Edição de 29-dez-2005

 

 

UM ANO NOVO COM ALMA CARIOCA

por J.Carino

O Rio é incomparável. Tudo o que se faz nesta Cidade Maravilhosa vira animação e beleza, como no toque de um Rei Midas diferente, capaz de transformar todas as coisas numa carioquice inigualável.

Já é assim também no réveillon. A cidade ilumina-se ainda mais com o foguetório na orla, com o destaque para a Princesinha do Mar. Então, essa noite de simples mudança no calendário parece tornar-se um palco iluminado, onde a famosa Copacabana se exibe em luz, som e alegria.

A caprichosa curva da praia concentra um mundão de gente: estrangeiros boquiabertos que aí vêem justificada a fama da praia mais famosa do mundo; turistas brasileiros, se encantam e se convertem em cariocas, recebendo um título honorário e instantâneo que, aliás, está sempre aqui para se oferecido a quem chega à nossa cidade, sempre de braços abertos para todos; o povo do candomblé – e afinal praticamente todos nós, num sincretismo arraigado em nossa brasilidade – reverencia Iemanjá, a Rainha do Mar, estendendo um imenso tapete branco pela praia inteira, uma trama formada de gente tão diferente, de raças, condição sócio-econômica, temperamento, preferências e desejos tão díspares.

O céu, belo e negro na noite tropical, torna-se o fundo para uma pirotecnia inigualável. Cores e sons saúdam o Ano Novo, a cidade, a vida, enfim.

Apesar de tudo, o otimismo carioca contagia inapelavelmente, trazendo uma certeza quase palpável de que o que chega é melhor do que o que já passou.

Sejam bem-vindos todos à nossa cidade. Seja bem-vindo o novo ano. Que ele chegue impregnado de esperança. Que 2006 traga a paz, a prosperidade, a alegria, a felicidade, isto tudo que está sempre contido em nossa alma carioca.

Obrigado a todos os que nos visitaram em 2005. Saudamos os que nos visitarão em 2006.




 

RECEITA DE ANO NOVO

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.



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21-fev-2008