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Edição
de 23-jul-2005
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JAMAIS VIMOS UMA CRISE
COMO ESSA
Ricardo Noblat
em 23 de julho de 2005
Lula e o PT foram vítimas de chantagem no último sábado dia 9 quando
o empresário Marcos Valério telefonou para o deputado João Paulo Cunha
(PT-SP) e ameaçou "ferrar" todos se não fosse poupado. E
avisou que tinha bala até contra "o barbudo".
O Globo publicará amanhã que ontem Valério voltou a repetir a
chantagem - dessa vez para abortar a convocação da mulher dele para
depor na CPI dos Correios. O depoimento está marcado para a próxima terça-feira.
A mulher está em pânico.
O PT e o governo não deveriam também estar em pânico, não é
mesmo? Afinal, ambos juram ser inocentes. O governo porque diz que se
houve alguma coisa irregular foi lá para as bandas do PT. Ele é
inocente, portanto. O PT porque proclama sua inocência.
Tudo bem: o ex-tesoureiro Delúbio Soares admite que montou um caixa 2
para pagar antigas dívidas do partido e financiar dívidas futuras.
Assume o crime que considera banal, corriqueiro, e que de fato é - mas
que nem por isso deixa de ser crime.
Só que Delúbio mente quando nega o pagamento de mensalão a deputados
dos partidos aliados. Mente quando nega mesadas pagas a deputados do PT. E
mente quando diz que empréstimos bancários tomados por Valério foram a
única fonte do caixa 2.
Houve mensalão, sim. Houve mesada, sim. E o caixa 2 do PT foi irrigado
por dinheiro público desviado para as contas das empresas de Valério. E
por comissões pagas por empresários para ganhar milionárias licitações
promovidas pelo governo.
Há mais ou menos dois meses, em entrevista ao jornal O Estado de S.
Paulo, o então secretário-geral do PT, Sílvio (Land Rover) Soares disse
que o partido tinha um projeto de poder para no mínimo dois mandatos
consecutivos - oito anos. E disse mais:
- Não dá para separar o PT do governo. Todos nós estamos no mesmo
barco: se o governo Lula der certo ou der errado vai significar que o PT
deu certo ou deu errado.
Sílvio (Land Rover) acertou na mosca. Não tem como separar o governo
do PT e vice-versa. Até porque Lula deixou que o PT tomasse conta do
aparelho do Estado. E fizesse o que julgou necessário para garantir o
projeto de poder que também era dele.
É falsa a discussão sobre se Lula sabia ou não da existência do
mensalão, se soube ou não que cabeças coroadas do PT cobravam comissões
por negócios arranjados com o governo, se estava ou não de acordo com
todos esses desmandos.
No detalhe, poderia não saber. E não querer saber. Mas estava a par,
sim, das atividades de Delúbio, Silvinho e companhia ilimitada. E a elas
se rendeu constrangido (ou nem isso) como única forma de alcançar o
poder e de nele permanecer.
Lula estava presente ao encontro que em meados de 2002 selou a aliança
do PT com o PL do vice-presidente José Alencar, como contado em
reportagem de Bob Fernandes publicada em outubro daquele ano na
insuspeita revista Carta Capital.
Ao lado de Alencar, e depois de o aconselhar a não pôr um tostão do
seu bolso, ele viu quando os companheiros José Dirceu, Delúbio Soares e
o deputado Waldemar Costa Neto, presidente do PL, se trancaram num quarto
de apartamento em Brasília.
E viu quando algum tempo depois saíram de lá abraçados e felizes.
Haviam finalmente fechado o acordo. Que custou ao PT R$ 10 milhões para
pagamento de despesas de campanha do PL - e sabe-se mais lá do quê.
Quem consente na compra de um partido consente na compra de deputados
para que votem de acordo com o governo. Os R$ 10 milhões não devem ter
sido declarados à Justiça Eleitoral. Como não foram os milhões do
caixa 2 montado por Delúbio.
Temos, pois, um presidente da República, o governo dele e o partido
dele sob o risco iminente de irem pelos ares se Valério contar o que
sabe. Se a mulher de Valério contar o que sabe. Ou se a CPI dos Correios
concluir o que todos já sabemos.
Quem poderá dar um jeito na situação? O Congresso. Mas antes ou ao
mesmo tempo ele terá de dar um jeito em si mesmo realizando o maior
expurgo de todos os tempos. Sem resgatar sua legitimidade não poderá
resgatar a do Executivo.
Meus caros, jamais vimos e espero que jamais voltemos a ver uma crise
como esta. Perto dela, a que derrubou Collor foi um traque. Collor e PC
Farias não passavam de uns trombadinhas de luxo. Só os charutos cubanos
aproximam as duas crises.
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Depois de escrever "Ao Senhor
Presidente", endereçada ao presidente Fernando Henrique, João
Ubaldo escreve "O que é isso, companheiro?
Na crônica, João Ubaldo exprime a sua revolta e frustração, que
não é apenas sua, mas de milhões de brasileiros que acreditaram num
país mais decente.
"Apenas digo que, na minha opinião,
que só retiro se um juiz ordenar, Vossa Excelência sabia da bandidagem
de seus auxiliares e, vai ver, tacitamente a aceitava, ou seja, calava
e, pois, consentia. E digo, interprete Vossa Excelência como lhe for
servido, que corrupto não é só quem frauda diretamente ou põe
dinheiro no bolso: é também quem vê e ou finge que não vê, ou não
liga e não faz nada, sabendo que é seu dever fazer algo."
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O QUE É ISSO,
COMPANHEIRO?
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Abordando o que vou abordar, corro o risco de desinteressar os leitores. Culpa minha,
claro, pois estarei tocando num assunto velho. Já é comum escreverem-se
ensaios polissilábicos sobre como a massa de informação que nos bombardeia
sobrecarrega a mente e nem temos tempo de pensar direito. E a tecnologia, cada
vez mais célere, torna tudo obsoleto de um dia para o outro. Consumimos
novidades, não queremos senão novidades, tudo envelhece em poucos dias, às
vezes horas. O massacre de ontem hoje não mais interessa e a corrupção
denunciada hoje cansa, se repisada amanhã. Tudo, até a notícia, virou uma espécie
de mercadoria e o consumidor quer o último lançamento.
Acrescente-se a isso a revelação vertiginosa de falcatruas e crimes. É um caleidoscópio
enlouquecido, um carrossel desgovernado, uma lanterna mágica de trambiques,
mentiras e armações sórdidas, apresentada em compasso tão desenfreado que não
se pode acompanhá-lo. Puxa-se um fio e a meada, em lugar de diminuir, aumenta e
leva a outra e esta ainda a outra, numa rede diabólica de manobras delinqüentes,
trazendo a sensação de que o país é conduzido por gangues ou famílias
mafiosas. O espírito do homem de bem acaba por chegar a seus limites, o que se
expressa em dezenas de formas, até mesmo evitando esses assuntos, por uma questão
de sobrevivência psicológica e emocional, pois, afinal, para muitos, já soçobraram
os valores, as crenças e os padrões incorporados à sua formação, o que pode
tornar a vida insuportável.
Tenho ciência desse problema, mas não vou deixar de fazer meu registro de algo que não
gosto de dizer, mas que alguém tem que dizer, porque estou seguro de muita
gente pensa da mesma maneira. Não gosto de dizer o que vou dizer porque queria
acreditar no contrário, achar fatos ou indícios que me desmentissem convicções
que a cada dia mais se solidificam na minha cabeça e na de inúmeros concidadãos.
Mas não encontro fato ou indício algum e, assim, entendo que cabe afirmar que
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desrespeita e subestima os governados,
despreza-lhes a inteligência, julga-os cegos diante dos acontecimentos e
surdos-mudos depois deles.
Infenso ao contato com a imprensa, a não ser para monologar, escolheu um método
singular para dirigir-se ao país, em sua visita à França. Com ar
despreocupado, até fagueiro, que, em lugar da imagem de tranqüilidade que
talvez quisesse projetar, dava a impressão de deboche quanto aos que vêem
gravidade em nossa situação política, disse, com um cinismo que me assustou,
pois era a última cara em que esperava vê-lo estampado, que era aquilo mesmo,
que o PT tinha feito apenas o que é feito “sistematicamente”, no Brasil.
Portanto, conclui-se, não há razão para espanto ou desilusão.
Mas há razão para espanto e desilusão. Ficam agora dizendo por aí que não se
suporta mais um presidente operário e se quer depor um presidente operário. Em
primeiro lugar, não estou apoiando e muitíssimo menos propondo, sua deposição,
até mesmo por vias legais. Em segundo lugar, votei no presidente operário,
votou a esmagadora maioria do povo brasileiro e o que eu queria era ter orgulho
de dizer isso, era encher o peito como cheguei a encher nos primeiros tempos. Não
fizemos uma revolução, optamos pela mudança por vias democráticas, levamos
ao poder um operário, um herói de origem humilde, um lutador, um desbravador,
um que se proclamou ser aquele que mudará.
E de fato mudou. Quer dizer, mudou ele. Hoje temos a nos presidir um assassino de
sonhos e esperanças, um que diz, com o semblante jovial, que o partido que
vinha para mudar já começou por não mudar coisa nenhuma, ou melhor, ao que
tudo indica, aperfeiçoou os mecanismos do embuste e da ladroagem, a partir da
própria campanha. É isso mesmo, que queríamos, que o PT efetivamente
representasse mudança, que ingenuidade é essa, que otários somos? Portanto, o
presidente devia saber do que se passava, certamente não em detalhes, mas em
linhas gerais. É assim que se faz, quem não sabe disso?
Numa entrevista que dei, referi-me a ele como ignorante. Confirmo. Mas a entrevista,
por questão de espaço, precisou ser editada e, no muito que se teve de
excluir, deixei claro que, quando disse “ignorante”, o fiz apenas para
ilustrar uma afirmativa e utilizo a palavra no sentido de formalmente inculto.
Pois ignorante, infinitamente ignorante em relação a ele, sou eu, naquilo que
ele – que, além de tudo, é muito inteligente, apesar da preguiça intelectual
ou geral – domina magistralmente, o tornou artífice principal de uma obra política
sem precedentes e o conduziu à posição em que está e que agora o revela como
na inquietantemente profética frase do Barão de Itararé: “Queres conhecer o
Inácio, coloca-o num palácio”.
O candidato da mudança, do partido diferente dos
demais, é o presidente de um país onde seu partido não muda nada, antes
conserva com afinco e esmero. O companheiro, afinal, não passa de mais uma
Vossa Excelência, das quais, aliás, já vimos melhores. Não tenho provas e
por isto mesmo não acuso. Apenas digo que, na minha opinião, que só retiro se
um juiz ordenar, Vossa Excelência sabia da bandidagem de seus auxiliares e, vai
ver, tacitamente a aceitava, ou seja, calava e, pois, consentia. E digo,
interprete Vossa Excelência como lhe for servido, que corrupto não é só quem
frauda diretamente ou põe dinheiro no bolso: é também quem vê e ou finge que
não vê, ou não liga e não faz nada, sabendo que é seu dever fazer algo.
Sobretudo em casos assim, a conivência ou negligência faz alarmante fronteira
com a cumplicidade. Se o raciocínio é correto, Vossa Excelência está próximo
da suspeita de corrupção. Por favor desculpe a franqueza, mas acredito, embora
não tenha certeza, que Vossa Excelência ainda prefere a sinceridade à bajulação
e à hipocrisia.
Crônica publicada no GLOBO, em 24 de julho de 2005.
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Carta
ao presidente da República
Das Dores Brasileiro
Brasil, 22 de julho de 2005
”Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constroem um país de mentiras diariamente.”
(Do poema "A implosão da
mentira" do mineiro-carioca Afonso Romano de Sant'Anna.)
Senhor Presidente,
Sinto informá-lo que estamos
muito convencidos de que os seus companheiros têm mentido
desvaladamente. Sistematicamente, sem qualquer pudor, diariamente
debocham da nossa inteligência.
Talvez o senhor não saiba que eles andam fazendo isso cotidianamente.
Compreendo que aí, no Palácio do Planalto, fica difícil mesmo saber
de tudo o que eles têm aprontado aqui fora.
Estão jogando tão sujo, Presidente,
mas tão sujo, que o senhor, se soubesse, ficaria com vergonha. Estou
convencida disso.
Presidente, a coisa anda feia. Quem
votou no senhor não tem onde botar a cara. Os adversários estão
nadando de braçada. Nesta semana, por exemplo, dois dos seus
companheiros sentaram lá na CPMI dos Correios e mentiram, mas mentiram
tanto, fugiram, escaparam, disfarçaram.
Foi um festival de cinismo explícito.
Deu vergonha, Presidente. Pior. Um deles negava rindo como se estivesse
mesmo fazendo pouco caso de nós todos. O primeiro, que negou na terça-feira,
era até mais humilde, mas, no fim do dia, contaram na televisão que
ele tinha ganhado um jipão de R$ 74 mil. Presente de uma
empreiteira que tem bons contratos com o governo.
Arrepiou, Presidente. E sabe por que?
Quando a gente votou no senhor acreditava que essas coisas não iam mais
acontecer. Foi tudo ao contrário, Presidente.
Mas a história desse presentinho ainda
é pinto perto das coisonas que têm aparecido no noticiário. Não
vou nem mencionar tudo para não me alongar muito. Imagino que seu tempo
é curto com tanta coisa que ainda precisa ser feita no país, não é?
No domingo, eu vi o senhor, ajeitadão,
lá no Fantástico, dizendo que a primeira mentira é uma porcaria,
porque obriga a gente a continuar mentindo.Como é bem isso que seus
companheiros estão fazendo publicamente e sem nem ficar vermelho,
fiquei convencida: ele não sabe mesmo.
Mas, em seguida, bateu a dúvida,
porque o senhor também falou que eles só fizeram o que tem sido
sistematicamente feito. Desatinei: até o Presidente está nos
dizendo: “são, mas quem não é?” Foi quando decidi mesmo vencer o
medo e escrever, porque fiquei matutando: imagina a Dona Amélia, mãe
do Chico, viúva do Sergio Buarque, ouvindo isso? Deve ter levado um
choque.
Ela é sua eleitora desde sempre, já
tem idade, pode passar mal com esses desacertos. Deve ter sido bobeira,
cansaço da viagem, né? Aliás, Presidente, tem muita gente boa
passando mal com isso tudo. Estou convencida que o senhor não sabe da
missa a metade. Sabe jogo de futebol com gol de mão, juiz ladrão,
bandeirinha cego, jogador fazendo banana pra torcida?
Pois é bem isso que seus companheiros
– alguns da cozinha da sua casa, daqueles da pelada e da birita de
domingo – estão fazendo com a gente. Dizem que é tática de
advogado, esperteza de marqueteiro pautado por pesquisa, burrice. Mas eu
estou convencida que é deboche mesmo. E não está dando mais pra
aturar tanta desfaçatez.
Como estou convencida que estão
tentando tapar o sol com a peneira, resolvi tomar essa liberdade
de alertar o senhor. Ó, Presidente, tem japonês no samba. Tem cabrito
vigiando horta. Tem jaboti na árvore. Fique esperto. Olho vivo que os
companheiros tão demais abusados. Aprontaram muito. Estão mais sujos
do que pau de galinheiro e deixando o senhor zanzar por aí afora
feito cantor de churrascaria – aquele que canta onde os outros comem,
sabe? Não fica nem bem...
Anteontem, o senhor falou que pior do
que falar besteira é fazer besteira. Pois a companheirada está fazendo
as duas coisas, sistematicamente, e em cadeia nacional de rádio e TV.
Vai acabar dando merda, presidente. (Desculpe a má palavra.)
Respeitosamente,
Das Dores Brasileiro, sua criada.
Do blog do NOBLAT (http://noblat.ultimosegundo.ig.com.br/noblat/).
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A implosão da
mentira (Por Afonso Romano de Sant'Anna)
"Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.
Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.
Evidentemente crer que uma flor nasceu em
Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.
Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o
rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por lebre
e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.
Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constróem um país de mentiras diariamente."
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O piquenique
Maria Helena
Rubinato Rodrigues de Sousa
Na década de 50, a professora de português de uma turma da 1ª série
ginasial passou como dever de casa, para ser entregue na segunda-feira
seguinte, uma redação com o título: “Um piquenique no domingo”. Na segunda,
lá estava Fernando entregando seu caderno, onde se lia: “No domingo choveu,
por isso não teve piquenique”.
Desde o dia da malfadada entrevista do Presidente Lula sentadinho naquela
cadeira estilo Império, nos jardins da Résidence Marigny, essa frase ficou
ecoando na minha cabeça: Choveu no PT e por isso não houve piquenique.
Mas choveu o quê? Não foi uma água limpa, daquelas chuvas que fazem o
cheiro bom da terra nos entusiasmar, pois lembra a infância, dias melhores,
férias no campo, sei lá o quê, mas sei que são sempre lembranças positivas.
Dessa vez, não. Foi chuva fétida, misturada com lama, violenta. Chuva que
varreu a esperança, a fé e a caridade de nossos corações. A esperança de
dias melhores com esse governo que aí está, sumiu. A fé em encontrar
políticos com força suficiente para reerguer o país, desapareceu. A
caridade, essa foi pro espaço, ou você tem compaixão pelos Delúbios?
Mas será possível que nós, cidadãos, só conseguíssemos perceber isso agora?
Que tenha sido necessário ver um sujeito embolsar R$3000,00 reais numa
rapidez de prestidigitador e um tipo como o Roberto Jefferson abrir o bico?
Não, claro que não. Os sinais estavam aí, claros, nítidos, mas nós não
queríamos ver, nem nós, nem a imprensa, nem a oposição ao governo do PT.
De vez em quando alguém reclamava, é verdade. Por exemplo, no próprio PT
houve desentendimentos, mas o que aconteceu: a expulsão da Senadora Heloísa
Helena e de 3 deputados do partido. Problema deles, disseram alguns, eles
que são brancos que se entendam. Mas é que o problema era e é nosso...
Um artigo altamente elogioso ao PT e à sua política econômica, publicado
se não me engano na “Folha de São Paulo”, assinado pelo senhor Olavo
Setúbal, ou seja, pelo próprio Banco Itaú. Verdade que fez a pulga começar a
se mexer atrás da orelha!
Pouco a pouco o Congresso Nacional sob o domínio das Medidas Provisórias;
afastando-se cada vez mais da sociedade que elegeu seus representantes,
facilitando crises, maracutaias, coalizões espúrias; partidos nanicos se
agigantando, a base do Governo se tornando maior a cada dia, assim, sem mais
nem menos.
A blindagem do presidente do Banco Central, os juros na estratosfera, os
investidores estrangeiros encantados com o Brasil, a “ herança maldita” se
perpetuando, o Aerolula, os cento e tantos ternos, as camisas sob medida
sendo confeccionadas em Salvador, “quero dizer a vocês, que nunca, na
História deste país, se viu nada igual!“. Nunca mesmo!...
Não sei se tudo isso dói em todos da mesma maneira ou se dói mais nos
eleitores do Lula, como é o meu caso. Fico envergonhada de ter escolhido
para dirigir os destinos do meu País um homem tão patético, despreparado, e
que faz questão absoluta de continuar despreparado. Que chega a se
vangloriar de não ter estudado, bradando que para governar o Brasil não é
necessário diploma e sim coração. Que, ao iniciar um discurso numa
solenidade oficial, mostra aos presentes os papéis que vai ler e diz :” Não
se assustem com o volume. É um parágrafo por página”.
A desculpa por viajar tanto era sempre justificada pelo já célebre chavão
“Nunca na História deste pais...” e aí nos falava de como era amado no
exterior, de como o nome do Brasil hoje era respeitado lá fora, de como
todos estavam estarrecidos com o excelente trabalho realizado por ele,
enquanto nós, ingratos, achávamos que ele estava apenas fazendo turismo.
Pois é: nestes últimos dias perdemos a eleição para a OIC e para o BID.
Será que ainda vão insistir no Conselho de Segurança da ONU? E por quanto
tempo ainda vamos substituir os EUA no papel de invasor e polícia no Haiti?
Foi para isso, para esse redescobrimento do Brasil apud Lula, que nosso
Governo foi entregue ao camarada José Dirceu? Depois de seu depoimento na
Comissão de Ética, custo a crer que esse homem que ali estava, era o mesmo
arrogante detentor de muitos poderes, inclusive de uma ascendência natural
e, sejamos justos, intelectualmente merecida, sobre os demais membros do
governo que elegeu. Mas ele recusou qualquer insinuação de que o plano de
captação de fundos não contabilizados fosse de sua autoria, como se
pudéssemos acreditar que o Delúbio e o Silvio Pereira tivessem capacidade de
conjecturar esse esquema. Ou foi ele o autor ou foi quem?
Comedido, desempoado, sem qualquer sombra de sua costumeira arrogância
(cuja negação foi, aliás, recebida por risos em uníssono no plenário da
Comissão), José Dirceu me deu a impressão de ter esgotado seu estoque de
criptonita. Só nos resta, portanto, aguardar pelos novos capítulos, bem como
torcer para que um ominoso ‘acordão’ não esteja sendo tramado nas sombras.
Do blog http://noblat.ultimosegundo.ig.com.br/noblat/ |
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O JOIO DO JOIO |
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José Paulo Cavalcanti Filho |
Tivesse o eminente Presidente da
Câmara dos Deputados renunciado, e não escreveria sobre ele. Trago na alma
esse traço de caráter tão nordestino, de não chutar quem está no chão. Aqui
não se fala mal de morto (que não mais pode se defender). E quando um
combatente cai, a mão da espada estanca. Herança da tradição ibérica, dos
romances da cavalaria, de um tempo em que ainda havia honra no pelejar. Mas
Severino decidiu continuar. E tem, a seu dispor, o poder imenso do cargo.
Considero-me liberado, pois.
Começo anotando que, na entrevista coletiva de domingo,
disse o Deputado - “Não posso me curvar à pressão dos poderosos, tenho a meu
lado o meu passado”. Lembro filme de Alan Pakula, no distante 1971 – “O
passado Condena”. Porque Severino construiu toda sua vida pública se
curvando aos setores mais reacionários do país. E a serviço do
autoritarismo. Diferente do que disse agora, é precisamente o passado que
lhe condena. No filme, Jane Fonda ganhou um Oscar. Severino, estou
desconfiado, não vai ganhar nada. Ao contrário.
Em contradição às práticas de seu passado, agora diz: “Ao
povo peço que não prejulgue, não aceite condenações sem provas”. Parecendo
esquecer o papel melancólico que teve, ao lado do deputado direitista
Wandencok Wanderley, na expulsão do Padre Victor Miracapillo. Negando-lhe,
no negror da ditadura, o direito de defesa que agora invoca em benefício
próprio.
Só para lembrar, o religioso veio de Andria di Bari
(Itália), para viver ao lado da gente sofrida de Ribeirão. E viveu ali uma
vida simples, na humilde zona da mata de Pernambuco. Até quando, em 7 de
setembro de 1980, recusou-se a rezar missa em louvor da Independência do
Brasil. Uma posição respeitável e democrática - que o país vivia, então, sob
as botas militares. Falar em “independência”, naqueles tempos, era mesmo uma
blasfêmia. Foi mandado embora, no governo Figueiredo, por exigência de
Severino - que acabou marcado pelo povo, desde então, com o mordaz apelido
de Zito Miracapillo.
Engraçado, nessa trama de agora, é o rastro de fina ironia
que lhe perpassa. Começando pelo dia em que o dono da cantina denunciou o
“mensalinho” de Zito - 7 de setembro. Mesma data de Miracapillo. Como se a
providência divina estivesse por trás de tudo. Não o Senhor bondoso, que
distribui perdão aos homens de fé. Mas aquele do antigo testamento. Um Jeová
de mão pesada que cobra impiedosamente a conversão dos pecadores.
Outra ironia é que corre o risco de ir ao sacrifício pelo
mesmo baixo-clero que lhe deu a Presidência. E não como um ato de redenção
desses deputados-utilitários, purgando o erro de elegê-lo. Agirão, agora, só
por instinto de sobrevivência. E já que voltamos ao passado, comparo Zito a
um César de província, carregando ao lado seu Brutus particular - o
corregedor da Câmara que, para ele, foi sempre como um filho. Vai lamentar
perdidos ilusões. Que esse Brutus o protegerá enquanto puder, é certo. Mas
não irá com ele até o fim. Cabendo-lhe, assim quis o destino, o privilégio
da primeira punhalada.
Ah! como arde a ambição humana. “Só o prazer físico
contenta a alma plenamente”, dizia La Rochefoucaud. Tivesse permanecido em
cargos menores, ou sendo só mais um nesse baixo-clero que é seu mundo, e
continuaria a jogar biriba com os amigos. Feliz. De sua Presidência, ninguém
terá saudade. Especializou-se em proteger colegas e não punir ninguém. Até
se dando ao luxo de elogiar os que renunciaram. Sem compreensão do momento
histórico em que vivemos. De nossa sede por justiça. De nossa angústia por
mãos limpas.
“Da verdade e da Justiça surgirá a luz”, assim encerrou
sua fala. Uma justiça que, para o povo brasileiro, não se deve fazer na
escuridão mortiça dos grandes acordões políticos. Mas sob a luz
incandescente do sol - que, na lição de Roosevelt, é “o melhor
desinfetante”.
Na entrevista, Zito pede que se separe o joio do trigo.
Joio, todo mundo sabe, é um tipo de grama. Bela frase. Mas nos dias que
correm, e nessa Câmara dos Deputados, sem nenhum sentido. Presto homenagem
ao trigo bom, tantos homens honrados, que nela ainda nos dão esperança. Mas,
considerando o número enorme de suspeitos que por lá vagueiam, como Zito, o
que se vai separar é só o joio do joio.
José Paulo Cavalcanti Filho é advogado e mora no
Recife
jp@jpc.com.br
Do blog do Noblat em 16/09/2005
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