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A Praça Tiradentes está quase deserta, enquanto a noite avança. O comércio, de
portas cerradas, e os pontos de ônibus sem filas contrastam com o burburinho do dia. Na esquina,
defronte ao tradicional e antigo café, prostitutas, também já antigas, e travestis novos empenham-se
numa concorrência brutal.
Fecho os olhos do corpo e apuro os ouvidos da alma. Posso escutar sons
longínquos, vindos de um passado remoto: são as orquestras dos teatros de revista, alma e colorido
de um Rio musical, farrista - celeiro artístico do Brasil. É possível vislumbrar, por entre a névoa
do tempo, as esculturais vedetes descendo, majestosas, imensas escadarias dos shows de Carlos Machado.
Indo pela a Rua da Carioca, vindo pela Sete de Setembro, a alma passeia
debaixo de sobrados centenários, sentindo o pulsar de uma cidade que guarda, em seu corpo de hoje,
um coração de passado grandioso.
Chegar à Ouvidor é mergulhar num Rio chique, elegante, em que ainda se pode
reviver momentos inesquecíveis, tomando ali perto um chá com biscoitos na Colombo, tendo a saudade
sentada ao lado.
Quando o dia amanhece, o Largo da Carioca vai crescendo em trepidação: é um
grande palco popular, onde extravagantes artistas do povo, eméritos tapeadores e hábeis
prestidigitadores vendem bugigangas e sonhos. Tudo isso ao pé do Convento de Santo Antônio, que,
condescendente, fecha os olhos complacentes, enquanto se entrega à sua missão de santo casamenteiro.
Bem pertinho, pelo menos na lembrança, está a Galeria Cruzeiro, onde muito
talento nasceu para a fama no rádio e no disco, onde muitas músicas hoje consagradas foram
trocadas por uns cobres.
Ali, logo ali, o Tabuleiro da Baiana era um ponto central de parada dos
bondes, que rangiam nos trilhos enquanto prosseguiam na sua lenta e civilizada marcha por entre
transeuntes não tão apressados como os de hoje.
A Rio Branco fervilha: é uma das artérias mais importantes por onde corre
o sangue carioca no coração da cidade empreendedora. Andando por aqui, neste caleidoscópio urbano,
podemos nos sentir cosmopolitas, mesmo sem arredar pé de nossa terra. Nos rostos suados,
nos olhos vivos, no falar com múltiplos sotaques, reconhecemos gente de todo esse Brasilzão, e
do mundo inteiro, acolhida nos braços da Cidade Maravilhosa.
Meio dia. Sol a pino. É hora de parar e fazer descer pela garganta seca
por causa do calor e da poluição uma cerveja gelada.
Em momentos como esse vejo que tenho tudo aqui: nos ouvidos, o barulhão
do centro da cidade; nos olhos, a imagem da beldade que passa; no coração, o orgulho de ser carioca.
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