Cláudio Jorge

Músico carioca nascido no bairro Boca do Mato, Cláudio Jorge nos seus trinta anos de carreira já atuou em vários setores da atividade musical brasileira.

Eminentemente ligado a música popular de seu país, particularmente o Samba, sua trajetória profissional teve início por volta dos seus vinte anos quando foi atuar como violonista de compositores importantes da chamada “Velha Guarda”, tais como, Ismael Silva e Cartola. Mais Tarde participou de shows e gravações ao lado de outros veteranos como Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus.

Seu primeiro trabalho em disco como cantor e compositor aconteceu em 1980 na EMI-ODEON, e de lá pra cá tem tido suas composições gravadas por intérpretes importantes da MPB tais como: Emílio Santiago, Elymar Santos, Angela Maria, Joana, Elson do Forrogode, Alaíde Costa, Zeca Pagodinho, Elza Soares, Roberto Ribeiro, Zezé Mota, Jorge Aragão, Martinho da Vila, Joel Nascimento, Sivuca, Luiz Carlos da Vila, Arranco de Varsóvia e outros. Algumas destas composições são de sua autoria letra e música, outras são parcerias com Cartola, João Nogueira, Aldir Blanc, Nei Lopes, Hermínio Bello de Carvalho, Ivan Wrigg, Ivor Lancellotti, Délcio Carvalho, Martinho da Vila, Elton Medeiros, Wilson das Neves e Luiz Carlos da Vila.

Violonista dos mais requisitados, participou de vários shows no Brasil e exterior além de atuar em inúmeras sessões de gravações nos discos de artistas como Sivuca, Martinho da Vila, Simone, Renato Russo, Ney Matogrosso, Elson do Forrogode, Jonny Alf, Dóris Monteiro, Macalé, Leny Andrade, Roberto Ribeiro (do qual também foi produtor de um dos seus discos), Ismael Silva, Clementina de Jesus, Agepê, Elba Ramalho, Dominguinhos do Estácio, Neguinho da Beija Flor, Alcione, Nelson Gonçalves, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, João Donato, Lecy Brandão, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Beth Carvalho, Lps das Escolas de Samba do Grupo A, Casa de Samba(vários artistas), Ivan Lins, Gabriel Pensador, Miúcha, Jamelão, Zé Renato, Elza Soares, Fundo de Quintal, João Nogueira, Dudu Nobre, Dionne Warwicki (USA), Sérgio Mendes (USA), Lisa Ono (Japão) e muitos outros.

Cláudio Jorge, um dos membros da Ala dos Compositores da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel gravou três discos como intérprete. Dois na EMI-ODEON em 1980; o CD “Coisa de Chefe”, indicado para o Grammy Latino de 2002 na categoria melhor disco de samba e, mais recentemente, o disco “Matrizes, onde divide com o parceiro Luiz Carlos da Vila uma homenagem as raízes africanas da música popular brasileira.

Cláudio Jorge além de fazer shows divulgando seu mais recente disco, acumula ainda as funções de violonista na banda que acompanha Martinho da Vila no Brasil e no exterior. No mais recente disco e DVD do cantor faz participação especial interpretando a musica “Fetiche” feita em parceria com o mestre.

Seus futuros lançamentos ainda para este ano são seu próximo disco solo em fase de mixagem e o disco gravado em parceria com a cantora Dorina e violonista Carlinhos 7 cordas dedicado aos sambas que falam do violão.

Dados sobre a ida do artista e artigos por ele escritos podem ser encontrados no site www.claudiojorge.com.br e no blog http://nasrodasdosamba.festim.net.   A música "Coisa de chefe" nos foi enviada pelo próprio autor, sendo autorizada a sua divulgação neste espaço.


Coisa de chefe - Cláudio Jorge

 

SASSARICANDO NO TÚNEL DO TEMPO

Cláudio Jorge

Existem coisas na vida que a gente só acredita vendo. É aquela coisa de São Tomé, ver para crer e coisa tal.

Foi o que aconteceu comigo e a patroa quando descemos sábado à noite do táxi, ali na Av. Graça Aranha, no centro do Rio de Janeiro.

O túnel do tempo existe, gente, e a entrada para ele nesse dia foi o Teatro Sesc Ginástico.

A viagem começou quando visualizei meu amigo Sérgio Cabral, o pai, através da porta de vidro. Minhas lembranças foram até o Cachambi, naquele apartamento do IAPC na Rua Miguel Cervantes. Lá reencontrei meu pai, meu avô e minha mãe, que embora more hoje na Tijuca, estava lá também nessa hora.

Na vitrola os discos de 78 rpm eram permanentemente trocados, um a um, a música não parava e o repertório era Francisco e Ataulfo Alves, Ciro Monteiro, Ismael Silva, Noel Rosa, Haroldo Barboza, Pixinguinha, Lamartine Babo, Braguinha, Pedroca e seu trompete e milhares de outros músicos, compositores, cantores e cantoras do rádio que faziam a minha cabeça na época e dela nunca mais saíram.

No saguão o abraço e o beijo no Sérgio me levaram um pouco mais pra dentro do túnel, e aí já era carnaval.

“Lata d’água na cabeça lá vai Maria, lá vai Maria/ sobe o morro não se cansa/pela mão uma criança/lá vai Maria”. O cenário era uma escada de estação de trem e eu pequeno segurando a mão de minha mãe Maria enquanto esse samba tocava num alto falante na rua. Eu pensava na minha inocência, essa música tá falando da gente?

Me desloco no túnel e estou na sala de inscrição do Festival Internacional da Canção. Eu e meu amigo Ricardo cismamos que poderíamos ganhar o festival com a toada que fizemos. Aos dezesseis anos a gente ainda obriga nossos pais a fazerem coisas que depois vemos que não tinham nada a ver, e lá foi meu pai comigo fazer a inscrição e quem recebia as musicas era o amigo dele Luiz Antônio, compositor do lata d’água na cabeça.

- E aí Luiz, o que você achou da música?

- Dá pro gasto, Everaldo.

O Teatro SESC estava lotado e o clima no saguão estava ótimo, porque além do sucesso de “Sassaricando” já estar consolidado, a gente estava se preparando para ouvir marchinhas de carnaval, e aí não tem como dar errado.

O lance é que deu certo demais por conta da impecável direção, tanto artística como musical, pelo elenco de músicos e cantores de prima e pelo espetáculo criado por Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral que no fundo, é uma belíssima homenagem ao Rio de Janeiro e aos cariocas. O titulo do show, aliás, dá margem a uma reflexão: "Sassaricando, e o Rio inventou a marchinha” . Será que não pode ter sido o contrario?

Saio do SESC por alguns instantes e caio no Teatro da Galeria, final dos anos setenta, o show era o “Vida Boêmia”. João Nogueira cantando, eu, Wilson das Neves, Cuscuz e Ivan Machado tocando e o garçom era o Sérgio Cabral. Maravilha aquele show. A gente fazia o que mais gostava – música, tomar umas, bater papo – e ainda era trabalho. Era um show requintado onde além das cervejas e das histórias da nossa música o garçom ainda nos servia os deliciosos salgadinhos feitos pela esposa do nosso saudoso Cuscuz.

Cuscuz era um daqueles negros tinta forte com sorriso fácil, um cara afetuoso, que ganhou o apelido não pela cor, mas porque vendia Cuscuz na estação do trem. A tinta do Cuscuz era tão forte que uma vez estávamos no Chile passeando numa manhã de sol, quando uma criança no colo da mãe ficou impressionada com a figura dele. Ele se aproximou, brincou com ela e nos surpreendemos todos quando a menina passou o dedinho no rosto dele e chupou pensando que ele fosse feito de chocolate.

O show vai começar, foi dado o terceiro sinal e lá vamos nós túnel afora.
Eu costumo dizer que o samba perdeu o palco italiano e ficou restrito aos guetos, bares, rodas e casas de show onde o lance é tomar todas, cantar os sambas e as minas e dançar junto ou separado.

Com isso muito da profundidade, filosofia, literatura, musicalidade, toda a riqueza com que um bom samba nos brinda se perde na alegria, que é muito boa, nada contra. O Samba da Vela em São Paulo deu uma bela recuperada nisso.

A mesma coisa eu senti no Sassaricando. As letras de muitas das marchinhas que cantávamos e que embalaram os bailes do carnaval carioca tinha muita história pra contar, e realçar isso é uma das muitas qualidades de Sassaricando.

Durante o show só senti falta dos confetes e serpentinas e daquele delicioso cheiro de lança perfume no ar. O carnaval das marchinhas tinha cheiro. É engraçado falar em carnaval do passado quando esse passado está presente hoje nos blocos de rua do Rio e o cordão do Bola Preta nunca deixou de sair. Vendo o show arrisco dizer que o carnaval carioca está voltando pra casa, com o mesmo repertório, que será o repertório por muitos e muitos anos, tal qual as canções das igrejas e do candomblé. São as mesmas há séculos, cumprindo a função para que foram destinadas. Acho que assim será com as marchinhas de Braguinha, Lamartine, Roberto Kelly, Haroldo Barbosa e tantos outros.

Haroldo Barbosa, Sérgio Cabral, Nássara, Orestes Barbosa, Luiz Reis: jornalistas ligados à música brasileira – e também meu pai, meu avô e meu filho.

Nos encontramos depois da peça para um chopinho e o Sérgio nos brindou com suas deliciosas histórias e, numa delas, estavam meu pai e meu avô. O túnel do tempo dele fez uma intercessão com o meu, e quando vimos estávamos soltando balão no Cachambi, Cavalcante e chegamos até a redação do Diário da Noite onde ele se tornou jornalista profissional.

Encontrei nesses dias, no baú do meu pai, uma caricatura do meu avo feita pelo Lan. No verso o carimbo localiza o Diário da Noite e o ano de mil novecentos e cinqüenta e sete.
– Eu estava lá nessa época, me diz o Sérgio.

Eu tenho maior orgulho do meu parentesco com jornalistas. Pode ser uma bobagem isso, mas é que me lembro da redação d’O Dia ali na Rua do Riachuelo quando eu ia encontrar meu pai e ficar lendo as últimas notícias sobre o regime militar - que não iriam sair nos jornais do seguinte. Eu achava aquilo fascinante.

O túnel me leva de volta ao Cachambi e meu amigo Barata pergunta: - Já leu o jornal novo que saiu, o Pasquim? O túnel agora me joga na Praça Mauá onde eu e Ivan Wrigg estamos levando mais uma música para a apreciação da censura, pra ver se a gente vai poder cantá-la no próximo show. Que absurdo! Os de agora não conseguem imaginar estes tempos. Tempos em que toda a turma do Pasquim ficou dois meses em cana, vivendo o surrealismo brasileiro que propiciou cenas como a de um soldado tocando violão enquanto o Sérgio segurava a metralhadora para ele. Já pensou se o Sérgio fosse o Lamarca?

A primeira parte do musical termina quando já estávamos sassaricando na cadeira e a briga contra as lágrimas já estávamos quase perdendo. É um momento de reflexão quando sou novamente seqüestrado para o túnel e a saudade do Paulinho Albuquerque me atropela de novo em formato de foto.

É uma foto que ele me deu de presente. Um jipe da Última Hora em plena Avenida Rio Branco e em cima dele um monte de homens fantasiados de mulher, entre eles, o Canuto (meu avô à esquerda) e o Paulo Medeiros (pai do Paulinho à direita). Jornalismo, carnaval, boemia, música carioca, tudo junto no instantâneo do fotógrafo do jornal.

A saudade de tudo me invade na segunda parte do show, as lágrimas me aliviam, o túnel se alarga gigante em pleno teatro e a luz vinda do palco ilumina o fim desse túnel do tempo me dizendo que tudo, tudo, tudo vai dar pé. O Rio continuará eternamente lindo, o jornalismo, apesar da indústria da mídia, sempre terá caras como Sérgio Cabral e seus contemporâneos, nosso dia-a-dia pelos bares da cidade comprova isso. A música carioca, essa entidade que nos coloca no colo, tem nos jovens eternidade garantida e neguinho não tá de bobeira não, o couro tá comendo mesmo.

As luzes se apagam e a gente agora está aqui numa turma, num restaurante na enseada de Botafogo, conversando sobre tudo. A viagem no túnel do tempo não pára e eu espero que seja muito longa. Obrigado Sérgio Cabral. Por tudo. A próxima é minha.

Do blog "Nas Rodas do Samba"

 



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02-ago-2008