Edição de 23-jul-2005

 

 

JAMAIS VIMOS UMA CRISE COMO ESSA

Ricardo Noblat

em 23 de julho de 2005

Lula e o PT foram vítimas de chantagem no último sábado dia 9 quando o empresário Marcos Valério telefonou para o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) e ameaçou "ferrar" todos se não fosse poupado. E avisou que tinha bala até contra "o barbudo".

O Globo publicará amanhã que ontem Valério voltou a repetir a chantagem - dessa vez para abortar a convocação da mulher dele para depor na CPI dos Correios. O depoimento está marcado para a próxima terça-feira. A mulher está em pânico.

O PT e o governo não deveriam também estar em pânico, não é mesmo? Afinal, ambos juram ser inocentes. O governo porque diz que se houve alguma coisa irregular foi lá para as bandas do PT. Ele é inocente, portanto. O PT porque proclama sua inocência.

Tudo bem: o ex-tesoureiro Delúbio Soares admite que montou um caixa 2 para pagar antigas dívidas do partido e financiar dívidas futuras. Assume o crime que considera banal, corriqueiro, e que de fato é - mas que nem por isso deixa de ser crime.

Só que Delúbio mente quando nega o pagamento de mensalão a deputados dos partidos aliados. Mente quando nega mesadas pagas a deputados do PT. E mente quando diz que empréstimos bancários tomados por Valério foram a única fonte do caixa 2.

Houve mensalão, sim. Houve mesada, sim. E o caixa 2 do PT foi irrigado por dinheiro público desviado para as contas das empresas de Valério. E por comissões pagas por empresários para ganhar milionárias licitações promovidas pelo governo.

Há mais ou menos dois meses, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o então secretário-geral do PT, Sílvio (Land Rover) Soares disse que o partido tinha um projeto de poder para no mínimo dois mandatos consecutivos - oito anos. E disse mais:

- Não dá para separar o PT do governo. Todos nós estamos no mesmo barco: se o governo Lula der certo ou der errado vai significar que o PT deu certo ou deu errado.

Sílvio (Land Rover) acertou na mosca. Não tem como separar o governo do PT e vice-versa. Até porque Lula deixou que o PT tomasse conta do aparelho do Estado. E fizesse o que julgou necessário para garantir o projeto de poder que também era dele.

É falsa a discussão sobre se Lula sabia ou não da existência do mensalão, se soube ou não que cabeças coroadas do PT cobravam comissões por negócios arranjados com o governo, se estava ou não de acordo com todos esses desmandos.

No detalhe, poderia não saber. E não querer saber. Mas estava a par, sim, das atividades de Delúbio, Silvinho e companhia ilimitada. E a elas se rendeu constrangido (ou nem isso) como única forma de alcançar o poder e de nele permanecer.

Lula estava presente ao encontro que em meados de 2002 selou a aliança do PT com o PL do vice-presidente José Alencar, como contado em reportagem de Bob Fernandes publicada em outubro daquele ano na insuspeita revista Carta Capital.

Ao lado de Alencar, e depois de o aconselhar a não pôr um tostão do seu bolso, ele viu quando os companheiros José Dirceu, Delúbio Soares e o deputado Waldemar Costa Neto, presidente do PL, se trancaram num quarto de apartamento em Brasília.

E viu quando algum tempo depois saíram de lá abraçados e felizes. Haviam finalmente fechado o acordo. Que custou ao PT R$ 10 milhões para pagamento de despesas de campanha do PL - e sabe-se mais lá do quê.

Quem consente na compra de um partido consente na compra de deputados para que votem de acordo com o governo. Os R$ 10 milhões não devem ter sido declarados à Justiça Eleitoral. Como não foram os milhões do caixa 2 montado por Delúbio.

Temos, pois, um presidente da República, o governo dele e o partido dele sob o risco iminente de irem pelos ares se Valério contar o que sabe. Se a mulher de Valério contar o que sabe. Ou se a CPI dos Correios concluir o que todos já sabemos.

Quem poderá dar um jeito na situação? O Congresso. Mas antes ou ao mesmo tempo ele terá de dar um jeito em si mesmo realizando o maior expurgo de todos os tempos. Sem resgatar sua legitimidade não poderá resgatar a do Executivo.

Meus caros, jamais vimos e espero que jamais voltemos a ver uma crise como esta. Perto dela, a que derrubou Collor foi um traque. Collor e PC Farias não passavam de uns trombadinhas de luxo. Só os charutos cubanos aproximam as duas crises.

 

Depois de escrever "Ao Senhor Presidente", endereçada ao presidente Fernando Henrique, João Ubaldo escreve "O que é isso, companheiro?

Na crônica, João Ubaldo exprime a sua revolta e frustração, que não é apenas sua, mas de milhões de brasileiros que acreditaram num país mais decente.

"Apenas digo que, na minha opinião, que só retiro se um juiz ordenar, Vossa Excelência sabia da bandidagem de seus auxiliares e, vai ver, tacitamente a aceitava, ou seja, calava e, pois, consentia. E digo, interprete Vossa Excelência como lhe for servido, que corrupto não é só quem frauda diretamente ou põe dinheiro no bolso: é também quem vê e ou finge que não vê, ou não liga e não faz nada, sabendo que é seu dever fazer algo."

 

 

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?

 

João Ubaldo Ribeiro

Abordando o que vou abordar, corro o risco de desinteressar os leitores. Culpa minha, claro, pois estarei tocando num assunto velho. Já é comum escreverem-se ensaios polissilábicos sobre como a massa de informação que nos bombardeia sobrecarrega a mente e nem temos tempo de pensar direito. E a tecnologia, cada vez mais célere, torna tudo obsoleto de um dia para o outro. Consumimos novidades, não queremos senão novidades, tudo envelhece em poucos dias, às vezes horas. O massacre de ontem hoje não mais interessa e a corrupção denunciada hoje cansa, se repisada amanhã. Tudo, até a notícia, virou uma espécie de mercadoria e o consumidor quer o último lançamento.

Acrescente-se a isso a revelação vertiginosa de falcatruas e crimes. É um caleidoscópio enlouquecido, um carrossel desgovernado, uma lanterna mágica de trambiques, mentiras e armações sórdidas, apresentada em compasso tão desenfreado que não se pode acompanhá-lo. Puxa-se um fio e a meada, em lugar de diminuir, aumenta e leva a outra e esta ainda a outra, numa rede diabólica de manobras delinqüentes, trazendo a sensação de que o país é conduzido por gangues ou famílias mafiosas. O espírito do homem de bem acaba por chegar a seus limites, o que se expressa em dezenas de formas, até mesmo evitando esses assuntos, por uma questão de sobrevivência psicológica e emocional, pois, afinal, para muitos, já soçobraram os valores, as crenças e os padrões incorporados à sua formação, o que pode tornar a vida insuportável. 

Tenho ciência desse problema, mas não vou deixar de fazer meu registro de algo que não gosto de dizer, mas que alguém tem que dizer, porque estou seguro de muita gente pensa da mesma maneira. Não gosto de dizer o que vou dizer porque queria acreditar no contrário, achar fatos ou indícios que me desmentissem convicções que a cada dia mais se solidificam na minha cabeça e na de inúmeros concidadãos. Mas não encontro fato ou indício algum e, assim, entendo que cabe afirmar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desrespeita e subestima os governados, despreza-lhes a inteligência, julga-os cegos diante dos acontecimentos e surdos-mudos depois deles.

Infenso ao contato com a imprensa, a não ser para monologar, escolheu um método singular para dirigir-se ao país, em sua visita à França. Com ar despreocupado, até fagueiro, que, em lugar da imagem de tranqüilidade que talvez quisesse projetar, dava a impressão de deboche quanto aos que vêem gravidade em nossa situação política, disse, com um cinismo que me assustou, pois era a última cara em que esperava vê-lo estampado, que era aquilo mesmo, que o PT tinha feito apenas o que é feito “sistematicamente”, no Brasil. Portanto, conclui-se, não há razão para espanto ou desilusão.

Mas há razão para espanto e desilusão. Ficam agora dizendo por aí que não se suporta mais um presidente operário e se quer depor um presidente operário. Em primeiro lugar, não estou apoiando e muitíssimo menos propondo, sua deposição, até mesmo por vias legais. Em segundo lugar, votei no presidente operário, votou a esmagadora maioria do povo brasileiro e o que eu queria era ter orgulho de dizer isso, era encher o peito como cheguei a encher nos primeiros tempos. Não fizemos uma revolução, optamos pela mudança por vias democráticas, levamos ao poder um operário, um herói de origem humilde, um lutador, um desbravador, um que se proclamou ser aquele que mudará.

E de fato mudou. Quer dizer, mudou ele. Hoje temos a nos presidir um assassino de sonhos e esperanças, um que diz, com o semblante jovial, que o partido que vinha para mudar já começou por não mudar coisa nenhuma, ou melhor, ao que tudo indica, aperfeiçoou os mecanismos do embuste e da ladroagem, a partir da própria campanha. É isso mesmo, que queríamos, que o PT efetivamente representasse mudança, que ingenuidade é essa, que otários somos? Portanto, o presidente devia saber do que se passava, certamente não em detalhes, mas em linhas gerais. É assim que se faz, quem não sabe disso?

Numa entrevista que dei, referi-me a ele como ignorante. Confirmo. Mas a entrevista, por questão de espaço, precisou ser editada e, no muito que se teve de excluir, deixei claro que, quando disse “ignorante”, o fiz apenas para ilustrar uma afirmativa e utilizo a palavra no sentido de formalmente inculto. Pois ignorante, infinitamente ignorante em relação a ele, sou eu, naquilo que ele – que, além de tudo, é muito inteligente, apesar da preguiça intelectual ou geral – domina magistralmente, o tornou artífice principal de uma obra política sem precedentes e o conduziu à posição em que está e que agora o revela como na inquietantemente profética frase do Barão de Itararé: “Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio”.

O candidato da mudança, do partido diferente dos demais, é o presidente de um país onde seu partido não muda nada, antes conserva com afinco e esmero. O companheiro, afinal, não passa de mais uma Vossa Excelência, das quais, aliás, já vimos melhores. Não tenho provas e por isto mesmo não acuso. Apenas digo que, na minha opinião, que só retiro se um juiz ordenar, Vossa Excelência sabia da bandidagem de seus auxiliares e, vai ver, tacitamente a aceitava, ou seja, calava e, pois, consentia. E digo, interprete Vossa Excelência como lhe for servido, que corrupto não é só quem frauda diretamente ou põe dinheiro no bolso: é também quem vê e ou finge que não vê, ou não liga e não faz nada, sabendo que é seu dever fazer algo. Sobretudo em casos assim, a conivência ou negligência faz alarmante fronteira com a cumplicidade. Se o raciocínio é correto, Vossa Excelência está próximo da suspeita de corrupção. Por favor desculpe a franqueza, mas acredito, embora não tenha certeza, que Vossa Excelência ainda prefere a sinceridade à bajulação e à hipocrisia.

Crônica publicada no GLOBO, em 24 de julho de 2005.

 


Carta ao presidente da República

Das Dores Brasileiro

Brasil, 22 de julho de 2005

”Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constroem um país de mentiras diariamente.”

(Do poema "A implosão da mentira" do mineiro-carioca Afonso Romano de Sant'Anna.)


Senhor Presidente,

Sinto informá-lo que estamos muito convencidos de que os seus companheiros têm mentido desvaladamente. Sistematicamente, sem qualquer pudor, diariamente debocham da nossa inteligência.

Talvez o senhor não saiba que eles andam fazendo isso cotidianamente. Compreendo que aí, no Palácio do Planalto, fica difícil mesmo saber de tudo o que eles têm aprontado aqui fora.

Estão jogando tão sujo, Presidente, mas tão sujo, que o senhor, se soubesse, ficaria com vergonha. Estou convencida disso.

Presidente, a coisa anda feia. Quem votou no senhor não tem onde botar a cara. Os adversários estão nadando de braçada. Nesta semana, por exemplo, dois dos seus companheiros sentaram lá na CPMI dos Correios e mentiram, mas mentiram tanto, fugiram, escaparam, disfarçaram. 

Foi um festival de cinismo explícito. Deu vergonha, Presidente. Pior. Um deles negava rindo como se estivesse mesmo fazendo pouco caso de nós todos. O primeiro, que negou na terça-feira, era até mais humilde, mas, no fim do dia, contaram na televisão que ele tinha ganhado um jipão de R$ 74 mil.  Presente de uma empreiteira que tem bons contratos com o governo. 

Arrepiou, Presidente. E sabe por que? Quando a gente votou no senhor acreditava que essas coisas não iam mais acontecer. Foi tudo ao contrário, Presidente.

Mas a história desse presentinho ainda é pinto perto das coisonas que têm aparecido no noticiário.  Não vou nem mencionar tudo para não me alongar muito. Imagino que seu tempo é curto com tanta coisa que ainda precisa ser feita no país, não é?

No domingo, eu vi o senhor, ajeitadão, lá no Fantástico, dizendo que a primeira mentira é uma porcaria, porque obriga a gente a continuar mentindo.Como é bem isso que seus companheiros estão fazendo publicamente e sem nem ficar vermelho, fiquei convencida: ele não sabe mesmo. 

Mas, em seguida, bateu a dúvida, porque o senhor também falou que eles só fizeram o que tem sido sistematicamente feito. Desatinei:  até o Presidente está nos dizendo: “são, mas quem não é?” Foi quando decidi mesmo vencer o medo e escrever, porque fiquei matutando: imagina a Dona Amélia, mãe do Chico, viúva do Sergio Buarque, ouvindo isso? Deve ter levado um choque. 

Ela é sua eleitora desde sempre, já tem idade, pode passar mal com esses desacertos. Deve ter sido bobeira, cansaço da viagem, né? Aliás, Presidente, tem muita gente boa passando mal com isso tudo. Estou convencida que o senhor não sabe da missa a metade. Sabe jogo de futebol com gol de mão, juiz ladrão, bandeirinha cego, jogador fazendo banana pra torcida? 

Pois é bem isso que seus companheiros – alguns da cozinha da sua casa, daqueles da pelada e da birita de domingo – estão fazendo com a gente. Dizem que é tática de advogado, esperteza de marqueteiro pautado por pesquisa, burrice. Mas eu estou convencida que é deboche mesmo. E não está dando mais pra aturar tanta desfaçatez.

Como estou convencida que estão tentando tapar o sol com a peneira,  resolvi tomar essa liberdade de alertar o senhor. Ó, Presidente, tem japonês no samba. Tem cabrito vigiando horta. Tem jaboti na árvore. Fique esperto. Olho vivo que os companheiros tão demais abusados. Aprontaram muito. Estão mais sujos do que pau de galinheiro e deixando o senhor zanzar por aí  afora feito cantor de churrascaria – aquele que canta onde os outros comem, sabe? Não fica nem bem...

Anteontem, o senhor falou que pior do que falar besteira é fazer besteira. Pois a companheirada está fazendo as duas coisas, sistematicamente, e em cadeia nacional de rádio e TV. Vai acabar dando merda, presidente. (Desculpe a má palavra.) 

Respeitosamente, 

Das Dores Brasileiro, sua criada.

 

Do blog do NOBLAT (http://noblat.ultimosegundo.ig.com.br/noblat/).

 

 


A implosão da mentira (Por Afonso Romano de Sant'Anna)

"Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.
 

Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.
 

Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.
 

Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.
 

Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constróem um país de mentiras diariamente."
 

 

 

O piquenique

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Na década de 50, a professora de português de uma turma da 1ª série ginasial passou como dever de casa, para ser entregue na  segunda-feira seguinte, uma redação com o título: “Um piquenique no domingo”. Na segunda, lá estava Fernando entregando seu caderno, onde se lia: “No domingo choveu, por isso não teve piquenique”.

Desde o dia da malfadada entrevista do Presidente Lula sentadinho naquela cadeira estilo Império, nos jardins da Résidence Marigny, essa frase ficou ecoando na minha cabeça: Choveu no PT e por isso não houve piquenique.

Mas choveu o quê? Não foi uma água limpa, daquelas chuvas que fazem o cheiro bom da terra nos entusiasmar, pois lembra a infância, dias melhores, férias no campo, sei lá o quê, mas sei que são sempre lembranças positivas. Dessa vez, não. Foi chuva fétida, misturada com lama, violenta. Chuva que varreu a esperança, a fé e a caridade de nossos corações.  A esperança de dias melhores com esse governo que aí está, sumiu.  A fé em encontrar políticos com força suficiente para reerguer o país, desapareceu. A caridade, essa foi pro espaço, ou você tem compaixão pelos Delúbios?

Mas será possível que nós, cidadãos, só conseguíssemos perceber isso agora? Que tenha sido necessário ver um sujeito embolsar R$3000,00 reais numa rapidez de prestidigitador e um tipo como o Roberto Jefferson abrir o bico? Não, claro que não. Os sinais estavam aí, claros, nítidos, mas nós não queríamos ver, nem nós, nem a imprensa, nem a oposição ao governo do PT.

De vez em quando alguém reclamava, é verdade. Por exemplo, no próprio PT houve desentendimentos, mas o que aconteceu: a expulsão da Senadora Heloísa Helena e de 3 deputados do partido. Problema deles, disseram alguns, eles que são brancos que se entendam. Mas é que o problema era e é nosso...

Um artigo altamente elogioso ao PT e à sua política econômica, publicado se não me engano na “Folha de São Paulo”, assinado pelo senhor Olavo Setúbal, ou seja, pelo próprio Banco Itaú. Verdade que fez a pulga começar a se mexer atrás da orelha!

Pouco a pouco o Congresso Nacional sob o domínio das Medidas Provisórias; afastando-se cada vez mais da sociedade que elegeu seus representantes, facilitando crises, maracutaias, coalizões espúrias; partidos nanicos se agigantando, a base do Governo se tornando maior a cada dia, assim, sem mais nem menos.

A blindagem do presidente do Banco Central, os juros na estratosfera, os investidores estrangeiros encantados com o Brasil, a “ herança maldita” se perpetuando, o Aerolula, os cento e tantos ternos, as camisas sob medida sendo confeccionadas em Salvador,  “quero dizer a vocês, que nunca, na História deste país, se viu nada igual!“. Nunca mesmo!...

Não sei se tudo isso dói em todos da mesma maneira ou se dói mais nos eleitores do Lula, como é o meu caso. Fico envergonhada de ter escolhido para dirigir os destinos do meu País um homem tão patético, despreparado, e que faz questão absoluta de continuar despreparado. Que chega a se vangloriar de não ter estudado, bradando que para governar o Brasil não é necessário diploma e sim coração. Que, ao iniciar um discurso numa solenidade oficial, mostra aos presentes os papéis que vai ler e diz :” Não se assustem com o volume. É um parágrafo por página”.

A desculpa por viajar tanto era sempre justificada pelo já célebre chavão “Nunca na História deste pais...” e aí nos falava de como era amado no exterior, de como o nome do Brasil hoje era respeitado lá fora, de como todos estavam estarrecidos com o excelente trabalho realizado por ele, enquanto nós, ingratos, achávamos que ele estava apenas fazendo turismo. Pois é: nestes últimos dias perdemos a eleição para a OIC e para o BID.  Será que ainda vão insistir no Conselho de Segurança da ONU?  E por quanto tempo ainda vamos substituir os EUA no papel de invasor e polícia no Haiti?

Foi para isso, para esse redescobrimento do Brasil apud Lula, que nosso Governo foi entregue ao camarada José Dirceu? Depois de seu depoimento na Comissão de Ética, custo a crer que esse homem que ali estava, era o mesmo arrogante detentor de muitos poderes, inclusive de uma ascendência natural e, sejamos justos, intelectualmente merecida, sobre os demais membros do governo que elegeu. Mas ele recusou qualquer insinuação de que o plano de captação de fundos não contabilizados fosse de sua autoria, como se pudéssemos acreditar que o Delúbio e o Silvio Pereira tivessem capacidade de conjecturar esse esquema. Ou foi ele o autor ou foi quem?

Comedido, desempoado, sem qualquer sombra de sua costumeira arrogância (cuja negação foi, aliás, recebida por risos em uníssono no plenário da Comissão), José Dirceu me deu a impressão de ter esgotado seu estoque de criptonita. Só nos resta, portanto, aguardar pelos novos capítulos, bem como torcer para que um ominoso  ‘acordão’  não esteja sendo tramado nas sombras.

Do blog http://noblat.ultimosegundo.ig.com.br/noblat/


O JOIO DO JOIO

José Paulo Cavalcanti Filho

Tivesse o eminente Presidente da Câmara dos Deputados renunciado, e não escreveria sobre ele. Trago na alma esse traço de caráter tão nordestino, de não chutar quem está no chão. Aqui não se fala mal de morto (que não mais pode se defender). E quando um combatente cai, a mão da espada estanca. Herança da tradição ibérica, dos romances da cavalaria, de um tempo em que ainda havia honra no pelejar. Mas Severino decidiu continuar. E tem, a seu dispor, o poder imenso do cargo. Considero-me liberado, pois.

Começo anotando que, na entrevista coletiva de domingo, disse o Deputado - “Não posso me curvar à pressão dos poderosos, tenho a meu lado o meu passado”. Lembro filme de Alan Pakula, no distante 1971 – “O passado Condena”. Porque Severino construiu toda sua vida pública se curvando aos setores mais reacionários do país. E a serviço do autoritarismo. Diferente do que disse agora, é precisamente o passado que lhe condena. No filme, Jane Fonda ganhou um Oscar. Severino, estou desconfiado, não vai ganhar nada. Ao contrário.  

Em contradição às práticas de seu passado, agora diz: “Ao povo peço que não prejulgue, não aceite condenações sem provas”. Parecendo esquecer o papel melancólico que teve, ao lado do deputado direitista Wandencok Wanderley, na expulsão do Padre Victor Miracapillo. Negando-lhe, no negror da ditadura, o direito de defesa que agora invoca em benefício próprio.

Só para lembrar, o religioso veio de Andria di Bari (Itália), para viver ao lado da gente sofrida de Ribeirão. E viveu ali uma vida simples, na humilde zona da mata de Pernambuco. Até quando, em 7 de setembro de 1980, recusou-se a rezar missa em louvor da Independência do Brasil. Uma posição respeitável e democrática - que o país vivia, então, sob as botas militares. Falar em “independência”, naqueles tempos, era mesmo uma blasfêmia. Foi mandado embora, no governo Figueiredo, por exigência de Severino - que acabou marcado pelo povo, desde então, com o mordaz apelido de Zito Miracapillo.

Engraçado, nessa trama de agora, é o rastro de fina ironia que lhe perpassa. Começando pelo dia em que o dono da cantina denunciou o “mensalinho” de Zito - 7 de setembro. Mesma data de Miracapillo. Como se a providência divina estivesse por trás de tudo. Não o Senhor bondoso, que distribui perdão aos homens de fé. Mas aquele do antigo testamento. Um Jeová de mão pesada que cobra impiedosamente a conversão dos pecadores.

Outra ironia é que corre o risco de ir ao sacrifício pelo mesmo baixo-clero que lhe deu a Presidência. E não como um ato de redenção desses deputados-utilitários, purgando o erro de elegê-lo. Agirão, agora, só por instinto de sobrevivência. E já que voltamos ao passado, comparo Zito a um César de província, carregando ao lado seu Brutus particular - o corregedor da Câmara que, para ele, foi sempre como um filho. Vai lamentar perdidos ilusões. Que esse Brutus o protegerá enquanto puder, é certo. Mas não irá com ele até o fim. Cabendo-lhe, assim quis o destino, o privilégio da primeira punhalada.

Ah! como arde a ambição humana. “Só o prazer físico contenta a alma plenamente”, dizia La Rochefoucaud. Tivesse permanecido em cargos menores, ou sendo só mais um nesse baixo-clero que é seu mundo, e continuaria a jogar biriba com os amigos. Feliz. De sua Presidência, ninguém terá saudade. Especializou-se em proteger colegas e não punir ninguém. Até se dando ao luxo de elogiar os que renunciaram. Sem compreensão do momento histórico em que vivemos. De nossa sede por justiça. De nossa angústia por mãos limpas.

“Da verdade e da Justiça surgirá a luz”, assim encerrou sua fala. Uma justiça que, para o povo brasileiro, não se deve fazer na escuridão mortiça dos grandes acordões políticos. Mas sob a luz incandescente do sol - que, na lição de Roosevelt, é “o melhor desinfetante”.

Na entrevista, Zito pede que se separe o joio do trigo. Joio, todo mundo sabe, é um tipo de grama. Bela frase. Mas nos dias que correm, e nessa Câmara dos Deputados, sem nenhum sentido. Presto homenagem ao trigo bom, tantos homens honrados, que nela ainda nos dão esperança. Mas, considerando o número enorme de suspeitos que por lá vagueiam, como Zito, o que se vai separar é só o joio do joio.

José Paulo Cavalcanti Filho é advogado e mora no Recife
jp@jpc.com.br
 

Do blog do Noblat em 16/09/2005

 




Volta ao início desta página Página inicial do ALMA CARIOCA Retorna à página anterior

21-fev-2008