Edição de 22-abr-2004

IPANEMA - 110 ANOS


A história de Ipanema

Globo Online - 22 de abril de 2004

Enquanto você lê este texto, um novo modismo deve estar surgindo em Ipanema. Apesar dos 110 anos, o bairro continua cheio de charme. E de novidades. A data do aniversário é comemorada em função da fundação da Villa Ipanema, 1894.

Os primeiros moradores foram os índios tamoios. Por volta de 1575, os colonizadores portugueses dizimaram os índios e ali instalaram o Engenho Del Rei. Em 1609, as terras foram doadas a Sebastião Fagundes Varela, que trocou o nome do lugar para Engenho Nossa Senhora da Conceição. O Engenho foi acumulando prejuízos até ser desapropriado e leiloado pelo rei dom João VI, em 1808. A área era conhecida como Praia de Fora e mudou de mãos várias vezes até ser comprada pelo comendador Francisco José Fialho, que a repassou ao filho, José Antônio Moreira Filho. Mais conhecido como.... Barão de Ipanema.

Quando o Barão de Ipanema herdou o terreno, em 1886, a área nada mais era que um desvalorizado areal da Fazenda Copacabana. Só era possível chegar de canoa, de barco ou a pé. Apesar dos obstáculos naturais, ele decidiu explorar a área comercialmente. A planta do futuro bairro já mostrava 19 ruas e duas praças. Em 1884 surgia a Villa Ipanema, com ruas e lotes colocados à venda.

Em 1892, entra em funcionamento uma linha de bonde puxada a burro sobre trilhos de madeira móveis entre Botafogo e a atual Praça Serzedêlo Correia, em Copacabana. Em 1894, a linha foi estendida até o Posto 6, na época conhecido como Praia da Igrejinha. No mesmo dia, o barão inaugurou uma linha de bonde não oficial, ampliando o trajeto até a Villa Ipanema. Foi aí que o negócio deslanchou e o barão começou a vender suas terras, principalmente a imigrantes alemães, franceses, judeus e italianos.

Ipanema cresceu, mesmo que um pouco isolada do resto da cidade. Nos anos 40 e 50 não existia sequer uma boate por ali. Mas a partir da década de 60, o bairro começou a exportar modismos. Foi lá que a bossa-nova se estabeleceu, que Leila Diniz brilhou, que a Banda de Ipanema passou. Nos anos 70, surgiram "as dunas do barato", o local de encontro da geração desbunde. Nos anos 80, o bairro viu nascer nas suas areias o Circo Voador. Ipanema teve verões marcantes como o "da lata" e o "do apito". E fez a moda entrar na moda com lojas que ficaram para a história como a Bibba, a Blu Blu e a Company.

E agora mesmo, um passeio pelas ruas arborizadas do bairro pode revelar novos ateliês ou simpáticos cafés. O bairro não pára.

Pôr do Sol em Ipanema - Foto de Percy Thompson


Visão do paraíso

Zuenir Ventura

A cerimônia se repete todo dia. No começo da noite, quando o sol acaba de cumprir o seu trajeto habitual e desaparece lá pelos lados do Vidigal, os banhistas da Zona Sul se levantam da areia e aplaudem de pé. Os moradores já estão acostumados com o ritual. De casa ouço o barulho das palmas, dos assovios, de gritos e exclamações que se espalham pela Praia de Ipanema entre 19h30m e 19h45m. Às vezes vou ver.

São jovens que não eram nascidos no verão de 68/69, quando o costume foi lançado num "dia de exportação", como se dizia. Diante de um pôr-do-sol como esses de agora, o jornalista Carlos Leonam não se conformou: "Essa tarde merece uma salva de palmas!" Imediatamente, o grupo em que estava na altura do Posto 9 - Glauber Rocha, Jô Soares, João Saldanha, entre outros - deu início aos aplausos. Depois, o publicitário Roberto Duailib consagrou a cena, recriando-a num comercial de bronzeador para a televisão. A cidade que, segundo Nelson Rodrigues, vaiava até minuto de silêncio era capaz, também, de aplaudir o entardecer.

De lá para cá, tudo mudou - o país, a cidade, o mar, a praia, menos o sol. Em forma de enorme bola de fogo, ele continua realizando sua lenta e cuidadosa operação de descida em direção ao mar. Durante os 10 minutos que leva para mergulhar por inteiro, a praia lotada permanece observando em contrito silêncio, à espera da explosão final.

Na terça-feira passada, porém, foi diferente. O boletim do tempo informara que o céu estaria nublado e que a lua nova se encontrava em transição, como o país. O sol deveria se pôr às 19h43m, mas chegou um pouco atrasado e escondeu-se atrás de estranhas nuvens luminosas, estreitas, dispostas em grupos como se fossem pinceladas ralas e irregulares sobre o azul. A meteorologista Marlene Leal, a quem recorri no dia seguinte, explicou que aqueles "rabos-de-galos" eram formados por diminutos cristais de gelo situados a grandes altitudes. E que o delírio de luz e cor que me deslumbrara ocorria por causa da incidência dos raios solares sobre os cristais. Um mero fenômeno de reflexão chamado cirro-estrato.

No entanto, para a jornalista da TV italiana que estava fazendo uma reportagem sobre a violência no Rio, era outra coisa. Das pedras do Arpoador, câmera na mão, ela não sabia o que admirar mais: se o espetáculo do pôr-do-sol ou o da salva de palmas. Viera atrás do inferno e estava ali, atordoada pela beleza, diante de uma visão do paraíso.

Ipanema - Foto de Abram Kaczelnik

 

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30-jun-2007