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Rogério Barbosa Lima
Afla a brisa cheia de ternura ousada,
esfrolando as ondas e provocando
nelas bruscos arrepios de mulher beijada.
Vicente de Carvalho
A casa do Chico ficava pras bandas do quartel e distava da praia bem uns três
botequins, de modo que esse esforçado andarilho, em sua longa peregrinação a caminho do
mar, jamais chegava ao destino, embora se empenhasse em sair cedo, paramentando-se com
os indispensáveis acessórios: tamanco, toalha e chapéu. Pelas onze da manhã, já com meia
dúzia no lombo, algum passante lhe perguntava se não ia dar uma caída, ele, esquivo,
respondia:
- Eu não. Botar o pé naquela areia suja, onde os cachorros fazem porcaria, e arrumar
uma pereba, isso de jeito nenhum. Depois, o que me interessa é que a praia tá lá bonitinha e
não vai fugir.
Muitos anos mais tarde, já sob o primado do jererê, o previdente boêmio seria
vítima de um sórdido complô urdido pelos condôminos de seu prédio, que lhe imputavam a
pecha de queimar umas coisinhas atrás da caixa d'água do telhado. Seu protesto indignado
fez-se ouvir em todo o bairro. Invocava sua reputação de escrupuloso e coerente:
- Logo eu, um velho biriteiro. Imagina se daria uma mancada dessas.
Não negava que tivesse estado no local, mas - isso se soube depois - com a pérfida
intenção de devassar a intimidade da casta e honrada dona Loló, portadora de um
pronunciado buço e muito fornida de carnes, que não tirava a camisola sequer para deitar-se
com o marido, o Ambrósio comerciante.
Que fazer? Chico tinha lá suas manias; porém num detalhe, sem dúvida, fora
observador sagaz: a praia estava lá, insubstituível, magnânima, sedutora, e era o que
importava para ele e serve agora à velharia que já não a freqüenta por conta de algum
achaque ou de pereba pior - que, igualmente, veio com o tempo - a do maldito progresso,
que a tornou imprestável para o uso pacífico e saudável. Inconformados com o desperdício
daquele paraíso, podem, ao menos, reviver-lhe os eflúvios, confirmar que sempre esteve a
dois passos de suas portas. E isso basta.
Em nossos anos juvenis, entretanto, era impossível sobreviver sem o contacto
íntimo, diário com a areia, o sal e a água do mar e o sol (este, nem tanto, que não havia
furacão que nos contivesse). Todos se conheciam e confraternizavam amiúde nas esquinas,
nos bondes, nos botecos; todavia o ponto de encontro obrigatório era a praia. Os fanáticos
só a deixavam ao entardecer, porque a branda quietura da noite reservava para o areal
escuro uma outra nobre finalidade: a de acolher os raros caçadores bem-sucedidos nas
incursões diurnas, bem como o negão Vidal e frei Amaro, da Paróquia de Santa Mônica,
que, às sextas-feiras, se enfurnavam nas pedras do canal, sabe Deus para cumprir que tão
dolorosas penitências. A perspectiva desse conúbio, da possibilidade de desfiar longos
rosários, deixava Vidal de tal forma ansioso, que, na pelada vespertina de uma sexta-feira
de novenas encomendadas com fervor e devoção monásticos, sapecou um formidável bico
na bola branquinha, virginal, que o César comprara fiado, pouco antes, na Casa Estrela, e o
fez com tamanho desastramento que a pobre desferiu uma trajetória tão mirabolante quanto
efêmera, indo pousar desenxabida, murcha, antes da meta desejada. É que a virilidade, que
tanto atraíra o homem da sotaina, aflorava, visível a distância, também na ponta do dedão
do arrojado artilheiro. César, fulo da vida, partiu pra cima do estróina, ameaçando ir-lhe às
fuças, rogando pragas terríveis, antecipando anátemas:
- Vai cortar essa unha, porcalhão! Vou te denunciar ao vigário, ao Papa. Vão te
excomungar, seu crioulo safado. Vão te queimar vivo, que nem Joana D'Arc.
Troças e processos eclesiásticos à parte, a praia era propriedade exclusiva dos
leblonenses, já que os forasteiros só transitavam pelo bairro a serviço e não havia
domingueiras familiares. A despeito dos hábitos comuns, os locais dividiam-se em turmas,
por rua, time de futebol e outros pólos de atividade que houvesse. E não ventava, que vento
na praia é insuportável.
Na parte da manhã, além dos longos papos, dos flertes e do jacaré, praticava-se o
vôlei (o futebol, oficial ou não, só era permitido após as duas da tarde). A rede mais
concorrida ficava quase em frente ao Miramar. Gente daquela época joga ou bate ponto lá,
ainda hoje: Godô, Antônio Cotoco, Burgos, Parasita, Geraldo, Val. Da praia do Leblon
saíram para as quadras do campeonato carioca, inclusive para a seleção brasileira, grandes
jogadores, entre eles Naga, Parker, Roque, Zé Maria e Vitinho.
Por costume, valetes e damas compunham grupos separados, tal e qual nas cidades
do interior. Flertes e namoricos terminavam por juntar um par aqui outro ali, sempre sob o
olhar atento e inquisidor dos demais, tudo com o máximo possível de transparência e fofoca
e um tantinho de inveja, pois ninguém comia ninguém.
A grande maioria dos banhistas era constituída por gente jovem. Nessa época, as
mulheres amatronavam-se cedo, abdicando de mundanismos, dedicando-se às obrigações
domésticas, aos exercícios de criatividade com a máquina de costura Pfaff, ou às novelas
cubanas. Os homens adultos fumavam muito, desinteressavam-se pela prática de esportes,
trabalhavam, faziam serões suspeitos e preferiam à praia, o futebol profissional e o jornal,
que liam de trás para a frente. Eram, em geral, adiposos, balofos. Os casais idosos davam
um passeio à noitinha, depois do ajantarado, "para fazer o quilo", como diziam. Com
honrosas exceções, homens e mulheres acima dos trinta e cinco anos comportavam-se
como velhos, eram reconhecidos como tais e pareciam gostar disso.
Uma feliz composição de sol, mar e alimentos vitaminados moldou, após duas ou
três gerações, esplêndidos exemplares masculinos e femininos que fazem das praias -
quando se consegue desembarcar nelas - uma festa para os olhos. O diabo é que são olhos
demais para tão pouca areia. Por volta de cinqüenta, porém, se bem que tivesse a praia
como quintal exclusivo, a juventude desfilava um visual pouco atlético, sem o viço dos
marombeiros de hoje. Não que isso fizesse alguém infeliz, mas, vistos em sua maior parte,
aqueles caras, mesmo os que praticavam esportes, eram mirrados e amarelados pelo fumo e,
não podendo sobressair pelo porte musculoso e pela estatura (foi, acredito, a penúltima
geração de baixotes irrecuperáveis), alguns, crentes que estavam abafando, recorriam ao
expediente insidioso de encher o calção com meias, tentando parecer mais viris e, assim,
abalar as convicções das donzelas pudicas, que fingiam não notar. Concorria para o
aspecto bilioso daquela mocidade, a prática do vício solitário, às vezes exercida ali mesmo,
no campo de batalha, por um ou outro combatente abusado, que ocultava seus movimentos
em verdadeiras trincheiras e casamatas, cavadas na areia com diligência e astúcia de tatuís,
e por trás das quais espionava um pedaço de perna, a curvatura pouquinho mais generosa de
um decote. Fosse um estranho, seria, hipocritamente, corrido a tapas.
As moças hesitavam em aprimorar os dotes físicos, o que poderia parecer aos pais,
diante do catonismo vigente, uma postura condenável. Por isso, não se empenhavam muito
na modelagem do corpo, deixando-o aos cuidados da natureza, voltando sua atenção para a
maquillage, o cabelo, os adornos - artifícios menos patrulhados -, inventando, aí sim,
apesar da censura e da caturrice, detalhes valiosos que dissimulassem a severidade da
indumentária imposta, acrescentando graça e picardia a uma sensualidade que em algumas
das fêmeas era impossível ocultar. Afinal, desde que o mundo é mundo, a mulher também
vai à caça, e que mais quer uma mulher do que ser desejada?
Dietas, nem pensar; todo o mundo empanturrava-se de Crush, Grapette ("quem bebe
Grapette repete") e Guará ( "Guará, Guará, Guará, melhor refrescante não há!" ou "vou ali
já volto já, vou tomar o meu Guará"), sem falar nos sorvetes Jajá de coco, Tonbom de
limão e o sempiterno Esquibom. Que dizer da Coca-cola? É como a barata: existe desde os
primórdios e estará por aí, lépida e fagueira, no day after.
A primeira jovem que vi no Leblon, usando maiô de duas peças, foi Heloísa
Eneida, namorada do Igor, que seria conhecida mais tarde como "garota de Ipanema",
vindo a casar-se com o Fernandinho Abel, da turma do vôlei. É verdade que Yara Vaz,
vendendo saúde até hoje, e uma sua amiga de sotaque arrevesado, que chamávamos "Miss
France", usavam trajes reduzidos, em suas caminhadas à beira d'água. Mas eram saudáveis
demais para serem desejadas (e nem convinha, por causa da corpulência do Frank, marido
da Yara) Pareciam cavalos percheron, e eram desinibidas, coisa que atemoriza os homens.
Era notável o contraste entre elas e as balzaquianas suas contemporâneas, que se
encerravam para a vida.
Falo no Igor e, imediatamente, recordo-me do jacaré, o surfe sem prancha, atividade
da qual era ele exímio praticante, comparável a Claus e Renato Caju, valentes, "entrando"
nas piores condições, mesmo quando o mar invadia a calçada, cobrindo os degraus da
escadaria, no Onze. Pro lado da Acaraí, hoje Rua José Linhares, destacavam-se nessa
modalidade de esporte, Vavá e Roberto Torviso. Quase todos os praieiros, no entanto,
pegavam jacaré com habilidade. Alguns desajeitados (hoje, dir-se-ia "paraíbas")
socorriam-se de pneumáticos para descer nas ondas, e eram motivo de chacota. Logo foram
surgindo as pranchas de madeira, enormes, e foi numa delas que Carlinhos Manhães e João
Carlos partiram em direção às Ilhas Cagarras e nunca mais voltaram.
Difícil encontrar, então, quem não lidasse bem com o mar. Talvez eu e Varan,
craque do Pingüim, destoássemos. Certa feita, Varan e Otavinho Godoy charlavam pra
cima de duas pequenas, sob os olhares fiscalizadores de um grupo grande que marcava
presença diariamente na Cupertino Durão. Não é que o baixinho, entusiasmado com o
aparente sucesso, resolveu exibir-se e "entrou" exatamente na boca que havia ali. Pra quê?
Num piscar de olhos, foi sendo puxado, as perninhas curtas insuficientes para ter pé,
chamando Otávio - de início discretamente, aumentando de volume à medida que se
aproximava da arrebentação, para, finalmente, perder a compostura e berrar a plenos
pulmões -. Otávio gozava:
- Olha o Varan fingindo que tá afogado.
A turma próxima tinha percebido que o improvisado Weissmuller metera-se numa
camisa de onze varas, mas deixou render um pouco para que lhe servisse de lição. Assim
que o risco aumentou, pularam todos, uns dez, e trouxeram-no de cadeirinha, com grande
espalhafato, sob os protestos do náufrago, que implorava por um pouco de discrição. Posto
em terra, esperou a equipe afastar-se, disfarçou, meneou a cabeça, jogando para trás
imaginárias melenas, bateu com o pé firmemente no chão algumas vezes e, em voz alta,
para os brotinhos ouvirem, saiu-se com esta:
- Diabo de câimbra! Quase me ferro.
A rapaziada estava sempre disposta a efetuar, por conta própria ou auxiliando,
qualquer tipo de salvamento e botava pra jambrar: era tocante a coragem e a solidariedade
que emprestavam à iniciativa, como a do Cirandinha, num fim de tarde, junto à Niemeyer.
Um casal escorregou no limo e ia sendo tragado pelo mar, muito batido ali. Cirandinha
tirou a roupa (era um dia chuvoso e frio), jogou-se sozinho ao mar revolto, afastou das
pedras o homem e a mulher, tentou levá-los para o Vidigal e não conseguiu. Nadou pra
fora, protegendo os dois a duras penas, aguardou um final de série e largou-os sãos e salvos
no campo do Grêmio. Os jornais nada publicaram; se espancava policiais, era notícia de
primeira página.
Ao contrário dos policiais, cujo comportamento é execrado pela população, os
bombeiros e os salva-vidas ou guarda-vidas sempre contaram com a simpatia dos
moradores do Rio de Janeiro. Chamávamos nosso guarda-vidas de "banhista" - verbete
incorporado ao Caldas Aulete e ao Aurélio como peculiaridade carioca.
O Leblon os teve poucos, duradouros e de excelente capacitação profissional e
virtudes humanísticas, a começar pelo China, que, além de cumprir eficientemente sua
missão, arranjava tempo para vencer todos os concursos de nado no percurso
correspondente à praia de Copacabana e, de lambujem, a caça ao pato, no Posto 6. Foram
seus contemporâneos e sucessores, Rubens e Jair.
Rubens era um tipo sociável, permanentemente com um grupinho em volta a ouvir
suas façanhas. Quando cortaram a luz de sua casa, muniu-se de bota e luvas de borracha e,
em noite de tempestade, subiu ao telhado, sobraçando grande caixa, onde colocou uma isca
de madeira molhada, cuja tampa armava e desarmava de modo semelhante ao alçapão de
pegar passarinho. Quando o raio explodiu, acionou o mecanismo da armadilha e pronto: de
graça, armazenou energia para quarenta dias. O filho, Ney Mentirinha, herdou suas virtudes
- não de banhista, mas de xavequeiro - e, se jamais chegou a "lotar o Maracanã", como o
pai, teve seus brilharecos: jurava que num domingo de céu claro pegou um jacaré numa
onda tão alta, que, ao chegar à crista, avistou, por sobre todos os prédios do bairro, a
chegada do quarto páreo no Hipódromo da Gávea, identificando o vencedor, o cavalo de
número sete, exatamente o azarão que ele tinha cravado. Em outra oportunidade, entrou
numa roda de porrinha com noventa participantes, pediu lona ... e ganhou!
Jair, misto de anjo da guarda, professor de ginástica e meia-esquerda do Tupi, time
do Dorodame e do Silvinho, continua por aí, setentão e robusto, participando da corriola
que se reúne na rede de vôlei dos velhos.
O último desses legendários heróis - de que tenho notícia - foi o Ranilson,
responsável por um salvamento memorável. Não me esqueço da violência das águas nesse
dia, porque, cedo ainda, levei um rapazinho vindo de Minas Gerais a ver, pela primeira vez,
o oceano. Ficou com os olhos esbugalhados de medo e comentou extasiado:
- Óia! Os cacuruto se amuntôa e faz um revoroço danado!
Pois, a garotinha distraída brincando na areia molhada, o mar lambeu, bem em
frente à boca. Em segundos, já estava na arrebentação, debatendo-se entre ondas imensas.
Qual raio de guerra, Ranilson atracou-se com ela e lançou-se à peleja contra o gigante
bravio. Apanharam muito; era uma série atrás da outra e ele tentando levar a menina para
fora. Às vezes, um vagalhão medonho, uma pancada mais forte varria os dois, e a garota
escapava-lhe das mãos. O tenaz batalhador retaliava a cólera do tirano pagão, mergulhava
meio às cegas e voltava à tona com a criança presa pelos cabelos, por onde mais fosse. Que
luta insana! Demorou uma hora até tomá-la do monstro e devolvê-la à praia e a todos que
assistiam à epopéia, aflitos e comovidos. Poucos homens teriam feito o que ele fez!
Entretanto, as furiosas ressacas não serviram apenas para revelar guerreiros e heróis
travestidos de guarda-vidas. Quando findavam e o mar recuava, formavam-se na areia
laguinhos rasos, que de água límpida os refluxos iam repondo, fazendo a felicidade dos
petizes, porque ali dava pé, não tinha marolas e podiam nadar. Deixavam-se, então, ficar no
maior vai-da-valsa, até serem literalmente arrastados pelos pais.
Outras vezes, das ressacas resultavam barrancos, na base dos quais fuçadores
profissionais e amadores joeiravam valores perdidos que o mar de há muito acumulara:
relógios, cordões de ouro , anéis, cobiçadas relíquias. Mas não era empreitada para o mortal
comum. Só os ungidos, como o Marcos Rogério - que parecia ter um radar nos olhos -,
conseguiam detectar no mais recôndito buraco de tatuí o rico pedacinho de tesouro e, assim,
amealhar uma pequena fortuna.
Agora, só depurando no crivo das reminiscências para achar o anel que encerrava o
talismã da nossa ventura, pois os barrancos desabaram sobre os iluminados garimpeiros,
soterrando junto os ditosos laguinhos.
Em lugar da brisa terna que "esfrolava as ondas, provocando nelas bruscos arrepios
de mulher beijada", bateu um sudoeste pestilento, emporcalhando a praia e espalhando nela
maldita catinga de pereba putrefata.
A praia do papo, da pipa, da pelada, da paz, a pereba do progresso pasteurizou,
empanemou, pracejou, profanou e de pragas pejou. Puta que pariu!
Texto extraído do livro "O ANTIGO LEBLON - Uma Aldeia Encantada - Crônicas" - Rio de Janeiro
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