A nação invadida

Marcos F. Moraes

 

Ao ser preso, julgado e condenado em um território que não pertence mais ao nosso país e tem seus limites geográficos, suas regras próprias e seus 'dirigentes', o jornalista Tim Lopes, no que seria sua última reportagem, mostrou que estamos em uma guerra civil e que, até o momento, perdemos algumas batalhas e parte do nosso território.

Tim era um amigo incondicional, companheiro de corridas de rua, foi um dos fundadores do nosso grupo denominado 'Expresso das 6'. Juntos, éramos em torno de 20, vivemos grandes momentos de nossas vidas. Vibrávamos com o entusiasmo e as reportagens memoráveis do nosso companheiro. Juntos ao longo dessas duas últimas décadas, reconhecemos nele um homem completo. Suas posições políticas, seus compromissos, suas convicções, eram os ingredientes que compunham essa extraordinária figura de repórter, amigo, cidadão e pai de família.

Era apaixonado por tudo que fazia. Morreu vítima do que mais se empenhou, a sua profissão, e do despreparo das nossas autoridades para enfrentar os problemas básicos da nação.

Inúmeras justificativas são mencionadas para explicar as causas da criminalidade crescente. Geografia da cidade; ocupação sem controle pelas pessoas sem teto para viver; incompetência policial, desaparelhamento, burocracia e falta de vontade política do Poder Executivo; barreiras legais. Se examinarmos cada uma das causas, veremos que o principal óbice é a falta de vontade política e o medo de assumir uma posição forte.

Realmente a geografia da cidade, com suas favelas localizadas no alto dos morros, propicia condições privilegiadas para instalação das quadrilhas. Não é à toa que até a entrada e a saída das favelas são controladas por seus 'reis do mal'.

Leis próprias, licenças para exercer a moradia, trabalhar e se deslocar são praticadas fora das leis brasileiras. Se tomarmos o exemplo do Complexo do Alemão, onde vivem 250 mil pessoas, veremos que essa massa de trabalhadores e cidadãos brasileiros é manietada por 300 facínoras que controlam o poder e o tráfico naquela parte do Brasil.

Será que é válido o argumento de que uma retomada desse território poria em risco a vida de inocentes? Com as técnicas atuais antiguerrilha, certamente existe um risco muito menor que o de manter essa parte da nação ocupada e com inúmeras mortes ocorrendo todos os dias.

Pobreza não significa delinqüência. Há em cada favela um pequeno grupo de traficantes dominando e escravizando nossos irmãos.

Não sei se no estado de guerra em que vivemos, num clima de absoluta insegurança, ameaçados a todo momento e a cada esquina, até que ponto podemos suportar o descompromisso dos governantes com problema de tal magnitude. Quando falam, parece que se referem a um outro país, e não ao nosso. As medidas efetivas ficam sempre para um tempo distante, e nunca acontecem.

O estado de guerra pressupõe medidas adequadas e imediatas, para que evitemos a ocupação total da nação. Sob o ponto de vista legal, há até mesmo cobertura constitucional, na figura do estado de defesa, de acordo com o artigo 136 da Constituição da República, conforme mostra o professor de direito constitucional Marcello Cerqueira.

Cabe ao presidente da República decretar o estado de defesa, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e resgatar o território perdido.

A segurança pública é dever do Estado, e esperamos que essa providência seja tomada agora, e não seja adiada com a desculpa e a retórica de que precisamos modificar a lei.

Em artigo publicado em “O Estado de S.Paulo”, o jornalista Roberto Godoy afirma que o Exército mantém há 14 anos planos constantemente atualizados para operações armadas de grande porte nos morros do Rio, utilizando forças operacionais especiais. Tivemos um exemplo vitorioso dessa ação em 1988, quando um grupo tático foi treinado no Batalhão de Forças Especiais do Exército para combater o maior traficante de drogas da época, o Toninho Turco e sua quadrilha. Em 24 horas os 36 principais homens e mulheres do bando foram presos.

Precisamos de uma ação continuada para, uma vez por todas, expulsar dos territórios ocupados os chefões do tráfico. Temos a cobertura legal, a concordância da população e a necessidade premente de exercer o direito de ir e vir, de educarmos nossos filhos com tranqüilidade, de viver com dignidade e de garantirmos o direito dos milhares de trabalhadores e pessoas honestas que vivem nas favelas como se escravos fossem dos famigerados reis do tráfico.

Nossa cidade e nosso Brasil precisam de tranqüilidade. Só resgatando nossos valores e nossos direitos salvaremos o nosso país.

Senhor presidente, concordamos quando o senhor afirma que chegamos ao limite insuportável da intranqüilidade. Tim foi trucidado e nossa pátria está invadida. Esperamos que o senhor transforme em ação imediata a sua indignação.

Em passeata singela, no próximo domingo dia 16 às 10 horas da manhã no final do Leblon, estaremos chorando a morte do Tim e gritando com veemência pelas providências do governo.


Pranto por Tim Lopes

Zuenir Ventura

 

 Ele morreu porque vivia numa terra de regiões dominadas onde a República não entra

 

Nesse momento de luto e purgação, ainda dói pensar no sofrimento físico de Tim — no suplício a que foi submetido durante aquelas horas finais, anos, séculos intermináveis de martírio, em que seu corpo sofreu todas as dores e padecimentos do mundo. É imaginá-lo sangrando, mãos amarradas, pés furados por bala, torturado, sendo arrastado por seus algozes ao calvário em que seria sacrificado.

Ele, o doce e terno Tim, limpo de coração, incapaz de uma malícia, quanto mais de uma maldade, sendo condenado sumariamente, num arremedo de julgamento, sem defesa nem apelação — ele, a encarnação da bondade, perdido diante do mal absoluto. E seus carrascos escolhendo a morte mais cruel e dolorosa para infringir-lhe, a mais demorada. Não um tiro rápido e certeiro, mas os golpes repetidos e lancinantes da lâmina de uma espada.

Não, não quero ver a execução. Não quero ver o sangue derramado. Não posso imaginar o abandono, o desamparo que nessa hora deve ter se apoderado de Tim, que cultivou a fraternidade, a compaixão e a clemência. Por que ele?, teria todo o direito de se perguntar. Em que e quem pensou? Não consigo imaginar o manso e tolerante Tim blasfemando. Com certeza rezou. Se lhe restou alguma consciência ou lucidez até o fim, deve ter morrido tentando entender tanta iniqüidade. Crucifixo no pescoço, é possível que esse cristão de nome Arcanjo, amigo de Frei David, meio missionário, tenha seguido o exemplo de alguém em que acreditava e que em situação parecida conseguiu dizer: 'Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem'. Tim era bem capaz disso.

Temos dificuldade em admitir a extensão sem limites da crueldade humana. É mais fácil dizer que um tipo como Elias Maluco é um 'monstro', um 'animal' do que imaginá-lo à nossa semelhança, pertencendo à mesma espécie, mesmo que em estado avançado de patologia. Desqualificando-o como ser humano, dormimos mais tranqüilos. 'Isso é coisa de bicho'. O problema é que não é. Animal nenhum jamais desenvolveu os requintes de perversidade que usamos nos nossos inumeráveis métodos de tortura. Somos mais capazes de inventar e aprimorar formas de sofrimento do que de prazer. É penoso, dá vergonha lembrar que o homem é o único primata capaz de fazer com outro o que foi feito com Tim Lopes.

A Humanidade sempre criou uns e outros. Para cada Tim Lopes há um Elias Maluco, ou mais. Já se disse que não existe bem sem mal. O mal não será nunca totalmente erradicado da face da Terra. Disso sabemos. Mas que pelo menos seja controlado e punido. O que escandaliza e assusta agora é essa impressão de que o processo civilizatório foi interrompido para dar lugar ao estado de barbárie, de que o crime compensa, de que Elias Maluco venceu — de que é mais esperto do que a polícia, mais inteligente do que a Justiça, mais forte do que a imprensa, mais poderoso do que os poderes institucionais.

Aterroriza saber que a 'lei' e os métodos dele e de todos os seus comparsas e rivais já vigoram em muitas partes. A ideologia da violência e da crueldade, tendo como caldo de cultura a miséria, impera em todas as comunidades pobres do Rio e já invadiu o imaginário de milhares de jovens que cantam como hino de exaltação rituais como o que sacrificou o repórter: 'Cuidado com a fita-crepe, que ela pode te enrolar/Cuidado com o maçarico, que ele pode te furar'. Ou então: 'E vai morrer todo queimado ou então todo furado'.

'Foi uma morte na família', escreveu Luiz Garcia, na mais sucinta e fiel tradução de nosso sentimento. Nesta hora de expiação e catarse, em que o coração fica vazio e a cabeça, quente, surge o impulso de buscar um culpado — dentro de nossa própria família jornalística. Essa autoflagelação é tão nociva quanto a autocomplacência. Discutir agora se a culpa é do Tim, do jornalismo que fazia ou do equipamento que usava é injusto com seu legado. Ele e sua obra são vítimas, não réus.

Tim não foi assassinado porque usava microcâmera, mas porque vivia numa terra de poderes paralelos, governantes marginais, populações reféns, territórios dominados, onde a República não entra, e direitos como o de ir e vir e o de informar não existem. A mulher do jornalista, Alessandra Wagner, num exemplo de sofrida serenidade, recomendou: 'O momento não é de revolta'. Talvez se possa acrescentar: nem de julgamentos precipitados; é hora de pranto.

 

AS  FOTOS  DA  PASSEATA

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A violência virou um problema de Estado-Maior

Arnaldo Jabor


Sempre que escrevo sobre a violência me dá uma sensação de inutilidade. Quando vejo os movimentos de solidariedade, bandeiras brancas, pombas da paz, atores nas ruas, burgueses falando em cidadania, me dá uma sensação de perda de tempo.

Nós tratamos os criminosos como se fossem “desviantes” de nossa moral, como gente que se “perdeu” da virtude e caiu no “pecado”, no “mundo do crime”. Não é nada disso. Eles são os novos empregados de uma multinacional. O único emprego que lhes foi oferecido no último século: a megaempresa da cocaína. Ela trouxe o poder sobre as comunidades que, somado à ignorância e à miséria, criou a crueldade sem limites, a bruta guerra animalesca. Os bandidos violentos são quase uma mutação da “espécie social”, fungos de um grande erro sujo do qual nós somos cúmplices.

Hoje, nós é que ficamos caretas diante deste mundo periférico que não se explica, gerando outra ética, funérea, sangrenta. A miséria armada é uma outra nação, no centro do Insolúvel.

Essa gente era anônima; estão ganhando notoriedade na mídia. São vazios objetos de uma corrente de pó; nós, pequeno-burgueses, é que víamos neles até uma vaga consciência “política” de marginais. Achamos até que eles querem calar a imprensa. Nada. Mataram por matar, chamaram o Tim de X-9 e “já era” — disseram eles. Nós é que estamos lhes fornecendo uma “ideologia”.

Mas não quero ficar deitando sociologia barata sobre a violência. Quem sou eu? Mas vejo com um mínimo de bom senso que os vilões também somos nós. Eles são a prova de nosso despreparo. Os incapazes somos nós, ainda crentes de leis inúteis, de coerções superadas, de polícias falidas.

Nós não fizemos nada quando as favelas eram pequenas. A miséria era dócil, podia ser ignorada. Agora, se não agirmos, isso vai virar uma endemia eterna. A lei não consegue nem instalar anticelulares nas cadeias e fica encenando comboios para a mídia, com cem policiais pra levar o Beira-Mar para outra cadeia.

Ninguém consegue resolver nada porque os instrumentos de defesa publica estão engarrafados numa rede de burocracias, fisiologismos, leis antigas, velhos conceitos que são facilmente superados pela eficiência “pós-moderna” dos bandidos, diretamente ligados ao ato, ao fato, à instantaneidade do mal, e sem freios éticos. Eles têm a mesma vantagem dos terroristas. Muito lero-lero racionalista ocidental, ciência, democracia e, aí, chega um arabezinho maluco com uma bomba e arrasa o shopping center.

Eles são uma empresa moderna. Nós somos o Estado ineficiente.

Eles agilizam métodos de gestão. Eles são rápidos e criativos. Nós somos lentos e burocráticos.

Eles lutam em terreno próprio. Nós, em terra estranha.

Eles não temem a morte. Nós morremos de medo.

Eles são bem armados. Nós, de “três-oitão”.

Eles ganham muita grana (Um “aviãozinho” de 15 anos ganha mais por semana que um PM por mês).

Eles estão no ataque. Nós, na defesa...

Nós nos horrorizamos com eles. Eles riem de nós.

Nós os transformamos em superstars do crime. Eles nos transformam em palhaços.

Eles são protegidos pela população dos morros, por medo ou vizinhança.

Nossas polícias são humilhadas e ofendidas por nós.

Ninguém suborna bandido. Eles compram policiais mal pagos. Um cara que ganha 700 paus por mês não tem ânimo para combater ninguém.

Eles não esquecem da gente nunca, pois somos seus fregueses. Nós esquecemos deles logo que passa uma crise de violência.

A droga e as armas vêm de fora. Eles são globais. Nós somos regionais.

Alguma vitória só poderá vir se desistirmos de defender a “normalidade” de nosso sistema, pois não há mais normalidade alguma; precisamos de uma urgente autocrítica de nossa ineficiência. O combate ao crime passa pelo combate ao nosso descaso e à nossa incompetência.

A luta contra o trafico, é obvio, começa lá longe, nas fronteiras. Por lá entram as armas e o pó. Não adianta subir e descer de morros. Temos de fechar fronteiras.

A luta contra o crime não é mais uma luta policial; não é mais a Lei contra o Pecado. Não. O crime cresceu tanto que se tornou um problema de Estado-Maior. Sim. Trata-se de uma luta política e, mais que isso, uma luta policial-militar. Acho que tem de haver, sim, uma séria articulação das Forças Armadas com as polícias. Tem de haver generais estudando estratégias e logísticas de cercos e ataques. Meses de estudo, planos secretos, dinheiro, muito dinheiro e milhares de homens com armas modernas. E tudo isso coordenado com campanhas de esclarecimento e de proteção às comunidades que eles “protegem”. “Ahh... — alguns vão gritar — o Exército não foi treinado para isso!” Pois que seja treinado. Trata-se de uma guerra. Ou não? Não combateram a guerrilha urbana, com implacável ferocidade e competência? Aposto que outros dirão: “O Exército não é para crimes comuns; é para guerras maiores...” Para quê? A invasão da Argentina? A guerra que se anuncia é subversiva no pior sentido. Não aspira a uma ordem nova. Só quer uma vingança obtusa e a manutenção da miséria como refúgio. No fundo, muitos não admitem a ação das Forcas Armadas porque desejam ocultar a derrota de um sistema legal e policial. A guerra é reconhecimento do fracasso da política. Pois que seja. Nosso fracasso tem de ser assumido. Do contrário, continuaremos atrás das grades de nossos condomínios, dizendo “Que horror!” para sempre.

Crime hediondo é que isso não seja uma prioridade nacional. A tragédia das periferias brasileiras me lembra um terremoto ignorado, para o qual ninguém enviou patrulhas de salvamento. Já houve a catástrofe e todos nós tentamos esquecê-la, trêmulos de medo, blindados, com os socialites cheirando o pó malhado de otários, perpetuando esse poder paralelo, que tende a crescer.

O GLOBO - 18/06/2002

 
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30-jun-2007