A PRAIA

Foto Augusto Malta - 18/08/1934

Rogério Barbosa Lima

Afla a brisa cheia de ternura ousada,
esfrolando as ondas e provocando
nelas bruscos arrepios de mulher beijada.

Vicente de Carvalho

 

A casa do Chico ficava pras bandas do quartel e distava da praia bem uns três botequins, de modo que esse esforçado andarilho, em sua longa peregrinação a caminho do mar, jamais chegava ao destino, embora se empenhasse em sair cedo, paramentando-se com os indispensáveis acessórios: tamanco, toalha e chapéu. Pelas onze da manhã, já com meia dúzia no lombo, algum passante lhe perguntava se não ia dar uma caída, ele, esquivo, respondia:

- Eu não. Botar o pé naquela areia suja, onde os cachorros fazem porcaria, e arrumar uma pereba, isso de jeito nenhum. Depois, o que me interessa é que a praia tá lá bonitinha e não vai fugir.

Muitos anos mais tarde, já sob o primado do jererê, o previdente boêmio seria vítima de um sórdido complô urdido pelos condôminos de seu prédio, que lhe imputavam a pecha de queimar umas coisinhas atrás da caixa d'água do telhado. Seu protesto indignado fez-se ouvir em todo o bairro. Invocava sua reputação de escrupuloso e coerente:

- Logo eu, um velho biriteiro. Imagina se daria uma mancada dessas.

Não negava que tivesse estado no local, mas - isso se soube depois - com a pérfida intenção de devassar a intimidade da casta e honrada dona Loló, portadora de um pronunciado buço e muito fornida de carnes, que não tirava a camisola sequer para deitar-se com o marido, o Ambrósio comerciante.

Que fazer? Chico tinha lá suas manias; porém num detalhe, sem dúvida, fora observador sagaz: a praia estava lá, insubstituível, magnânima, sedutora, e era o que importava para ele e serve agora à velharia que já não a freqüenta por conta de algum achaque ou de pereba pior - que, igualmente, veio com o tempo - a do maldito progresso, que a tornou imprestável para o uso pacífico e saudável. Inconformados com o desperdício daquele paraíso, podem, ao menos, reviver-lhe os eflúvios, confirmar que sempre esteve a dois passos de suas portas. E isso basta.

Em nossos anos juvenis, entretanto, era impossível sobreviver sem o contacto íntimo, diário com a areia, o sal e a água do mar e o sol (este, nem tanto, que não havia furacão que nos contivesse). Todos se conheciam e confraternizavam amiúde nas esquinas, nos bondes, nos botecos; todavia o ponto de encontro obrigatório era a praia. Os fanáticos só a deixavam ao entardecer, porque a branda quietura da noite reservava para o areal escuro uma outra nobre finalidade: a de acolher os raros caçadores bem-sucedidos nas incursões diurnas, bem como o negão Vidal e frei Amaro, da Paróquia de Santa Mônica, que, às sextas-feiras, se enfurnavam nas pedras do canal, sabe Deus para cumprir que tão dolorosas penitências. A perspectiva desse conúbio, da possibilidade de desfiar longos rosários, deixava Vidal de tal forma ansioso, que, na pelada vespertina de uma sexta-feira de novenas encomendadas com fervor e devoção monásticos, sapecou um formidável bico na bola branquinha, virginal, que o César comprara fiado, pouco antes, na Casa Estrela, e o fez com tamanho desastramento que a pobre desferiu uma trajetória tão mirabolante quanto efêmera, indo pousar desenxabida, murcha, antes da meta desejada. É que a virilidade, que tanto atraíra o homem da sotaina, aflorava, visível a distância, também na ponta do dedão do arrojado artilheiro. César, fulo da vida, partiu pra cima do estróina, ameaçando ir-lhe às fuças, rogando pragas terríveis, antecipando anátemas:

- Vai cortar essa unha, porcalhão! Vou te denunciar ao vigário, ao Papa. Vão te excomungar, seu crioulo safado. Vão te queimar vivo, que nem Joana D'Arc. 

Troças e processos eclesiásticos à parte, a praia era propriedade exclusiva dos leblonenses, já que os forasteiros só transitavam pelo bairro a serviço e não havia domingueiras familiares. A despeito dos hábitos comuns, os locais dividiam-se em turmas, por rua, time de futebol e outros pólos de atividade que houvesse. E não ventava, que vento na praia é insuportável.

Na parte da manhã, além dos longos papos, dos flertes e do jacaré, praticava-se o vôlei (o futebol, oficial ou não, só era permitido após as duas da tarde). A rede mais concorrida ficava quase em frente ao Miramar. Gente daquela época joga ou bate ponto lá, ainda hoje: Godô, Antônio Cotoco, Burgos, Parasita, Geraldo, Val. Da praia do Leblon saíram para as quadras do campeonato carioca, inclusive para a seleção brasileira, grandes jogadores, entre eles Naga, Parker, Roque, Zé Maria e Vitinho.

Por costume, valetes e damas compunham grupos separados, tal e qual nas cidades do interior. Flertes e namoricos terminavam por juntar um par aqui outro ali, sempre sob o olhar atento e inquisidor dos demais, tudo com o máximo possível de transparência e fofoca e um tantinho de inveja, pois ninguém comia ninguém.

A grande maioria dos banhistas era constituída por gente jovem. Nessa época, as mulheres amatronavam-se cedo, abdicando de mundanismos, dedicando-se às obrigações domésticas, aos exercícios de criatividade com a máquina de costura Pfaff, ou às novelas cubanas. Os homens adultos fumavam muito, desinteressavam-se pela prática de esportes, trabalhavam, faziam serões suspeitos e preferiam à praia, o futebol profissional e o jornal, que liam de trás para a frente. Eram, em geral, adiposos, balofos. Os casais idosos davam um passeio à noitinha, depois do ajantarado, "para fazer o quilo", como diziam. Com honrosas exceções, homens e mulheres acima dos trinta e cinco anos comportavam-se como velhos, eram reconhecidos como tais e pareciam gostar disso.

Uma feliz composição de sol, mar e alimentos vitaminados moldou, após duas ou três gerações, esplêndidos exemplares masculinos e femininos que fazem das praias - quando se consegue desembarcar nelas - uma festa para os olhos. O diabo é que são olhos demais para tão pouca areia. Por volta de cinqüenta, porém, se bem que tivesse a praia como quintal exclusivo, a juventude desfilava um visual pouco atlético, sem o viço dos marombeiros de hoje. Não que isso fizesse alguém infeliz, mas, vistos em sua maior parte, aqueles caras, mesmo os que praticavam esportes, eram mirrados e amarelados pelo fumo e, não podendo sobressair pelo porte musculoso e pela estatura (foi, acredito, a penúltima geração de baixotes irrecuperáveis), alguns, crentes que estavam abafando, recorriam ao expediente insidioso de encher o calção com meias, tentando parecer mais viris e, assim, abalar as convicções das donzelas pudicas, que fingiam não notar. Concorria para o aspecto bilioso daquela mocidade, a prática do vício solitário, às vezes exercida ali mesmo, no campo de batalha, por um ou outro combatente abusado, que ocultava seus movimentos em verdadeiras trincheiras e casamatas, cavadas na areia com diligência e astúcia de tatuís, e por trás das quais espionava um pedaço de perna, a curvatura pouquinho mais generosa de um decote. Fosse um estranho, seria, hipocritamente, corrido a tapas.

As moças hesitavam em aprimorar os dotes físicos, o que poderia parecer aos pais, diante do catonismo vigente, uma postura condenável. Por isso, não se empenhavam muito na modelagem do corpo, deixando-o aos cuidados da natureza, voltando sua atenção para a maquillage, o cabelo, os adornos - artifícios menos patrulhados -, inventando, aí sim, apesar da censura e da caturrice, detalhes valiosos que dissimulassem a severidade da indumentária imposta, acrescentando graça e picardia a uma sensualidade que em algumas das fêmeas era impossível ocultar. Afinal, desde que o mundo é mundo, a mulher também vai à caça, e que mais quer uma mulher do que ser desejada?

Dietas, nem pensar; todo o mundo empanturrava-se de Crush, Grapette ("quem bebe Grapette repete") e Guará ( "Guará, Guará, Guará, melhor refrescante não há!" ou "vou ali já volto já, vou tomar o meu Guará"), sem falar nos sorvetes Jajá de coco, Tonbom de limão e o sempiterno Esquibom. Que dizer da Coca-cola? É como a barata: existe desde os primórdios e estará por aí, lépida e fagueira, no day after.

A primeira jovem que vi no Leblon, usando maiô de duas peças, foi Heloísa Eneida, namorada do Igor, que seria conhecida mais tarde como "garota de Ipanema", vindo a casar-se com o Fernandinho Abel, da turma do vôlei. É verdade que Yara Vaz, vendendo saúde até hoje, e uma sua amiga de sotaque arrevesado, que chamávamos "Miss France", usavam trajes reduzidos, em suas caminhadas à beira d'água. Mas eram saudáveis demais para serem desejadas (e nem convinha, por causa da corpulência do Frank, marido da Yara) Pareciam cavalos percheron, e eram desinibidas, coisa que atemoriza os homens. Era notável o contraste entre elas e as balzaquianas suas contemporâneas, que se encerravam para a vida.

Falo no Igor e, imediatamente, recordo-me do jacaré, o surfe sem prancha, atividade da qual era ele exímio praticante, comparável a Claus e Renato Caju, valentes, "entrando" nas piores condições, mesmo quando o mar invadia a calçada, cobrindo os degraus da escadaria, no Onze. Pro lado da Acaraí, hoje Rua José Linhares, destacavam-se nessa modalidade de esporte, Vavá e Roberto Torviso. Quase todos os praieiros, no entanto, pegavam jacaré com habilidade. Alguns desajeitados (hoje, dir-se-ia "paraíbas") socorriam-se de pneumáticos para descer nas ondas, e eram motivo de chacota. Logo foram surgindo as pranchas de madeira, enormes, e foi numa delas que Carlinhos Manhães e João Carlos partiram em direção às Ilhas Cagarras e nunca mais voltaram.

Difícil encontrar, então, quem não lidasse bem com o mar. Talvez eu e Varan, craque do Pingüim, destoássemos. Certa feita, Varan e Otavinho Godoy charlavam pra cima de duas pequenas, sob os olhares fiscalizadores de um grupo grande que marcava presença diariamente na Cupertino Durão. Não é que o baixinho, entusiasmado com o aparente sucesso, resolveu exibir-se e "entrou" exatamente na boca que havia ali. Pra quê? Num piscar de olhos, foi sendo puxado, as perninhas curtas insuficientes para ter pé, chamando Otávio - de início discretamente, aumentando de volume à medida que se aproximava da arrebentação, para, finalmente, perder a compostura e berrar a plenos pulmões -. Otávio gozava:

- Olha o Varan fingindo que tá afogado.

A turma próxima tinha percebido que o improvisado Weissmuller metera-se numa camisa de onze varas, mas deixou render um pouco para que lhe servisse de lição. Assim que o risco aumentou, pularam todos, uns dez, e trouxeram-no de cadeirinha, com grande espalhafato, sob os protestos do náufrago, que implorava por um pouco de discrição. Posto em terra, esperou a equipe afastar-se, disfarçou, meneou a cabeça, jogando para trás imaginárias melenas, bateu com o pé firmemente no chão algumas vezes e, em voz alta, para os brotinhos ouvirem, saiu-se com esta:

- Diabo de câimbra! Quase me ferro.

A rapaziada estava sempre disposta a efetuar, por conta própria ou auxiliando, qualquer tipo de salvamento e botava pra jambrar: era tocante a coragem e a solidariedade que emprestavam à iniciativa, como a do Cirandinha, num fim de tarde, junto à Niemeyer. Um casal escorregou no limo e ia sendo tragado pelo mar, muito batido ali. Cirandinha tirou a roupa (era um dia chuvoso e frio), jogou-se sozinho ao mar revolto, afastou das pedras o homem e a mulher, tentou levá-los para o Vidigal e não conseguiu. Nadou pra fora, protegendo os dois a duras penas, aguardou um final de série e largou-os sãos e salvos no campo do Grêmio. Os jornais nada publicaram; se espancava policiais, era notícia de primeira página.

Ao contrário dos policiais, cujo comportamento é execrado pela população, os bombeiros e os salva-vidas ou guarda-vidas sempre contaram com a simpatia dos moradores do Rio de Janeiro. Chamávamos nosso guarda-vidas de "banhista" - verbete incorporado ao Caldas Aulete e ao Aurélio como peculiaridade carioca.

O Leblon os teve poucos, duradouros e de excelente capacitação profissional e virtudes humanísticas, a começar pelo China, que, além de cumprir eficientemente sua missão, arranjava tempo para vencer todos os concursos de nado no percurso correspondente à praia de Copacabana e, de lambujem, a caça ao pato, no Posto 6. Foram seus contemporâneos e sucessores, Rubens e Jair.

Rubens era um tipo sociável, permanentemente com um grupinho em volta a ouvir suas façanhas. Quando cortaram a luz de sua casa, muniu-se de bota e luvas de borracha e, em noite de tempestade, subiu ao telhado, sobraçando grande caixa, onde colocou uma isca de madeira molhada, cuja tampa armava e desarmava de modo semelhante ao alçapão de pegar passarinho. Quando o raio explodiu, acionou o mecanismo da armadilha e pronto: de graça, armazenou energia para quarenta dias. O filho, Ney Mentirinha, herdou suas virtudes - não de banhista, mas de xavequeiro - e, se jamais chegou a "lotar o Maracanã", como o pai, teve seus brilharecos: jurava que num domingo de céu claro pegou um jacaré numa onda tão alta, que, ao chegar à crista, avistou, por sobre todos os prédios do bairro, a chegada do quarto páreo no Hipódromo da Gávea, identificando o vencedor, o cavalo de número sete, exatamente o azarão que ele tinha cravado. Em outra oportunidade, entrou numa roda de porrinha com noventa participantes, pediu lona ... e ganhou!

Jair, misto de anjo da guarda, professor de ginástica e meia-esquerda do Tupi, time do Dorodame e do Silvinho, continua por aí, setentão e robusto, participando da corriola que se reúne na rede de vôlei dos velhos.

O último desses legendários heróis - de que tenho notícia - foi o Ranilson, responsável por um salvamento memorável. Não me esqueço da violência das águas nesse dia, porque, cedo ainda, levei um rapazinho vindo de Minas Gerais a ver, pela primeira vez, o oceano. Ficou com os olhos esbugalhados de medo e comentou extasiado:

- Óia! Os cacuruto se amuntôa e faz um revoroço danado!

Pois, a garotinha distraída brincando na areia molhada, o mar lambeu, bem em frente à boca. Em segundos, já estava na arrebentação, debatendo-se entre ondas imensas. Qual raio de guerra, Ranilson atracou-se com ela e lançou-se à peleja contra o gigante bravio. Apanharam muito; era uma série atrás da outra e ele tentando levar a menina para fora. Às vezes, um vagalhão medonho, uma pancada mais forte varria os dois, e a garota escapava-lhe das mãos. O tenaz batalhador retaliava a cólera do tirano pagão, mergulhava meio às cegas e voltava à tona com a criança presa pelos cabelos, por onde mais fosse. Que luta insana! Demorou uma hora até tomá-la do monstro e devolvê-la à praia e a todos que assistiam à epopéia, aflitos e comovidos. Poucos homens teriam feito o que ele fez!

Entretanto, as furiosas ressacas não serviram apenas para revelar guerreiros e heróis travestidos de guarda-vidas. Quando findavam e o mar recuava, formavam-se na areia laguinhos rasos, que de água límpida os refluxos iam repondo, fazendo a felicidade dos petizes, porque ali dava pé, não tinha marolas e podiam nadar. Deixavam-se, então, ficar no maior vai-da-valsa, até serem literalmente arrastados pelos pais.

Outras vezes, das ressacas resultavam barrancos, na base dos quais fuçadores profissionais e amadores joeiravam valores perdidos que o mar de há muito acumulara: relógios, cordões de ouro , anéis, cobiçadas relíquias. Mas não era empreitada para o mortal comum. Só os ungidos, como o Marcos Rogério - que parecia ter um radar nos olhos -, conseguiam detectar no mais recôndito buraco de tatuí o rico pedacinho de tesouro e, assim, amealhar uma pequena fortuna.

Agora, só depurando no crivo das reminiscências para achar o anel que encerrava o talismã da nossa ventura, pois os barrancos desabaram sobre os iluminados garimpeiros, soterrando junto os ditosos laguinhos.

Em lugar da brisa terna que "esfrolava as ondas, provocando nelas bruscos arrepios de mulher beijada", bateu um sudoeste pestilento, emporcalhando a praia e espalhando nela maldita catinga de pereba putrefata.

A praia do papo, da pipa, da pelada, da paz, a pereba do progresso pasteurizou, empanemou, pracejou, profanou e de pragas pejou. Puta que pariu!

Texto extraído do livro "O ANTIGO LEBLON - Uma Aldeia Encantada - Crônicas" - Rio de Janeiro

Rogério Suarez Barbosa Lima é autor de:

  • O velho e o bar - crônicas - 1996
  • Minha gente saiu à rua - contos - 1998
  • O Antigo Leblon, uma aldeia encantada - crônicas - 1999
  • Sem caminhos de volta - crônicas - 2000
  • O olhar matreiro do Serafim - Coletânea de contos selecionada por banca constituída de três membros da Academia Brasileira de Letras, como vencedora do concurso 'Novos Talentos', promovido pelo Estado do Rio de Janeiro, obra valorizada por generosa orelha do acadêmico Antônio Olinto - 2002
  •  

    Paulo Fortes, um brasileiro na ópera - Romance biográfico - 2004

Paulo Fortes, um brasileiro na ópera, a segunda edição de O olhar matreiro do Serafim e a quarta edição de O Antigo Leblon, uma aldeia encantada  foram publicados pela EDITORA ANTIGO LEBLON - www.antigoleblon.com.br 

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13-out-2008