Edição de 15-jul-2005

DERCY GONÇALVES COMEMORA 98 ANOS

SANTA MARIA MADALENA ESTEVE EM FESTA

 

J.Carino entrevista Dercy Gonçalves           

Sábado, 24 de junho de 2005. Santa Maria Madalena esteve em festa, engalanada e orgulhosa: sua filha mais famosa, a grande atriz Dercy Gonçalves comemorou 98 anos de uma vida intensa, aventurosa – trajetória de coragem, determinação e vitórias.

O Grupo Amigos de Madalena acompanhou Dercy durante todo esse dia pela cidade, desde o passeio habitual, onde compra as delícias que gosta de comer – queijo, lingüiça, doces –, na feijoada comida com apetite sem igual, passando pela praça, onde amigos, como o compositor Billy Blanco e o fisioterapeuta Filé (famoso por ter recuperado Ronaldo, o fenômeno) gravaram a marca de suas mãos na Calçada da Fama, aos pés da estátua de Dercy.

Santa Maria Madalena teve, também, nesse dia a honra de ganhar mais uma Cidadã Madalenense: a fabulosa atriz Fernanda Montenegro.

Em seu discurso de agradecimento, Fernanda Montenegro expressou sua profunda admiração e amizade por Dercy, em quem reconhece uma das maiores atrizes do Brasil, cuja técnica de interpretação, no teatro, no cinema e na televisão, vem influenciando, até hoje, uma infinidade de novas artistas.

Fernanda, cujas mãos foram gravadas na Calçada da Fama ano passado, nas comemorações do 97º aniversário de Dercy, confessou seu amor por Madalena, cidade à qual foi apresentada por sua grande amiga.

Encerrando o dia de comemorações, em plena praça principal da cidade, o Grupo Amigos de Madalena prestou uma homenagem a Dercy: foi-lhe entregue uma fotografia da casa onde ela nasceu, com um poema escrito por J. Carino. (Veja aqui).
Leia também a carta em que Gilmar Carino, Presidente, torna Dercy Gonçalves oficialmente integrante do Grupo Amigos de Madalena. O Grupo Amigos de Madalena prozuziu um vídeo, registrando todo esse dia de comemorações, e registrando entrevistas exclusivas com Dercy Gonçalves e Fernanda Montenegro. Em breve, a fita estará disponível no Museu Dercy Gonçalves, situado na entrada da cidade.

Grande Dercy! Os Amigos de Madalena a saúdam, com orgulho, respeito e admiração

Os leitores da Alma Carioca já conhecem bem as crônicas de J. Carino, autor do excelente “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, livro de crônicas sobre a Cidade do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy  Castro – crônicas que, em sua maioria foram escritas originariamente aqui para a Alma Carioca.

Mas, nossos leitores talvez se supreendam com uma nova faceta do nosso eclético J. Carino, que, além de cronista, é poeta, contista, desenhista, motociclista e outras coisas mais, como se pode conferir em sua página pessoal www.jcarino.com.br .

J.Carino é integrante do Grupo Amigos de Madalena, cidade serrana do Estado do Rio de Janeiro, vizinha de Trajano de Morais, Conceição de Macabu, Cordeiro e Nova Friburgo. Esse grupo dedica-se à promoção do desenvolvimento sustentável da região, com preservação do meio ambiente, destacando-se iniciativas para incremento do turismo em Santa Maria Madalena, cidade cujo clima é considerado o terceiro melhor do Brasil.

Além disso, Santa Maria Madalena é conhecida em todo o Brasil como a cidade em que nasceu a grande e irreverente atriz Dercy Gonçalves.

Como integrante do Grupo Amigos de Madalena, J. Carino mostra a mencionada nova faceta: a de repórter, fazendo gravações em vídeo nas quais são mostradas as belezas da cidade e de toda aquela região, bem como realizando entrevistas com personalidades vinculadas àquela cidade serrana.

Nas fotos J. Carino está em plena ação como repórter, entrevistando Dercy Gonçalves e a grande dama do teatro e da televisão, Fernanda Montenegro, no momento do recebimento do título de Cidadã Madalenense.

Informações sobre o Grupo Amigos de Madalena e sobre a cidade podem ser acessadas no endereço:

Amigos de Madalena





UM PASSEIO DE TREM NO PARAÍSO

J.Carino *

Um lugar privilegiado pelo clima e pela beleza. Assim, as terras de Santa Maria Madalena sempre foram vistas pelos que aqui pisaram. Esse céu de infinito azul, essas montanhas verdejantes e as pedras que enfeitam uma paisagem sem igual despertaram em muitos a paixão que ainda hoje mora no coração dos madalenenses, sejam os de nascimento ou por opção de vida.

Com os olhos da imaginação, podemos rever o deslumbramento de um Manoel Teixeira Portugal, aventureiro que chegou em 1840 a estas terras, então conhecidas como “Tabatinga”; ou do mateiro José Vicente, que talvez tenha sido desviado de sua cruel missão de perseguidor de escravos fugitivos pela contemplação deste belo lugar, onde resolveu ficar; ou ainda da figura, carismática e central em nossa história, do Padre Francisco Xavier Fourthé, que, além de possuidor de terras, entregou a este paraíso tropical sua alma, quando uma doença dos olhos o levou a fazer uma promessa a Santa Maria Madalena.

Corpo curado, promessa cumprida: o patrocínio da construção de uma capela, que se transformou na belíssissima igreja matriz, que tanto nos orgulha. Por isso também a cidade ganhou o nome de Santa Maria Madalena, e nós ganhamos a eterna proteção que transforma nosso município num abençoado e acolhedor lugar para se viver.

Nos últimos trinta anos do século XIX, o progresso, trazido pela vontade de homens empreendedores e visionários, chegaria a estas serras. Contra o céu azul, a fumaça branca das locomotivas, vislumbrada entre os extensos cafezais, mostraria que essas cidades serranas estavam ligadas ao mundo pelo então moderníssimo resfolegar das locomotivas a vapor.

Os apitos estridentes dos trens ecoariam entre as montanhas por quase cem anos, desde que os primeiros trilhos da então Estrada de Ferro Santa Maria Madalena foram assentados na baixada, em Conde de Araruama, no ano de 1877, até meados dos anos 60 do século XX, quando uma suposta racionalização econômica extinguiria o ramal ferroviário nesta e em outras regiões, e praticamente acabaria com a impressionante malha ferroviária brasileira.

Porém, os trens não se foram da memória dos madalenenses. Muita gente, como eu, lembra de quando, menino, saía do Rio com o coração aos pulos pela perspectiva de férias em Madalena, antecipando os momentos de prazer, em que se podia comer frutas no pé, pescar nos riachos e mergulhar o corpo nas águas frias e cristalinas dos córregos.

Era um dia inteiro de viagem: uma maravilhosa viagem de trem. À rapidez do trem que saía de Barão de Mauá com destino a Campos, se seguia o lento sacolejar do trenzinho que subia a serra saindo de Conde de Araruama.

Em cada parada, muitas atrações para um menino de cidade grande: em Macabuzinho, apenas uma parada bucólica, trazendo a paz dos lugarejos tranqüilos; em Conceição de Macabu, muita gente na estação e a beleza da usina e dos vagões dos trens de cana cheínhos; em Triunfo, o alarido dos vendedores de goiabada e a inevitável carona no trem que manobrava para subir a serra.

E o trem subia, com a máquina chiando, resfolegando e soltando fumaça e fagulhas. Ainda hoje, passando pela estrada asfaltada, podemos imaginar,  parada que era feita em Leitão da Cunha, onde a locomotiva, como um viajante sedento, pegava água para enfrentar a íngreme subida.

A lembrança da chegada a Trajano de Moraes ainda faz ecoar na lembrança o apito agudo com que maquinistas, como Rasma e Juca Peruzzi, anunciavam, descendo a garganta, que o trem iria romper, com vida e movimento, a modorra do final de tarde.

Depois de desdobrar-se em duas composições, soltando a que ia até Manoel de Moraes, o trem subia, subia, subia até Doutor Loretti. Já noite, era possível ver a pequenina estação com seu lampião a iluminar a descida de pouquíssimos passageiros.

Depois, mais beleza na viagem noturna pelo meio da mata. Ou, quando se voltava, em plena manhã iluminada pelo sol resplandecente, a deslumbrante paisagem do verde entremeado das folhas de prata das embaúbas e a mata colorida pelo roxo das quaresmeiras.

Na chegada a Madalena, na noite ponteada de estrelas, um frio cortante atingia minhas pernas descobertas de menino, quando saltava no Largo do Machado ou quando descia no alto da estação. Olhar a cidade em meio à bruma era como viver um sonho real, que se realizava cada vez mais, nas semanas seguintes, vivendo as delícias de estar na roça.

O trem regulava a vida de todas essas cidades. Sua saída, pela manhã, sua chegada, à noite, davam um movimento intenso às proximidades da estação, à praça e às ruas; e ainda contribuía para os passeios de braços dados e os namoros, nessa hora de encontros de todos, como se o amor mesmo tivesse descido do trem.

Esse transporte sobre trilhos levava e trazia passageiros e mercadorias, sendo fundamental para a modesta mas firme atividade econômica da região, e dando a muita gente a oportunidade de ganhar o pão de cada dia, desde as nobres atividades de chefe de trem e maquinista até o humilde trabalho de conservação da linha férrea. Quase todo mundo nas cidades teve algum parente empregado na velha Leopoldina. Famílias inteiras são exemplos disso: os Ferro, por exemplo, em Trajano de Moraes, com João, Aurélio, Zezé e Theodoro Ferro, todos primeiro foguistas e depois maquinistas; ou a família Carino, com Auro e Antônio Carino, que se esmeravam no trabalho de manutençãoão das linhas, no que então se chamava de “soca”. Houve até um dos Carinos, Miguel, que acabou por dar seu nome a uma parada para o trem, que ficava próximo de onde é hoje o Departamento e o Largo do Machado. Eu mesmo saltei muitas vezes nesse ponto, então denominado “Parada Miguel Carino”.

Sobretudo aos mais jovens, convido para uma sintonia com esse passado em que nossa cidade tinha no trem não somente um transporte, mas um verdadeiro referencial de vida.

Muita gente não sabe por onde passava o trem, com sua beleza mecânica, parecendo um serpenteante animal de aço e madeira, que corria por entre montes verdes e cafezais produtivos. Basta ir hoje para os lados do chamado Dezessete, até Dr. Loretti, e observar que marcas indeléveis ainda estão por lá. A estrada foi aberta exatamente no local onde estavam assentados os trilhos.

Podem ser vistos, por exemplo, os vários cortes na pedra bruta planejados pelos geniais engenheiros construtores ingleses, na justa medida para a passagem do trem, o que a nós, meninos da época, chegava a assustar. Lá estão, permitindo apenas a passagem de um automóvel, de tão estreita que é a estrada nesses trechos que parecem verdadeiras esculturas nas rochas, onde bonitas samambaias nativas parecem se espreguiçar ao sol. Planejamento inglês, mas labor e habilidade de operários brasileiros nossos antepassados…

Vale a pena ver também as obras para canalização e drenagem das águas pluviais. São escoadouros para a água feitos com pedras-de-mão, laboriosamente esculpidas e perfeiramente assentadas, formando túneis com bocas de 2 metros de altura e muitas vezes com mais de 15 metros de comprimento!

Além de impressionantes obras de engenharia, é preciso assinalar que as construções ferroviárias sempre contribuíram para a harmonização entre a tecnologia e o respeito às condições do meio ambiente, mesmo sabendo-se que naquela época a consciência ecológica estava apenas começando a se instaurar por iniciativa de poucos.

Antigos prédios de estação, casas simples de trabalhadores na via férrea e às vezes até dormentes incrivelmente resistentes ao tempo – pouca coisa restou do trem que acabou.  Mas é pena que tenham sumido também seus vestígios na cidade. Resgatar essa marca histórica na trajetória de Santa Maria Madalena não deve ser somente preocupação de saudosistas. Não. O que está em jogo é a sobrevivência cultural de nossa região, na qual o trem teve papel central.

O menino de ontem, que ainda consegue imaginar sua camisa branca suja com a fuligem expelida pela chaminé do trem, gostaria que fosse dada aos jovens de hoje a oportunidade de resgatar esse passado ferroviário de nossa Santa Maria Madalena.

Já que sonhar sempre é permitido, por que não sonhar com a possibilidade de, a exemplo de muitas outras cidades brasileiras, Santa Maria Madalena ainda ver circulando, num pequeno trecho, uma velha e bem restaurada Maria Fumaça, com seus vagões de madeira e bancos de palhinha? Quem sabe se uma nova geração - netos, bisnetos e tataranetos daqueles idealistas e visionários do passado, - não consegue trazer-nos de volta a imensa alegria de ouvir o apito do trem, que continua soando em nossos corações? Seria um verdadeiro passeio de trem no paraíso, com paisagens lindas e sentindo a brisa do terceiro melhor clima do Brasil.

Aos menos românticos, e mais pragmáticos, podemos lembrar que, além do resgate cultural, passeios de trem, em trechos restaurados, além de fazer a alegria de turistas, andam garantindo boa renda em muitas cidades do Brasil…

Vamos embarcar! E boa viagem a todos!

 

*J. Carino é escritor, professor universitário no Rio de Janeiro e integrante do Grupo Amigos de Madalena, instituição privada, apartidária, não-sectária, contrária à intolerância, à discriminação, ao preconceito, criada por madalenenses de coração e dedicada ao desenvolvimento sustentado da região, com proteção ao meio ambiente, e à promoção e divulgação de Santa Maria Madalena (www.amigosdemadalena.com.br).

O autor e o Grupo Amigos de Madalena agradecem a Jomar Pereira Dias, Presidente da Casa da Cultura de Madalena, a disponibilização de dados que constam deste texto.



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21-fev-2008