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Rogério Barbosa Lima
O que mais impressionou Machado de Assis foi o semblante do motorneiro: "Os olhos do homem passavam por
cima da gente que ia no seu bonde, com grande ar de superioridade. Sentia-se nele a convicção de que
inventara não só o bonde elétrico, mas a própria eletricidade".
A mim, observador menos arguto, chamavam a atenção as manobras acrobáticas do condutor, dependurando-se
nos balaústres a recolher o dinheiro das passagens, ao mesmo tempo que dava frenéticos puxões nas alças
das correias que comandavam os marcadores do relógio. Dissimulada pelo blem-blem da campainha, uma pausa
quase imperceptível parecia segredar: "São dois pra mim e um pra Light".
Independentemente da altivez ou da destreza desses briosos lusitanos, aquela bisonha engenhoca, por mais
estranho que pareça, foi fator decisivo para o crescimento da cidade, ampliando a zona urbana, viabilizando
a moradia fora da região central.
Importante instrumento de harmonização democrática, tanto permitia o acesso de operários às fábricas
dos subúrbios, como conduzia esportistas às praças de jogos e transportava animados foliões para o
carnaval, ou - ainda é o bruxo do Cosme Velho quem diz - "vestia-se de ceroulas para carregar os
chapéus altos e os vestidos longos para a ópera do Teatro Municipal".
Depois, tornou-se um meio de transporte obsoleto e deficitário e deram fim à sua carreira, mais ou menos
à época em que empurraram goela abaixo do governo federal a Tramway Light and Power Company Limited, numa
operação caríssima e nebulosa, se considerarmos que o prazo de concessão estava em via de se esgotar e
bastava não renová-lo para ter a empresa de volta e de graça. No que toca à disponibilidade de energia,
o imprudente arranjo de certo modo foi bom para os usuários, já que a companhia passou a funcionar a
contento. Na mão dos gringos, o que se sabia da performance da concessionária estava expresso na
conhecida marchinha:
"Rio de Janeiro, cidade que me seduz.
De dia falta água, de noite falta luz."
Finalmente, em outra transação desnecessária e tão temerária quanto a anterior, por conta da onda
liberalizante, foi a sucessora Light - Serviços de Eletricidade S.A. "cedida" por preço vil a grupos
estrangeiros, e a última notícia divulgada é que em recente assembléia realizada à noitinha faltou luz,
impondo-se o adiamento da sessão, com os frustrados acionistas sendo obrigados a bater em retirada pelas
escadas, aos tropeções, piscando isqueiros, pois velas também não havia.
Muita gente não conheceu de perto aquela simpática viatura, herdeira do coche, do cabriolet, do tílburi
e outros que, na virada do século, andavam pela cidade ao trote miúdo dos muares. E há quem a tenha
desfrutado e não se recorde do curioso aforismo "tudo na vida é passageiro, menos o condutor e o
motorneiro", mas que certamente traz bem viva na memória a advertência do célebre anúncio:
"Veja ilustre passageiro
o belo tipo faceiro
que o senhor tem a seu lado.
No entanto, acredite,
quase morreu de bronquite.
Salvou-o o Rum Creosotado."
Vinha afixado ao lado de outro em que aparecia um tipo enfermiço, com a face acinzentada sugerindo
opressão, com uma bombinha na mão, da qual inalava o produto milagroso contra a
asthma: Dispné-inhal.
Ambos os reclames situavam-se nos cantos acima do banco dos caras-de-pau, colado às costas da divisória
de madeira que isolava o motorneiro. Para sentar-se ali, na berlinda, tendo a vigiá-lo todos os outros
passageiros, que lhe punham um olho grande e esmiuçador, o sujeito tinha que ser destemido e portar-se
com alguma desfaçatez.
Bem no alto e no centro da divisória ficava o relógio redondo, dotado de um sistema de lâminas com
algarismos impressos que se iam justapondo e formando números, no compasso aproximado dos repelões
dados pelo condutor e, obviamente, destinava-se a registrar a quantidade de pagantes. Cada puxão
retinia a campainha acoplada ao mostrador, movimentando-o; cada omissão estufava um dos inúmeros
bolsos da solene indumentária azul-marinho do condutor, pelos quais distribuía, paralelamente, as
moedinhas. As cédulas da féria oficial, esse aplicado funcionário trazia, dobradas ao comprido, em
volta do dedo médio, meticulosamente agrupadas consoante seu valor decrescente, o que não o impedia
de balançar-se simiescamente entre os balaústres, em roda dos que viajavam nos estribos, ou meter-se
entre os pingentes para evitar colisão com o colega da composição que, porventura, transitasse em
sentido contrário, isso tudo sem despregar o olho dos caronas, muito leal ao patrão e à defesa do
numerário que dividiam.
Digo composição e apresso-me a explicar: alguns bondes, por exemplo o 12 - Ipanema (Túnel Alaor Prata),
circulavam com reboques. Existia, ainda, o taioba ou caradura, cuja passagem custava apenas um tostão;
levava mercadorias junto com alguns passageiros sentados em bancos compridos dispostos lateralmente,
muito ciosos de não pisar nas cabeças de alcachofras ou esmagar algum pintinho mal acomodado nos
engradados.
E lá ia o bonde cumprindo seu trajeto, ora a passo de cágado, catando um passageiro aqui, outro ali;
ora jovial, arremetendo em sôfregos impulsos, deslizando veloz, estimulando outra instituição da
época, a de pegar o bonde andando ( não no sentido metafórico a que hoje está restrita) e pular,
também em movimento, o que se fazia com grande arte e grandes tombos, especialmente em dias de
chuva, em que os experts saltavam até de costas, o supra-sumo da perícia.
Pois esses finórios tinham o desplante de contar aquela anedota manjada:
"- O que é, o que é que cai em pé e corre deitado?
- Chuva, ora!
- Não! É o português quando salta do bonde andando."
Macaco, olha o teu rabo!
Parte considerável dos passageiros conservava-se nos estribos, fosse para tentar iludir o
condutor (tarefa difícil) e não pagar a passagem, fosse por pose, para tirar uma chinfra ou,
às vezes, para planejar o salto.
Com relação às acrobacias, houve episódios famosos (quem não conheceu mais de um?), que fazem parecer
brincadeira de roda as tais videocassetadas e as cambalhotas dos anúncios de Gelol. No Leblon, o
local preferido pelos exibicionistas era a grande reta em frente ao quartel do 8o GMAC, do saudoso
Major Guaraciaba, longo estirão, onde não havia paradas e o trem adquiria velocidade tentadora para
um desafio novo, uma pirueta mais espetacular.
Numa dessas ocorrências deu-se um imprevisto chapliniano. Bogô esperou o 11 - Jardim-Leblon apontar
na altura da Rua do Pau, iniciou os preparativos com inusitados requintes de galinhagem, armou a
ginga que precedia a abordagem e, tão logo o bólido passou, palmeou um balaústre. Só que, na verdade,
ele pendurou-se na enorme muleta que ia até as axilas de um intrépido inválido que se guindara ao
estribo de cima, resultando dessa tática equivocada um tombo formidável, seguido de uma série de
rolamentos de fazer inveja às peripécias de Tom & Jerry. Os envolvidos, por sorte, foram terminar
os trambolhões, agarrados, na porta do Hospital Miguel Couto.
Anote-se, à guisa de curiosidade histórica, que em 1938 foi construída uma ponte sobre o canal
do Jardim de Alá, unindo a Rua Visconde de Pirajá à Avenida Ataulfo de Paiva, facultando, desse
modo, a ligação circular Copacabana-Ipanema-Leblon-Gávea e, conseqüentemente, o acesso direto ao
Centro. Já durante a guerra, portanto, os bondes trafegavam em mão dupla pela Avenida Ataulfo de
Paiva, restando aos poucos ônibus das linhas 66 e 67 irem e virem pela rua paralela, a Campos de
Carvalho, ex-Dr. Del Vecchio, hoje General San Martin. Bem mais tarde, primeiro os lotações, depois
os ônibus, passaram a dividir com os bondes a rua principal.
Meu pai, assim como outros moradores, seguia para a cidade e voltava, de bonde, inclusive na hora
do almoço. Apesar dos bancos de madeira, eram confortáveis e arejados, além de seguros e baratos.
Um pouco lentos, é verdade, mas quem tinha pressa então? Lembro-me do velho saltando na esquina da
Rua João Lira, exatamente onde havia um terreno baldio, no qual, nos anos sessenta, construíram o
prédio do Disco. Naquele terreno emboscava-se um grupo de peraltas providos com ovos furtados da
Gondomarense, ao lado da loja Príncipe, e, quando o bonde passava em frente, os moleques despejavam
a munição por cima do muro, atingindo em cheio os passageiros. Estes, indignados, berravam impropérios,
mas seu protesto defasado ia fazer efeito na pracinha e, ainda por cima, tinham que aturar as
admoestações da gente circunspecta que andava pelas calçadas, que desconhecia os antecedentes e
chocava-se com o calão.
Um belo dia, como já se disse, os bondes sumiram. Penso que contribuiu para a sua extinção um
incidente provocado pelo Eduardo Marta Rocha, um patrício muito sacana, motorista do lotação
Urca - Leblon, que, ignorando as reclamações dos passageiros, cultivava o hábito de parar em
cada esquina para apreciar e dizer chistes às raparigas. O infeliz acontecimento sobreveio quando
Marta Rocha se distraiu ao deitar o olho numa doméstica jeitosa, não viu o 21 - Circular e deu-lhe
tamanha porrada, que fez aquele monte de ferro e madeira pesada saltar dos carris, façanha inédita
de que até hoje se orgulha e para a qual, naquele tempo, não se encontrou uma explicação razoável.
Belos bondes, em que o namoro custava a acabar! Bendito Leblon, onde, um dia, uma potência como
o Canadá teve de curvar-se ante à impetuosidade de um portuguesinho valente! Grande Rio de Janeiro,
vila que ainda bamboleia sua preguiça na cadência dos bondes. Se um dia entra nos trilhos, só
o futuro dirá.
Texto extraído do livro "O ANTIGO LEBLON - Uma Aldeia Encantada - Crônicas" - Rio de Janeiro
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