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Já foi o mais febril, múltiplo e vivo bairro do Rio de Janeiro. Vivo, principalmente.
Luiz Paulo Conde Não há lugar onde o Rio seja mais carioca que a Cinelândia. Agitação, diversidade de tipos, mistura de gente de tantas procedências, comércio, cinema, teatro, música para todos os gostos, política de todas as tendências, boêmia de todas as horas, arte, cultura, arquitetura. O mundo. Talvez esse cosmopolitismo pleno explique o fato de que, quando íamos ao encontro de todas essas luzes, dizíamos que íamos à Cidade. Não a um lugar. Mas à Cidade, como se a Cinelândia resumisse o Rio e, por conseqüência, o representasse. O espaço público por todos é dividido. De bonde, o carioca saía de seus bairros, qualquer bairro, e chegava ao Tabuleiro da Baiana, no Largo da Carioca, que se confundia com a própria Cinelândia, sendo mesmo uma de suas fronteiras - perímetro da Galeria Cruzeiro, da Livraria Freitas Bastos, do Café Nice, do Cinema Parisiense, do Cineac Trianon, da Loja Palermo, Irmão & Cia (com os melhores discos do mundo), da Leiteria Silvestre, do Clube Naval, do Jockey Clube. Mas a Cinelândia, principalmente o chamado "Quarteirão Serrador", foi, acima de tudo, a nossa Broadway (ou aquilo que a gente pensava que fosse a Broadway), o lugar dos melhores cinemas da Cidade - o Odeon (em cujo prédio até hoje está a sede da empresa Luiz Severiano Ribeiro e, em uma de suas salas, o estúdio da Foto Preuss, que perpetuou o chuca-chuca de centenas de bem-nascidos bebês), o Império, o Pathé, o Capitólio (rival do Cineac, a garantir sempre que "a sessão começa quando você chega"), o Rex (no prédio do hotel com o mesmo nome), o Rivoli, o Vitória, o espetacular Palácio, o Metro Passeio e, já na fronteira sul, o Plaza e o Colonial. Não nos esqueçamos de que, embora fosse uma cinelândia, havia ainda teatros de primeira: o Glória e o Rival, sem falar, é claro, no Municipal, sua jóia maior. E tínhamos também o Amarelinho (onde numa mesa de calçada Gary Grant namorou Ingrid Bergman, sem nunca terem vindo ao Rio), a Americana, o Hotel Serrador (em cuja boate, a Night and Day, Carlos Machado lançou alguns dos seus mais belos espetáculos), o Hotel Ambassador, o OK e o Itajubá, ninhos de mineiros vindos de todas as alterosas, o Grande Hotel, o Avenida... No capítulo do comércio, tínhamos no território da Cinelândia aquela que desbancou a Notre Dame de Paris (na velha Rua do Ouvidor) como o maior magazine do Rio, a loja de Mestre et Blatgé, que simplificou seu nome para Mesbla. E, no capítulo da cultura e da política, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas-Artes, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio Monroe,construido para o centenário da Independência, em 1922, tornando-se depois sede do Senado da República. E o que dizer da boêmia da Cinelândia, sua razão de ser? A noite ainda ferve com o Cordão da Bola Preta. Serviu ela de palco para o desfile das grandes escolas de samba (final dos anos 50, começo dos 60) e para a apoteose das grandes sociedades carnavalescas, os préstitos - na Senador Dantas, por sinal, foi fundado o Clube dos Fenianos. Como na Broadway, era quando a Avenida Rio Branco chegava à Cinelândia que os grandes eventos do Rio tinham o seu momento culminante: a parada de Sete de Setembro e dos colégios, durante o Estado Novo; o desfile dos Pracinhas da FEB, em 1945; a passeata dos Cem mil, em 1968; o coro pelo impeachment em 1992. Era o ponto em que, antes do satélite, os cariocas se reuniam para ouvir as partidas da Copa do Mundo, ou reverenciar seus ídolos, como Carmen Miranda, Francisco Alves ou Garrincha. Como arquiteto, não posso deixar de lembrar ainda aos que estas linhas lerem que, na Cinelândia e arredores, podem ser apreciados alguns dos mais belos prédios do Rio, do colonial ao neoclássico, do art-nouveau ao art-decó, e um espetacular chafariz, que já andou pela cidade toda e que, em boa hora, veio ocupar o espaço que era do Palácio Monroe, derrubado pela pobreza de espírito. Como a todos acolhia em tão grande movimento, a Cinelândia não dormia, e na sua insônia o Rio revelava parte da sua alma como cidade. A Cinelândia está agora renascendo. Haverá uma nova Cinelândia - já há - e ela continuará a ser expressão dos traços mais fortes do espírito carioca. Como sempre foi. A Cinelândia é memória, história e futuro da Cidade do Rio de Janeiro. Luiz Paulo Conde foi Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro Texto extraído do Livro "CINELÂNDIA - Breve História de um Sonho" de João Máximo.
O mar, antes dos sucessivos aterros, chegava bem próximo a ele. |
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Palácio Pedro Ernesto As fotos atuais do Palácio Pedro Ernesto são de autoria de José Conde da Rocha |
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Texto de Ezna Dias Pinheiro Revisão: Márcia Della Libera
O Palácio Pedro Ernesto, sede do Legislativo Carioca, foi fundado em 1923 na gestão de Carlos Sampaio, então prefeito do Distrito Federal, pois o Rio era, a esse tempo, Capital do Brasil. Heitor de Mello, responsável pelo projeto, faleceu antes de ver sua obra concluída. Coube, então, ao seu companheiro de escritório, Archimedes Memória, finalizar a construção do Palácio Pedro Ernesto. O arquiteto Heitor de Mello concluiu o projeto em 1911, ano em que o Convento da Ajuda foi demolido, mas a construção só teve início em 1920. Além do Palácio, que por si só já é um monumento da arquitetura carioca (tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional), existem em seu interior obras de grande valor. Pintores reconhecidos internacionalmente como Eliseu Visconti, Carlos Oswald, Rodolfo Amoêdo, entre outros, têm suas telas expostas no Pedro Ernesto. O tríptico de Eliseu Visconti, que fica no hall do Salão Nobre, é a obra mais glamurosa. Ela retrata a cidade assentada num trono e as duas figuras de destaque da história: o prefeito Pereira Passos e o médico sanitarista Oswaldo Cruz. O Salão Nobre, em estilo Luis XV, é aquele recanto do Palácio onde o visitante entra pensando em festa e se deslumbra com a beleza do ambiente com arremates de tinta dourada e teto com obras dos irmãos Chambelland e de Oswald, que lembram as tradições do Paraíso, inspirados em ideais greco-romanos. No Plenário destaque para a pintura de Rodolfo Amoêdo, retratando a fundação da cidade por Estácio de Sá. Na parede oposta, à frente da presidência, tem-se o quadro “O suplício de Tiradentes” de Francisco Aurélio de Figueiredo, ladeado pelas estátuas de Estácio de Sá e Rui Barbosa, datadas de 1907 e de autoria de Honório Peçanha. Bem ao lado do Plenário, como ante-sala, vê-se a imponente Sala Inglesa em estilo elisabetano, toda revestida de imbuia com pinturas que retratam a ida e a volta do trabalho, de Décio Villares. Saindo da Sala Inglesa vamos encontrar o patriarca da Independência, José Bonifácio, pensando o Brasil em tela de Eduardo de Sá, colocado na ala que leva seu nome. Na ala seguinte encontramos o Conde de Bobadella, Gomes Freire de Andrade, que governou o Estado do Rio no século XVIII, de 1733 a 1763. Mas, a história do Palácio Pedro Ernesto não pode ser contada assim, sem envolvimento. Ao contrário, não há como não se envolver, pois se trata da história da cidade que cresceu a partir do extinto Morro do Castelo e hoje se espalha até a bela Pedra de Guaratiba, passando pela modernidade da Barra da Tijuca. Em verdade tem-se que fazer um passeio pelo Rio Antigo, “andar” pelo Morro do Castelo, onde os portugueses se instalaram após expulsarem os franceses das terras cariocas - termo usado pelos índios tupis para designar as casinhas brancas surgidas na paisagem a partir da fundação da cidade. Bem, voltando ao passeio.... adentremos a igreja de São Sebastião, patrono da cidade, que tem ao lado o Mosteiro dos Jesuítas, caminhemos um pouco pelo largo onde foi construída a primeira sede do Legislativo Carioca e onde tantas festas aconteceram, porque se há uma coisa que o povo carioca gosta é de festas e, aproveitemos para dar uma espiada na privilegiada paisagem. Que linda!!!! A Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar, o Morro Cara de Cão, onde estavam instalados os franceses, o Outeiro da Glória.... vista magnífica...!!! Então desçamos o Morro pelo caminho dos seminaristas, em direção ao Largo da Ajuda. Saímos exatamente em frente à Escola Pública da Freguesia de São José, que tem ao lado o Convento da Ajuda, onde vivem as freiras da Ordem da Conceição. Esse espaço também já foi denominado Largo da Mãe do Bispo, porque ali morou a mãe do Bispo José Joaquim Justino Mascarenhas Castelo Branco, Dona. Ana Teodoro Ramos de Mascarenhas. Bom, como a polêmica também é uma característica do carioca, o projeto desse convento não poderia passar impune. Os homens da cidade foram contrários à construção desse “esconderijo de mulheres”, já que, no Brasil Colônia, elas eram extremamente necessárias para a reprodução e conseqüente expansão. Mas Gomes Freire, o Conde de Bobadella, não deu ouvidos à polêmica e atendeu à Ordem da Conceição. Percebe-se a importância desse convento com a morte de D. Maria I, rainha de Portugal e da imperatriz Leopoldina. Ambas tiveram os despojos depositados no convento, sendo que o da rainha, depois, foi levado de volta para o seu país. Mas, o tempo passou, e toda essa paisagem foi alterada com o prefeito reformador Pereira Passos, ao abrir a avenida Central - atual Rio Branco - até a beira mar, onde colocou o Obelisco. Em frente à praça, que ficou mais definida, construiu o imponente Teatro Municipal. Depois surgiram a Biblioteca Nacional, o Fórum, o Palácio Monroe - primeira arquitetura do nosso país premiada internacionalmente - que foi colocado próximo ao Obelisco, assim que terminou a construção da Avenida Central, com todo o carinho de Pereira Passos. O certo é que uma área dominada pelo poder da Igreja, pois estava circundada por mosteiros e conventos, acabou por definir-se pelo poder da República que ainda estava “novinha em folha”. E como a Escola da Freguesia de São José já havia servido como sede do Legislativo Carioca por diversas vezes, foi decidido que ali seria construído o Palácio sede do Conselho Municipal. Com isso, enquanto o Morro do Castelo ia abaixo, levando com ele a nossa primitiva história, surgia no Largo da Ajuda o Palácio Pedro Ernesto, obra um tanto quanto cara, e considerada até extravagante, mas que hoje enche os olhos dos visitantes por sua surpreendente beleza. |
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Foto de 1938,
cedida pelo "Cerimonial da Câmara Municipal do Rio de Janeiro"
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Palácio Monroe Por que foi demolido?
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Já se passaram quase trinta anos desde a sua demolição, mas o Palácio Monroe continua despertando polêmica. O atual prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, aventou a hipótese de reconstruí-lo. E muito concordam com ele. O Palácio Monroe foi projetado pelo general Francisco Souza Aguiar para a Exposição Internacional de Saint Louis, em 1904. Seu projeto foi premiado. Era a primeira vez que uma obra da arquitetura brasileira era reconhecida internacionalmente. Terminada a exposição, o Palácio foi reconstruído no Rio de Janeiro, sendo este o primeiro edifício oficial inaugurado na Avenida Central, em 1906.
Fontes consultadas: |