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José Martins de Araújo Júnior nasceu em 27 de março de 1924, na Tijuca,
bairro da zona norte carioca. Penúltimo filho de seis irmãos, já revelava sua tendência artística
no extinto Instituto Rabello, em seu bairro de origem, onde cursou o ginásio e
científico, juntamente com os atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres. O
curso primário foi feito no Colégio Silvio Leite. No colegial José era
presidente do grêmio escolar. No qual reunia uma turma de alunos para contar
piadas de português. Cabe citar que José era filho de um português de quem
herdou o nome, que chegou ao Brasil com sete anos, prosperou de condutor de
bondes a proprietário de terrenos na Ilha do Governador, mandou construir na
Tijuca, próximo ao América Futebol Clube, um edifício de três andares, onde
acomodou todos os filhos. José perdeu o pai aos 16 anos, do qual se lembra ser
um homem de atitudes severas, segundo suas próprias palavras:
-"Cadeado no
portão, tabefe no cangote, descompostura, tive não foram poucas as vezes. Só
do meu pai! Da polícia, não (depois compreendi)"
Aos 18 anos entrou
para o Instituto Félix Pacheco, no cargo de datiloscopista. Aos 20 anos começou
a escrever para o Jornal dos Sports, realizando seu sonho de jornalista
esportivo. Assinava suas matérias como Araújo Júnior. Fator importante para
esta opção profissional partiu da noiva, Nelly, que acreditava em sua
capacidade criativa (Nelly dizia que ele era engraçado, fazia humor desde que o
conheceu no carnaval do Fluminense Futebol Clube).
Em novembro de 1948
assinou contrato com a Rádio Continental, atuando como repórter. José Martins
de Araújo Júnior se transformou em Don Rossé Cavaca quando passou a integrar
a equipe de esportes do jornal Tribuna da Imprensa. Don seria fruto de uma
admiração confessa pelo herói de la Mancha, visionário como ele e até de
tipo físico semelhante. Rossé é como se pronuncia José em espanhol. Cavaca
era o tipo de lanche preferido por Don Rossé, uma espécie de rosca doce que
ele devorava sem limitação.
Criado o pseudônimo,
este o acompanhou pelo resto da vida, tanto como cronista esportivo, publicitário,
escritor, humorista, no cinema, no teatro e na TV.
Conheceu a
namorada, que tornou-se sua esposa após um noivado em que o maior empecilho
para a realização do casamento foi o automóvel que começou a construir na
garagem de seu edifício, na Tijuca. Don Rossé Cavaca escrevia um diário no
qual compilava os gastos com as peças para o carro. Isto quando eram peças
mesmo, porque a alavanca da marcha era uma maçaneta de porta que, puxada para
dentro ou para fora e virada à esquerda ou à direita, desempenhava as quatro
marchas do automóvel. Em um dos trechos do seu diário, por ocasião de seu
noivado, ele escreveu: "Usei o dinheiro do móvel, na confecção do automóvel".
Cavaca casou-se em
1950 e dois anos depois veio a filha Cláudia, nome escolhido por ele "para
livra-la do terrível Laura Beatriz escolhido pela mãe", contava o
humorista. Em 54, casado, portanto, há quatro anos, nasce Flávia, a segunda
filha. Dois anos depois vem Márcia Andréa e a primeira viagem à Europa, como
correspondente esportivo da Tribuna da Imprensa, a convite da Associação Atlética
Portuguesa. Sempre brincalhão, enviou para as filhas um cartão-postal de um
gorila vestido com a camisa de um time de futebol, onde escreveu: "Queridas
filhinhas, aqui na Rússia é tão frio que o papai criou pêlos para se
proteger. Não estou diferente?" Nem é preciso dizer que a brincadeira
teve que ser desmentida imediatamente pela mãe das meninas, tamanha a
choradeira que gerou.
Cavaca e a família
saíram do apartamento de Ipanema em 1960 e se mudaram para o Leblon, no Condomínio
dos Jornalistas. Ali moraram nomes ilustres como Oduvaldo Viana e seu filho
Vianinha, Paulo Mendes Campos, Homero Homem, Fagundes de Menezes, Sandro Moreyra,
artistas como Adolfo Celli por ocasião do seu casamento com Tônia Carrero, Cláudio
Marzo, Lucélia Santos, o herói infantil Capitão Furacão, Alceu Valença,
entre outros omitidos, mas de igual importância.
O filho Cássio foi
a última e vitoriosa tentativa de ter um homem em casa. Cássio nasceu no
Leblon e conviveu com o pai por apenas cinco anos. Uma das mais bonitas
homenagens pela morte de Cavaca partiu da escritora Clarice Lispector, que
concentrou na figura infantil do filho, a admiração que sentia pelo pai. Sob o
título "Cássio", ela termina sua crônica no jornal, dizendo: "É
Natal. Cássio olha para o céu e vê uma estrela. Só não sabe que a estrela
é seu pai " (Cavaca morreu às vésperas do Natal de 1965).
A família, em função
dos milhares de afazeres de Don Rossé Cavaca, se programava apenas para as férias
e os domingos eram passados sempre na casa da mãe do humorista. Cavaca tinha um
sítio em Rio das Flores, município fluminense onde os avós de sua mulher
foram fazendeiros. Ao morrer, ele deixou inacabada uma casa defronte ao sítio,
idealizada para receber os amigos. "Terá uma janela panorâmica maior do
que cenário de filme", dizia, empolgado com a obra.
Cavaca tinha
prosperado e além da velha "Perereca" apelido que ele mesmo dera ao
automóvel que construiu (não deslizava, saltava), tinha uma lambreta
"Vespa" (na qual se acidentou fatalmente), uma Kombi e um automóvel
inglês comprado de um cônsul italiano, da marca Armstrong Sidley Safiri, que
ele pouco usou. Numa dessas vezes resolveu apostar corrida com um carro
desconhecido nas imediações do Colégio Militar, num domingo sem movimento,
convencido da potência do automóvel. Em menos de 100 metros o capô levantou,
cobriu sua visão e ele só teve tempo de ouvir as gargalhadas do motorista do
outro veículo.
Atitudes inusitadas
faziam parte de sua rotina. Certa vez comprou num camelô em São Paulo, cerca
de 50 cachorrinhos de pelúcia. Levou parte da compra para a Tribuna da Imprensa
e tentou vender para os colegas. Um deles disse: "Cavaca, esse cachorro não
vale nem 10 cruzeiros, imagine 25!". Ao que ele respondeu: "Mas é o
único que vem acompanhado de uma piada" (vendeu todos).
No fechamento da
edição da Tribuna, já madrugada adentro, ele costumava brindar os colegas com
a imitação perfeita de Gandhi. Longe de Carlos Lacerda, dono do jornal, Cavaca
ficava de cuecas e se enrolava em qualquer pano que aparecesse à vista. Do alto
de seu 1,87m, macérrimo, subia numa mesa e proferia discursos que provocavam
risos de se ouvir na noite da rua do Lavradio, onde fica o jornal.
A vida de Cavaca
era assim, original desde o café da manhã até a despedida dos colegas de
trabalho, em plena madrugada. A morte de Don Rossé Cavaca deixou órfãos os
meios de comunicação, seus filhos e todas as crianças do condomínio em que
morava, que ele voluntariamente convidava para uma volta de lambreta no campo de
futebol interno. Ao anunciar a sua morte no programa que comandava, o Capitão
Furacão, ídolo da meninada e também morador do condomínio de Cavaca, fugiu
do texto, dizendo que chegaria em casa e o prédio estaria triste e sem graça.
Emoção pura, pois o capitão "morava" num navio que singrava os
mares...
Jornalista
Esportivo - Don Rossé Cavaca iniciou suas atividades artísticas e seu
humor literário no América Futebol Clube, comentando partidas de futebol.
Em seguida, através
do convite do jornalista Luiz Paulistano, passou a integrar a equipe de esportes
do Jornal dos Sports. Nesta época assinava suas matérias como Araújo Júnior.
Depois atuou como repórter da Rádio Continental.
Foi um dos
fundadores da Tribuna da Imprensa - jornal do primo de sua esposa, o
ex-governador Carlos Lacerda - participando da equipe do jornal desde 1949 como
repórter esportivo, vindo mais tarde a chefiar a seção de esportes onde
permaneceu até 1965.
Também na Tribuna
assinou a coluna "Bate-Bola", uma das mais destacadas no campo da crônica
esportiva, que o lançou com êxito entre os melhores humoristas do país. Foi
nessa coluna que ele disse uma das frases mais famosas do humorismo brasileiro:
-"Desgraçado
é o goleiro, até onde ele pisa não nasce grama."
O escritor
- Cavaca lançou um livro em 1961 chamado "Um Riso em Decúbito"
("editado e distribuído pelo autor, nem Deus sabe como"). Ele fazia
questão de frisar que o livro não tem bossa e nem é deliberadamente
diferente. Mas, na realidade, o leitor fica surpreso quando o folheia. As páginas
são escritas de um lado só e cada uma delas contém apenas um conceito, uma
poesia, uma frase tremenda. O autor explicava que procedeu assim para conservar
a força do texto - uma crítica social, humana e política. Ele estipulou o preço
do livro em 995 cruzeiros e colocou dentro do volume uma nota do índio sem
apito (5 cruzeiros), só para ter o gostinho de anunciar que se tratava do
"único livro do mundo que já vem com o troco".
A noite de autógrafos
de Don Rossé Cavaca, no bar "Gôndola", de Copacabana, para a venda
de seu livro "Um Riso em Decúbito" acabou só pela manhã. Foi
preciso até a polícia para "conter o entusiamo" dos amigos e
leitores de Cavaca que, com isso, vendeu mais de cem livros.
O então senador
Juscelino Kubitscheck também foi lá "só para comprar o Um Riso em Decúbito
do Cavaca". E acabou ficando ao lado do autor, autografando o troco. Alguns
dias antes o então Presidente Jânio Quadros não quis autografar uma das
notas, dizendo que isto era crime. Cavaca conseguiu negociar com a Casa da Moeda
a liberação destas notas dias antes de serem lançadas, fato que causou grande
curiosidade entre os compradores do livro. Para Don Rossé Cavaca a noite de autógrafos,
na Gôndola, foi um sucesso.
Cavaca trabalhou no
cinema. Era um tocador de cavaquinho no filme "Pluft, o Fantasminha",
foi ator de televisão no "Teatrinho Trol", "Time Square",
"Câmera Indiscreta". Foi publicitário, trabalhou na Galo Xavier e
Labor Propaganda.
Patrícia finaliza
sua monografia com essas palavras:
"Escolhendo
Don Rossé Cavaca como tema de minha monografia visitei o passado. E descobri
que Cavaca era tão atual, que foi como eu viajasse no tempo sem sair do
lugar..."
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