois das longas “peladas” jogadas em campinho de várzea; no sabor da fruta
madura roubada dos quintais; no cheirinho que sobe depois da chuva nas ruas de
terra – tudo isso está lá em Realengo, convivendo com o progresso, que invade,
célere e inevitável, os redutos suburbanos.
Lá estão as moças bonitas, o papo no bar da esquina, e
essa figura tão rara em outros cantos da cidade: o vizinho. Está lá esse ser da
casa ao lado, da mesma rua. Esse alguém que empresta ovos e açúcar; que ajuda
no mutirão da construção da casa. Essa pessoa que vai entrar na família,
virando compadre, virando nora ou genro, chegando e ficando para sempre, dando
alma e corpo à amizade.
Realengo está lá, e vale a pena saber que os bairros
lá estão, cheinhos de gente muito boa, cuja pele sua no trabalho como escorrem
as gotas na garrafa da “loura gelada”.
Volto de alma nova. E cantando com o Gil: Alô, alô, Realengo!
Aquele abraço!
J. Carino é professor universitário
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