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Temos passado por imensas provações em nossas cidades. ‘A cada dia sua
agonia’ tornou-se um mantra que repetimos incessantemente. Os crimes se sucedem
e se aprimoram em bestialidade e malvadez. Estamos à mercê do acaso, da bala
perdida, do famigerado que acordou mal disposto, do desgraçado que hoje saiu de
casa determinado a ver sangue.
A civilização parece distante. Muito distante.
No entanto, ao tocar no assunto, se não gritarmos “alto lá, não toquem um
dedo no bandido, o coitadinho é fruto de nosso descaso, desta sociedade
perversa, deste mundo mau, de homens e mulheres insensíveis”, o céu desaba sobre
nossas cabeças.
Mas quem nos reprova, a mim e aos outros que pensam como eu? Quem são essas
pessoas? De onde vêm? Em que planeta habitam? À qual sociedade pertencem?
Num momento grave como esse, em vez de nos unirmos para tentar encontrar uma
saída, não, estamos dividindo o mundo em duas partes: uma, habitada pelos bons,
os de esquerda, os que teimam em achar que a exclusão social gera monstros
psicopatas que sentem prazer em matar, ferir, seviciar, torturar.
Na outra parte moram os ricos de direita, desumanos, os que acham que preto e
pobre devem ser alijados da sociedade, devem ser abatidos, enfurnados em
gaiolas, se possível para sempre, os desalmados que não percebem que esses
pobrezinhos de Cristo só matam porque não têm outra saída!
Não consigo compreender. Olho à minha volta e vejo ricos maus, alucinadamente
maus, e bons, infinitamente bons; remediados que vivem como podem, amando seu
semelhante, ou com ódio do outro; pobres encantadoramente suaves e pobres
absurdamente violentos. Vejo pessoas de todos os tipos, tamanhos e feitios. Não
consigo ver o mundo em preto e branco: vejo uma infinita cartela de cores.
De repente, todos se arvoram em defensores não só do adolescente infrator,
como preocupadíssimos em que ninguém mexa nos direitos que adquiriram em 1990. É
isso mesmo que leram, senhores obcecados com o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso. O ECA foi assinado pelo então presidente Fernando Collor, sendo seu
Ministro da Justiça o doutor Bernardo Cabral. Foram esses dois digníssimos
representantes da elite branca e azeda, um nordestino e um nortista, de boa
cepa, que assinaram o ECA.
Pelo menos dessa vez livraram Pedro Álvares Cabral. O ECA é posterior ao
pobre navegador...
Para poder redigir com minhas amigas e colegas de blog, a samambaia e a
márcia, o texto da petição que o Noblat solidariamente divulgou aqui por dois
dias, fui ler o tal do ECA. Como em outros códigos, em matéria de elaboração de
leis, somos imbatíveis. São de redação impecável. Cumprir é que são elas.
Desde 13 de julho de 1990, dia em que Fernando Collor decretou a Lei nº.
8069, com seus 267 artigos, os governos têm se empenhado em descumprir todos
eles, menos um, o de número 121. Os políticos então defendem com ardor esse
artigo, sobretudo os seguintes parágrafos:
§ 3º Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três
anos.
§ 4º Atingido o limite estabelecido no parágrafo anterior, o adolescente
deverá ser liberado, colocado em regime de semi-liberdade ou de liberdade
assistida.
§ 5º A liberação será compulsória aos vinte e um anos de idade.
Esse, aparentemente, é intocável. O próprio Presidente da República já se
declarou peremptoriamente contra sua alteração... Por quê? Não sei.
Provavelmente, nem ele sabe.
No entanto, há um artigo, que foi o que mais me impressionou, que não serviu
ao João Hélio:
Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente,
pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante,
vexatório ou constrangedor.
João morreu devido a um tratamento desumano, violento, aterrorizante,
bestial, cruel, por cinco monstros que breve estarão nas ruas. Com certeza, se
nós não formos firmes desta vez e não ficarmos atentos e de guarda, breve
responderão aos processos em liberdade, ou sairão de suas celas para ir ao
dentista ou ao calista ou ao batizado de um sobrinho. Logo receberão seus
celulares e no próximo indulto do Dia das Mães, ou no Dia do Padrasto Feliz,
poderão ir para casa e ver se encontram mais alguma vítima pelo caminho.
Com certeza há de haver quem pense que o artigo 18 só foi redigido em
benefício dos desvalidos da sorte. As outras crianças, aquelas que não estão
abandonadas nas ruas, essas não merecem a proteção da lei. Que se virem.
Lembro a todos que nossa petição está em
www.petitiononline.com/derby71/petition.html
Quem não assinou, procure ler o texto para assinar.
E divulgar entre os amigos, se possível.
(Blog do Noblat, 16.02.2007)
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