UM POUCO DO LEBLON

Av. Delfim Moreira em 19/07/1919 - Foto Augusto Malta

Rogério Barbosa Lima

O fascínio que sobre mim exercem a graça e a inteligência das reflexões de Elsie Lessa fazem-me, sempre que posso, reler suas histórias, e foi numa dessas vezes que reencontrei, recentemente, a descrição de um eclipse observado ao longo da avenida da praia, por onde vinha a cronista, em marcha lenta, desde "os confins do Leblon".

Fixei-me, surpreso e enleado, nessa referência. Entrevi, no belo cenário descrito, uma nesga entre os restos de sol de um céu azul escuro e antigo, e enfiei-me de mansinho numa tarde qualquer de 1950.

Era, com efeito, o Leblon um dos extremos da cidade. Prá lá do canal da Avenida Niemeyer, só iam pescadores que moravam no Vidigal e alguns aventureiros motorizados à cata de um sítio ermo para seus encontros furtivos na Barra da Tijuca, então, apenas, um acidente geográfico com mar batido e enorme areal coberto por vegetação rasteira e espessa - uma espécie de jibóia entrelaçada - que fazia as vezes de leito para um ou outro casal mais afoito.

No mergulho proustiano que empreendi, vejo-me, à noitinha, cercado de garotos como eu, sentado na calçada da praia, sob a iluminação fraca das grandes luminárias guarnecidas de arabescos, encimando meia-dúzia de pesados postes de ferro, tentando adivinhar o algarismo final da placa dos automóveis. De trinta em trinta minutos passava um deles, e iniciávamos outra rodada de apostas. A quietude e a ausência quase total de transeuntes, que pudessem desviar nossa atenção, estimulavam o hábito da conversação; os assuntos, sempre os mesmos, mas as opiniões, variadas. Ainda não havíamos sido cooptados e globalizados pela tal da mídia; a televisão engatinhava, era experimental. "1984", de Orwell, não chegara ao Brasil, pelo menos na atual versão tupiniquim.

Raros como os postes, um homem aqui, um casal acolá podiam ser vistos, de vez em quando, a passeio. Mulheres sós, nunca. Às oito e pouco, recolhíamo-nos às nossas casas. Nós e todo o mundo, que o comércio há muito tinha cerrado as portas e cessava o movimento pelas ruas. O monumental silêncio só era quebrado pelo ranger dos bondes nos trilhos, o coro lamuriento da gataria ou pela voz de uns poucos notívagos a caminho do botequim.

Antes de tornar-se via migratória e serventia da diáspora rastaqüera e point de agito de arrivistas, intelectuais de araque e oligóides, o Leblon foi um bairro muito bacana.

Dois ou três botecos, entre o canal e o Jardim de Alá, ficavam abertos até as onze horas, se tanto, para atender motoristas de lotação, motorneiros e boêmios. Estes últimos, sempre os mesmos velhos conhecidos, reuníam-se para falar sobre futebol e outras amenidades, e relaxar um pouco antes de ir dormir. Crianças só entravam nos bares durante o dia, para comprar balas ou dar recados.

Não existiam cadeiras nas calçadas, carros à porta com rádio ligado alto, brutos suarentos a urrar disputando lugares, nem risos histéricos de mulher. Não havia pressa; a cerveja era servida muito gelada e podia-se pedir, no máximo, ovo cozido e pão com mortadela ou queijo. A maioria ia bater papo, e quem quisesse comer, que fosse fazê-lo em casa (comida feita com banha de porco tirada de uma lata com desenhos de coqueiros verdes). Dispensavam-se exibidos profissionais. Claro que havia babacas, esses pupulam em todas as épocas, mas ainda não predominavam... pelo menos nos botequins.

Nada dos incensados Bracarenses da vida (já falei da liberdade de escolha, e de que as individualidades não tinham sido totalmente dizimadas?). O Recarey, quando apareceu (por volta de 56, mais ou menos, -eu já freqüentava os botecos e lembro-me muito bem-) era comim do Três Vinte, onde é hoje a Pizzaria Guanabara, sede de um desses malfadados baixos que proliferam por aí, acolhendo maltas de romeiros automatizados, flutuando a um milímetro da discórdia.

Naqueles tempos, as pessoas encontravam diversão nos bairros em que residiam e só transitavam por outro a caminho do trabalho ou em visitas ocasionais. O Leblon não servia de acesso a lugar algum, já disse, ficava nos confins: era o extremo sul, ponto de partida ou de chegada. Uma aldeia encantada, em grande parte por esse motivo.

No mais, sem carros, baixos, visitantes desagradáveis, as ruas eram nossas e as desfrutávamos de pés descalços, casimirianamente, donos do pedaço, até porque os adultos gastavam os dias envolvidos nos afazeres domésticos, ou na cidade. Impunha-se ir à cidade para trabalhar, ir ao dentista ou médico, para negócios de qualquer natureza e para compras maiores. Perto de casa só havia quitanda, farmácia, barbeiro, padaria e botequim. Ah! Tinha, também, o armarinho, no qual mamãe mandava compar retrós mercerizado, com a Joana, filha do dono e irmã do Nagib, que morreu novo, coitado, e muitos terrenos baldios, também, onde se jogava bola e caçava-se rolinha, para quem se lembra disso: de terra batida, bem carecas no meio e muito capim alto roçando os muros. Como sempre ocorre às crianças, pareciam-nos imensos, verdadeiros Maracanãs.

Anti-sociais ou gregários, nem pensar, já que todos se conheciam muito bem. Tímidos, abusados, é certo que os havia; distribuíam-se por turmas, geralmente conhecidas pelo nome das ruas. Algumas dessas ruas guardavam ainda suas designações indígenas originais, que, aos poucos, foram substituídas pelos nomes dos generais sul-americanos, cuja bravura livrou-nos da invasão dos marcianos e de outras graves ameaças. Uma briguinha, vez por outra, logo seguida de ruidosa confraternização, animava uma saudável rivalidade entre aquelas corriolas.

Graças à inexistência de attaris e tamagotchis, jogava-se bola o dia inteiro. O resto do dia inteiro era curtido na praia. Mas isso, a convivência entre os ricos e os pobres da Praia do Pinto, num bairro em que preponderava a mais genuína classe média, e otras cositas mas são assuntos que demandam novos espaços, novas crônicas.

Por enquanto, vou matando a saudade, reconfortando-me com uma primeira dose dessas coisas velhas e ricas que tive a ventura de possuir e testemunhar. Acho que precisava olhar para trás e veio-me na hora certa. Não agüento mais consumir essa vida que não pára e, ao mesmo tempo, não leva a nada. Angústia por angústia, prefiro a sofreguidão que possam causar-me essas recordações à trama diabólica que me atormenta e atrela a esse cometa estúpido, obstinado, que me carrega por onde não quero ir.

Rogério Suarez Barbosa Lima é autor de:

  • O velho e o bar - crônicas - 1996
  • Minha gente saiu à rua - contos - 1998
  • O Antigo Leblon, uma aldeia encantada - crônicas - 1999
  • Sem caminhos de volta - crônicas - 2000
  • O olhar matreiro do Serafim - Coletânea de contos selecionada por banca constituída de três membros da Academia Brasileira de Letras, como vencedora do concurso 'Novos Talentos', promovido pelo Estado do Rio de Janeiro, obra valorizada por generosa orelha do acadêmico Antônio Olinto - 2002
  •  

    Paulo Fortes, um brasileiro na ópera - Romance biográfico - 2004

Paulo Fortes, um brasileiro na ópera, a segunda edição de O olhar matreiro do Serafim e a quarta edição de O Antigo Leblon, uma aldeia encantada  foram publicados pela EDITORA ANTIGO LEBLON - www.antigoleblon.com.br 


O Antigo Leblon, no Galeto do Leblon

O Galeto do Leblon (antigo Gatão) decorou o interior do estabelecimento com 3 painéis e 39 fotos constantes do livro O Antigo Leblon - uma aldeia encantada, de Rogério Barbosa Lima, várias delas cedidas pelo Alma Carioca O restaurante fica na esquina de Aristides Espínola com Dias Ferreira, em frente ao La Mole.

O Antigo Leblon, Uma Aldeia Encantada - de Rogério Barbosa Lima. Leia o livro, visite o site. O cenário é o Leblon das décadas de quarenta e cinqüenta. Como protagonistas, os nativos do bairro, a gente singela que compartilhava a ventura de habitar uma aldeia encantada.



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13-out-2008