Grandeza na Simplicidade

J. Carino

Bairros têm cara, charme, temperamento, história - como a gente que neles mora. Há bairros pomposos, com o brilho cintilante da fama, conquistada aqui e no mundo. Em compensação, há outros nos quais a força da modéstia, da simplicidade, do aconchego humano se fazem sentir sem a exibição, como aquelas flores que nascem, vivem e morrem à beira de pobres estradinhas, vivendo sua glória apenas diante de caminhantes solitários.

Cordovil é um bairro simples, modesto. Em vão se buscará o brilho feérico de grandes acontecimentos ligados a ele. É inútil procurar referências que o destaquem, que acentuem uma glória efêmera. Não há monumentos a filhos ilustres, prédio suntuosos, ruas movimentadas.

Cordovil é bairro no que os bairros têm de melhor: são o lugar da casa para onde se volta depois do dia de labuta; e são a casa ampliada, na relação gostosa com a vizinhança.

Poucas ruas, algumas praças, a estação da antiga Leopoldina. Eis o Cordovil aparente.

Mas o Cordovil real, o bairro verdadeiro, não é feito de pedra e cal, mas de sentimentos, palavras, gestos. E também de lembranças.

Bairro de casas, de hospitalidade, das honestas relações do cotidiano, estas sim, coisas que dão solidez à vida. Cordovil sempre foi assim.

No passado, o trem suburbano trazia de volta os operários cansados para os braços da família. Os antigos lotações paravam na pracinha principal, também trazendo gente, que curtia um finzinho de dia no bar da esquina, até que uma lua branca ficasse muito alta no céu, de jeito a poder iluminar todos os quintais. Era hora, então, do descanso, de preparar o corpo para a jornada do dia seguinte.

A barbearia, a quitanda, a padaria - coisas que a memória enfeita e recupera agora, trazendo não somente imagens, mas cheiros e sons.

O barbeiro (como era mesmo o nome?), magrinho, muito calvo - numa espécie de ironia do destino - estava sempre sentado à porta com um jornal nas mãos. Sua voz um tanto rouca gritava sempre pelo quitandeiro, falando de futebol.

O quitandeiro, sempre com uma camiseta branca - de uma brancura milagrosa em meio a alfaces, tomates, laranjas e bananas - vivia mudando a gaiola de um canário de lugar, expondo o pássaro com carinho ao sol da manhã, como se isso fosse tudo o que ele queria, e não a liberdade para cruzar o céu azul.

A padaria... Ah, o cheiro de pão saindo do forno... Um menino, quase homem com a responsabilidade de ir buscar o pão, saía pela rua, sem esquecer que o pão custava mil e quinhentos.

Não me perguntem quanto vale isso hoje, ou que moeda era aquela. Nada disso importa. O que importa é que Cordovil está aí, com sua grandeza na simplicidade de bairro suburbano. E está, também, no coração daquele menino, que sou eu, alguém que tem orgulho de ter nascido em Cordovil.




Meu Cordovil

 

Meu Cordovil, recordo com saudades

a ingênua aspiração, o sonho doce;

meus sete anos, por sobre a cidade,

lá na colina... no reino do fosse.

 

E fosse eu rei... e, aqui nesta capela,

o meu castelo, dominando a penha,

eu mandaria construir. E aquela,

que a rádio enfeia... que abaixo venha.

 

Depois... Eu, Rei, diria ao mar... Caminha.

E traz contigo um pedaço de praia,

pois quero ouvir a suave ladainha

das ondas mansas, quebrando na areia.

 

Depois... ao vento: leva em tuas asas

o meu desejo e traz, a tua volta

a Paquetá inteira... té as casas...

e ,no meu mar, bem de mansinho, solta.

 

Quero ,também, um trem bem igualzinho

àquele grande, que a mãe sempre espia-

co’o mesmo apito, carros e sininho-

e que nos traz o pai ao fim do dia.

 

E assim, no Reino do Fosse, querendo

alheio à vida... sonhando acordado,

passou a infância... E desde que eu me entendo

por gente  é lá que eu me tenho encontrado,

 

nas horas mortas.., longe.., embevecido;

como a buscar a última esperança; 

o último alento e o ânimo perdido

na ilusão de ser ainda criança.

 

Vô Caburé

 

Por Aecio Kauffmann, a quem agradecemos.

 
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02-ago-2008