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SASSARICANDO NO TÚNEL DO TEMPO |
Existem coisas na vida que a gente só acredita vendo.
É aquela coisa de São Tomé, ver para crer e coisa tal.
Foi o que aconteceu comigo e a patroa quando descemos sábado à noite
do táxi, ali na Av. Graça Aranha, no centro do Rio de Janeiro.
O túnel do tempo existe, gente, e a entrada para ele nesse dia foi o
Teatro Sesc Ginástico.
A viagem começou quando visualizei meu amigo Sérgio Cabral, o pai,
através da porta de vidro. Minhas lembranças foram até o Cachambi,
naquele apartamento do IAPC na Rua Miguel Cervantes. Lá reencontrei
meu pai, meu avô e minha mãe, que embora more hoje na Tijuca, estava
lá também nessa hora.
Na vitrola os discos de 78 rpm eram permanentemente trocados, um a um,
a música não parava e o repertório era Francisco e Ataulfo Alves, Ciro
Monteiro, Ismael Silva, Noel Rosa, Haroldo Barboza, Pixinguinha,
Lamartine Babo, Braguinha, Pedroca e seu trompete e milhares de outros
músicos, compositores, cantores e cantoras do rádio que faziam a minha
cabeça na época e dela nunca mais saíram.
No saguão o abraço e o beijo no Sérgio me levaram um pouco mais pra
dentro do túnel, e aí já era carnaval.
“Lata d’água na cabeça lá vai Maria, lá vai Maria/ sobe o morro não se
cansa/pela mão uma criança/lá vai Maria”. O cenário era uma escada de
estação de trem e eu pequeno segurando a mão de minha mãe Maria
enquanto esse samba tocava num alto falante na rua. Eu pensava na
minha inocência, essa música tá falando da gente?
Me desloco no túnel e estou na sala de inscrição do Festival
Internacional da Canção. Eu e meu amigo Ricardo cismamos que
poderíamos ganhar o festival com a toada que fizemos. Aos dezesseis
anos a gente ainda obriga nossos pais a fazerem coisas que depois
vemos que não tinham nada a ver, e lá foi meu pai comigo fazer a
inscrição e quem recebia as musicas era o amigo dele Luiz Antônio,
compositor do lata d’água na cabeça.
- E aí Luiz, o que você achou da música?
- Dá pro gasto, Everaldo.
O Teatro SESC estava lotado e o clima no saguão estava ótimo, porque
além do sucesso de “Sassaricando” já estar consolidado, a gente estava
se preparando para ouvir marchinhas de carnaval, e aí não tem como dar
errado.
O lance é que deu certo demais por conta da impecável direção, tanto
artística como musical, pelo elenco de músicos e cantores de prima e
pelo espetáculo criado por Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral que no
fundo, é uma belíssima homenagem ao Rio de Janeiro e aos cariocas. O
titulo do show, aliás, dá margem a uma reflexão: "Sassaricando, e o
Rio inventou a marchinha” . Será que não pode ter sido o contrario?
Saio do SESC por alguns instantes e caio no Teatro da Galeria, final
dos anos setenta, o show era o “Vida Boêmia”. João Nogueira cantando,
eu, Wilson das Neves, Cuscuz e Ivan Machado tocando e o garçom era o
Sérgio Cabral. Maravilha aquele show. A gente fazia o que mais gostava
– música, tomar umas, bater papo – e ainda era trabalho. Era um show
requintado onde além das cervejas e das histórias da nossa música o
garçom ainda nos servia os deliciosos salgadinhos feitos pela esposa
do nosso saudoso Cuscuz.
Cuscuz era um daqueles negros tinta forte com sorriso fácil, um cara
afetuoso, que ganhou o apelido não pela cor, mas porque vendia Cuscuz
na estação do trem. A tinta do Cuscuz era tão forte que uma vez
estávamos no Chile passeando numa manhã de sol, quando uma criança no
colo da mãe ficou impressionada com a figura dele. Ele se aproximou,
brincou com ela e nos surpreendemos todos quando a menina passou o
dedinho no rosto dele e chupou pensando que ele fosse feito de
chocolate.
O show vai começar, foi dado o terceiro sinal e lá vamos nós túnel
afora.
Eu costumo dizer que o samba perdeu o palco italiano e ficou restrito
aos guetos, bares, rodas e casas de show onde o lance é tomar todas,
cantar os sambas e as minas e dançar junto ou separado.
Com isso muito da profundidade, filosofia, literatura, musicalidade,
toda a riqueza com que um bom samba nos brinda se perde na alegria,
que é muito boa, nada contra. O Samba da Vela em São Paulo deu uma
bela recuperada nisso.
A mesma coisa eu senti no Sassaricando. As letras de muitas das
marchinhas que cantávamos e que embalaram os bailes do carnaval
carioca tinha muita história pra contar, e realçar isso é uma das
muitas qualidades de Sassaricando.
Durante o show só senti falta dos confetes e serpentinas e daquele
delicioso cheiro de lança perfume no ar. O carnaval das marchinhas
tinha cheiro. É engraçado falar em carnaval do passado quando esse
passado está presente hoje nos blocos de rua do Rio e o cordão do Bola
Preta nunca deixou de sair. Vendo o show arrisco dizer que o carnaval
carioca está voltando pra casa, com o mesmo repertório, que será o
repertório por muitos e muitos anos, tal qual as canções das igrejas e
do candomblé. São as mesmas há séculos, cumprindo a função para que
foram destinadas. Acho que assim será com as marchinhas de Braguinha,
Lamartine, Roberto Kelly, Haroldo Barbosa e tantos outros.
Haroldo Barbosa, Sérgio Cabral, Nássara, Orestes Barbosa, Luiz Reis:
jornalistas ligados à música brasileira – e também meu pai, meu avô e
meu filho.
Nos encontramos depois da peça para um chopinho e o Sérgio nos brindou
com suas deliciosas histórias e, numa delas, estavam meu pai e meu
avô. O túnel do tempo dele fez uma intercessão com o meu, e quando
vimos estávamos soltando balão no Cachambi, Cavalcante e chegamos até
a redação do Diário da Noite onde ele se tornou jornalista
profissional.
Encontrei nesses dias, no baú do meu pai, uma caricatura do meu avo
feita pelo Lan. No verso o carimbo localiza o Diário da Noite e o ano
de mil novecentos e cinqüenta e sete.
– Eu estava lá nessa época, me diz o Sérgio.
Eu tenho maior orgulho do meu parentesco com jornalistas. Pode ser uma
bobagem isso, mas é que me lembro da redação d’O Dia ali na Rua do
Riachuelo quando eu ia encontrar meu pai e ficar lendo as últimas
notícias sobre o regime militar - que não iriam sair nos jornais do
seguinte. Eu achava aquilo fascinante.
O túnel me leva de volta ao Cachambi e meu amigo Barata pergunta: - Já
leu o jornal novo que saiu, o Pasquim? O túnel agora me joga na Praça
Mauá onde eu e Ivan Wrigg estamos levando mais uma música para a
apreciação da censura, pra ver se a gente vai poder cantá-la no
próximo show. Que absurdo! Os de agora não conseguem imaginar estes
tempos. Tempos em que toda a turma do Pasquim ficou dois meses em
cana, vivendo o surrealismo brasileiro que propiciou cenas como a de
um soldado tocando violão enquanto o Sérgio segurava a metralhadora
para ele. Já pensou se o Sérgio fosse o Lamarca?
A primeira parte do musical termina quando já estávamos sassaricando
na cadeira e a briga contra as lágrimas já estávamos quase perdendo. É
um momento de reflexão quando sou novamente seqüestrado para o túnel e
a saudade do Paulinho Albuquerque me atropela de novo em formato de
foto.
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É uma foto que ele me deu de presente. Um jipe da
Última Hora em plena Avenida Rio Branco e em cima dele um monte de
homens fantasiados de mulher, entre eles, o Canuto (meu avô à
esquerda) e o Paulo Medeiros (pai do Paulinho à direita).
Jornalismo, carnaval, boemia, música carioca, tudo junto no
instantâneo do fotógrafo do jornal. A saudade de tudo me invade na segunda parte do show, as lágrimas
me aliviam, o túnel se alarga gigante em pleno teatro e a luz
vinda do palco ilumina o fim desse túnel do tempo me dizendo que
tudo, tudo, tudo vai dar pé. O Rio continuará eternamente lindo, o
jornalismo, apesar da indústria da mídia, sempre terá caras como
Sérgio Cabral e seus contemporâneos, nosso dia-a-dia pelos bares
da cidade comprova isso. A música carioca, essa entidade que nos
coloca no colo, tem nos jovens eternidade garantida e neguinho não
tá de bobeira não, o couro tá comendo mesmo. As luzes se apagam e a gente agora está aqui numa turma, num
restaurante na enseada de Botafogo, conversando sobre tudo. A
viagem no túnel do tempo não pára e eu espero que seja muito
longa. Obrigado Sérgio Cabral. Por tudo. A próxima é minha. |
Do blog "Nas Rodas do Samba"
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