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primeira vez que fiquei em Copacabana foi, maravilha, no hotel Luxor, que
tinha um terraço com um muro verde na frente. O mar começava ali onde hoje
começa a praia e eu tinha uma dessas idades ridículas, 11 ou 12 anos. Cheiro
inesquecível: maresia com asfalto. Grande sonho de vida: passear de barata
pela Avenida Atlântica. Ver glossário.
Anos mais tarde fui morar em Copacabana, ou no Leme, que é uma espécie de
ensaio geral de Copacabana. Eu estava na comemoração da vitória do Brasil
na copa do Chile que atravessou a noite no "Fiorentina", onde iam os
artistas. De cinema: naquela época a Globo não existia, se você pode
conceber tal coisa. Ali perto ficava a "Sereia do Leme", não longe
da "Taberna do Leme". Mais para cá ficava o "Sacha’s".
Ou o "Sacha’s" não existia mais? Talvez nunca tenha existido.
Talvez tudo daquela época tenha sido apenas um delírio etílico.
Principalmente o Garrincha.
Comia-se bem no "Nino", no "Ariston" e no "Le
Mazot" da Paula Freitas, mas naquele tempo eu e outros conterrâneos
batalhando pela vida no Rio, entre uma remessa e outra de casa, preferíamos a
"Spaguetilândia" da Nossa Senhora de Copacabana. Pelo que
representou de sustento barato nas nossas horas difíceis a "Spaguetilândia"
foi a verdadeira Nossa Senhora de Copacabana, padroeira dos gaúchos na pior.
Os pedaços de pizza do Beco da Fome, na Prado Júnior, também ajudaram a nos
manter de pé.
Quem podia ia ao "Cangaceiro" ouvir a Elizete Cardoso ou a
gaitinha do Rildo Hora, ou ao Beco das Garrafas ouvir a Silvinha Telles. No
"Rond Point", uma noite, um copo passou zunindo pela minha orelha. Não
sei quem atirou em quem ou por quê. Deviam ser paulistas. Diziam que programa
de paulista era ir brigar em boate do Rio. Quem se lembrar onde ficavam o
"Cangaceiro" e o "Rond Point" - e o "Drink", e o
"Bon Gourmet" e o "Zum Zum" - ganha uma noitada grátis no
"Vogue".
Glossário: "Barata" era carro conversível.
"Baratinha" era carro de corrida, como o do Chico Landi. Chico Landi
era o melhor corredor de baratinha do Brasil. O Brasil era um país em que a
gente vivia.
Crônica
publicada em 01/09/2000 - O GLOBO
