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Um
lugar privilegiado pelo clima e pela beleza. Assim, as terras de Santa
Maria Madalena sempre foram vistas pelos que aqui pisaram. Esse céu de
infinito azul, essas montanhas verdejantes e as pedras que enfeitam uma
paisagem sem igual despertaram em muitos a paixão que ainda hoje mora
no coração dos madalenenses, sejam os de nascimento ou por opção de
vida.
Com
os olhos da imaginação, podemos rever o deslumbramento de um Manoel
Teixeira Portugal, aventureiro que chegou em 1840 a estas terras, então
conhecidas como “Tabatinga”; ou do mateiro José Vicente, que talvez
tenha sido desviado de sua cruel missão de perseguidor de escravos
fugitivos pela contemplação deste belo lugar, onde resolveu ficar; ou
ainda da figura, carismática e central em nossa história, do Padre
Francisco Xavier Fourthé, que, além de possuidor de terras, entregou a
este paraíso tropical sua alma, quando uma doença dos olhos o levou a
fazer uma promessa a Santa Maria Madalena.
Corpo
curado, promessa cumprida: o patrocínio da construção de uma capela,
que se transformou na belíssissima igreja matriz, que tanto nos
orgulha. Por isso também a cidade ganhou o nome de Santa Maria
Madalena, e nós ganhamos a eterna proteção que transforma nosso município
num abençoado e acolhedor lugar para se viver.
Nos
últimos trinta anos do século XIX, o progresso, trazido pela vontade
de homens empreendedores e visionários, chegaria a estas serras. Contra
o céu azul, a fumaça branca das locomotivas, vislumbrada entre os
extensos cafezais, mostraria que essas cidades serranas estavam ligadas
ao mundo pelo então moderníssimo resfolegar das locomotivas a vapor.
Os
apitos estridentes dos trens ecoariam entre as montanhas por quase cem
anos, desde que os primeiros trilhos da então Estrada de Ferro Santa
Maria Madalena foram assentados na baixada, em Conde de Araruama, no ano
de 1877, até meados dos anos 60 do século XX, quando uma suposta
racionalização econômica extinguiria o ramal ferroviário nesta e em
outras regiões, e praticamente acabaria com a impressionante malha
ferroviária brasileira.
Porém,
os trens não se foram da memória dos madalenenses. Muita gente, como
eu, lembra de quando, menino, saía do Rio com o coração aos pulos
pela perspectiva de férias em Madalena, antecipando os momentos de
prazer, em que se podia comer frutas no pé, pescar nos riachos e
mergulhar o corpo nas águas frias e cristalinas dos córregos.
Era
um dia inteiro de viagem: uma maravilhosa viagem de trem. À rapidez do
trem que saía de Barão de Mauá com destino a Campos, se seguia o
lento sacolejar do trenzinho que subia a serra saindo de Conde de
Araruama.
Em
cada parada, muitas atrações para um menino de cidade grande: em
Macabuzinho, apenas uma parada bucólica, trazendo a paz dos lugarejos
tranqüilos; em Conceição de Macabu, muita gente na estação e a
beleza da usina e dos vagões dos trens de cana cheínhos; em Triunfo, o
alarido dos vendedores de goiabada e a inevitável carona no trem que
manobrava para subir a serra.
E
o trem subia, com a máquina chiando, resfolegando e soltando fumaça e
fagulhas. Ainda hoje, passando pela estrada asfaltada, podemos imaginar,
parada que era feita em Leitão da Cunha, onde a locomotiva, como
um viajante sedento, pegava água para enfrentar a íngreme subida.
A
lembrança da chegada a Trajano de Moraes ainda faz ecoar na lembrança
o apito agudo com que maquinistas, como Rasma e Juca Peruzzi,
anunciavam, descendo a garganta, que o trem iria romper, com vida e
movimento, a modorra do final de tarde.
Depois
de desdobrar-se em duas composições, soltando a que ia até Manoel de
Moraes, o trem subia, subia, subia até Doutor Loretti. Já noite, era
possível ver a pequenina estação com seu lampião a iluminar a
descida de pouquíssimos passageiros.
Depois,
mais beleza na viagem noturna pelo meio da mata. Ou, quando se voltava,
em plena manhã iluminada pelo sol resplandecente, a deslumbrante
paisagem do verde entremeado das folhas de prata das embaúbas e a mata
colorida pelo roxo das quaresmeiras.
Na
chegada a Madalena, na noite ponteada de estrelas, um frio cortante
atingia minhas pernas descobertas de menino, quando saltava no Largo do
Machado ou quando descia no alto da estação. Olhar a cidade em meio à
bruma era como viver um sonho real, que se realizava cada vez mais, nas
semanas seguintes, vivendo as delícias de estar na roça.
O
trem regulava a vida de todas essas cidades. Sua saída, pela manhã,
sua chegada, à noite, davam um movimento intenso às proximidades da
estação, à praça e às ruas; e ainda contribuía para os passeios de
braços dados e os namoros, nessa hora de encontros de todos, como se o
amor mesmo tivesse descido do trem.
Esse
transporte sobre trilhos levava e trazia passageiros e mercadorias,
sendo fundamental para a modesta mas firme atividade econômica da região,
e dando a muita gente a oportunidade de ganhar o pão de cada dia, desde
as nobres atividades de chefe de trem e maquinista até o humilde
trabalho de conservação da linha férrea. Quase todo mundo nas cidades
teve algum parente empregado na velha Leopoldina. Famílias inteiras são
exemplos disso: os Ferro, por exemplo, em Trajano de Moraes, com João,
Aurélio, Zezé e Theodoro Ferro, todos primeiro foguistas e depois
maquinistas; ou a família Carino, com Auro e Antônio Carino, que se
esmeravam no trabalho de manutençãoão das linhas, no que então se
chamava de “soca”. Houve até um dos Carinos, Miguel, que acabou por
dar seu nome a uma parada para o trem, que ficava próximo de onde é
hoje o Departamento e o Largo do Machado. Eu mesmo saltei muitas vezes
nesse ponto, então denominado “Parada Miguel Carino”.
Sobretudo
aos mais jovens, convido para uma sintonia com esse passado em que nossa
cidade tinha no trem não somente um transporte, mas um verdadeiro
referencial de vida.
Muita
gente não sabe por onde passava o trem, com sua beleza mecânica,
parecendo um serpenteante animal de aço e madeira, que corria por entre
montes verdes e cafezais produtivos. Basta ir hoje para os lados do
chamado Dezessete, até Dr. Loretti, e observar que marcas indeléveis
ainda estão por lá. A estrada foi aberta exatamente no local onde
estavam assentados os trilhos.
Podem
ser vistos, por exemplo, os vários cortes na pedra bruta planejados
pelos geniais engenheiros construtores ingleses, na justa medida para a
passagem do trem, o que a nós, meninos da época, chegava a assustar. Lá
estão, permitindo apenas a passagem de um automóvel, de tão estreita
que é a estrada nesses trechos que parecem verdadeiras esculturas nas
rochas, onde bonitas samambaias nativas parecem se espreguiçar ao sol.
Planejamento inglês, mas labor e habilidade de operários brasileiros
nossos antepassados…
Vale
a pena ver também as obras para canalização e drenagem das águas
pluviais. São escoadouros para a água feitos com pedras-de-mão,
laboriosamente esculpidas e perfeiramente assentadas, formando túneis
com bocas de 2 metros de altura e muitas vezes com mais de 15 metros de
comprimento!
Além
de impressionantes obras de engenharia, é preciso assinalar que as
construções ferroviárias sempre contribuíram para a harmonização
entre a tecnologia e o respeito às condições do meio ambiente, mesmo
sabendo-se que naquela época a consciência ecológica estava apenas
começando a se instaurar por iniciativa de poucos.
Antigos
prédios de estação, casas simples de trabalhadores na via férrea e
às vezes até dormentes incrivelmente resistentes ao tempo – pouca
coisa restou do trem que acabou. Mas
é pena que tenham sumido também seus vestígios na cidade. Resgatar
essa marca histórica na trajetória de Santa Maria Madalena não deve
ser somente preocupação de saudosistas. Não. O que está em jogo é a
sobrevivência cultural de nossa região, na qual o trem teve papel
central.
O
menino de ontem, que ainda consegue imaginar sua camisa branca suja com
a fuligem expelida pela chaminé do trem, gostaria que fosse dada aos
jovens de hoje a oportunidade de resgatar esse passado ferroviário de
nossa Santa Maria Madalena.
Já
que sonhar sempre é permitido, por que não sonhar com a possibilidade
de, a exemplo de muitas outras cidades brasileiras, Santa Maria Madalena
ainda ver circulando, num pequeno trecho, uma velha e bem restaurada
Maria Fumaça, com seus vagões de madeira e bancos de palhinha? Quem
sabe se uma nova geração - netos, bisnetos e tataranetos daqueles
idealistas e visionários do passado, - não consegue trazer-nos de
volta a imensa alegria de ouvir o apito do trem, que continua soando em
nossos corações? Seria um verdadeiro passeio de trem no paraíso, com
paisagens lindas e sentindo a brisa do terceiro melhor clima do Brasil.
Aos
menos românticos, e mais pragmáticos, podemos lembrar que, além do
resgate cultural, passeios de trem, em trechos restaurados, além de
fazer a alegria de turistas, andam garantindo boa renda em muitas
cidades do Brasil…
Vamos
embarcar! E boa viagem a todos!
*J. Carino é escritor, professor universitário no
Rio de Janeiro e integrante do Grupo Amigos de Madalena, instituição
privada, apartidária, não-sectária, contrária à intolerância, à
discriminação, ao preconceito, criada por madalenenses de coração e
dedicada ao desenvolvimento sustentado da região, com proteção ao
meio ambiente, e à promoção e divulgação de Santa Maria Madalena (www.amigosdemadalena.com.br).
O autor e o Grupo Amigos de Madalena agradecem a Jomar
Pereira Dias, Presidente da Casa da Cultura de Madalena, a disponibilização
de dados que constam deste texto. |