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A visão é sem dúvida impressionante: toneladas e
toneladas de aço numa imobilidade total, encostadas ao cais sob a forma de
um imenso edifício flutuante, com o longo e alto costado branco, onde se
vêem, enfileiradas, as janelas-escotilhas.
Quando a gente passa junto ao cais, cruzando a cidade
na mesmice do ir-e-vir cotidiano, os navios não impressionam tanto. Mas
assim, de perto, o impacto é grande. De longe, esses transatlânticos se
misturam aos outros barcos no píer, ladeiam vasos de guerra, cargueiros
lotados de containeres, chatas, rebocadores. Até os guindastes parecem mais
imponentes. Porém, de pertinho...
Confesso que sempre tive certa resistência a esses
cruzeiros marítimos. As idéias de um confinamento maçante, de gente, gente,
gente se acotovelando em corredores estreitos e entupindo escadas, de
refeitórios lotados e de piscinas apinhadas impediram por muito tempo que o
desejo antigo de viajar de navio se concretizasse. Mas a vontade de navegar,
velejar, remar, flutuar sobre as ondas, cruzar mares e oceanos, sempre
presente em brasileiros – herança inegável de nosso passado, onde sempre
navegaram pirogas indígenas ao lado de galeões portugueses – se manteve
firme, até que o intelecto resistente cedesse lugar ao coração navegador.
Uma rampa acanhada nos engana, até que atingimos a
verdadeira entrada: um saguão de pé-direito bem alto, correspondente a dois
andares – eis a recepção do luxuoso hotel flutuante.
O espocar do flash do fotógrafo de bordo já se
anuncia. Durante toda a viagem os passageiros são flagrados em todas as
situações, de todos os ângulos, a todo momento. E, em certa hora, todos os
dias, painéis se abrem num dos corredores: lá estão centenas e centenas de
fotos, vendidas caro, a dólar, como tudo no navio. Trata-se de um dos
lugares mais freqüentados do barco. Cada passageiro leva seu narcisismo
para navegar, e não resiste a gastar bom dinheiro para trazer para casa um
flagrante na piscina, nos shows ou no coquetel do comandante.
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Gentilíssima recepcionista, falando um espanhol que
já trai a Babel representada pela tripulação, nos conduz à cabine. Nada dos
corredores estreitos que minha imaginação construíra; duas pessoas andam
lado a lado sem problema. O hall de elevadores (o navio tem três, com dois
elevadores cada um) são bem espaçosos, nada ficando a dever a prédios de
luxo.
A cabinezinha acanhada só existiu mesmo em minha
imaginação cheia de implicância. Estamos em acomodações bem amplas para as
circunstâncias. Beliches, que nada! Aí está uma confortável cama de casal,
acima da qual uma ampla janela mostra a ponte Rio-Niterói infelizmente
cinzenta nesse dia de chuva em que saímos navegando pela Baía de Guanabara.
Pode-se ver que os arquitetos e decoradores fazem
milagres. Segundo me disseram, todas as cabines são pelo menos como esta em
que estamos, exceto pelo fato de que algumas, as internas, um pouco mais
baratas, não têm o benefício da janela; e por outras que têm ainda o luxo de
uma varanda debruçada sobre o mar.
Um banheiro bem compacto porém igualmente
confortável, com tudo que um bom banheiro deve ter – da ducha generosa de
água quente ao secador eficiente – completa as acomodações, bem servidas de
armários e com um frigobar bem abastecido.
Essa caminhada até a cabine já revelou de forma bem
prática o tamanhão do navio. Os corredores são imensos, com centenas de
portas de cabine cada um. O desafio é conseguir voltar direitinho para a
nossa, embora esteja tudo muito bem sinalizado. Várias vezes trocamos o lado
par pelo lado ímpar, ou andamos em direção à proa, quando queríamos ir para
a popa!
Acomodado na cabine, não posso deixar de fazer uma
comparação um tanto estapafúrdia com os galeões antigos, em que os bravos
navegadores cruzaram oceanos bravios, em espaços exíguos, munidos de uma
bússola, um sextante, muita coragem e barris de rum, e contando com a boa
vontade de Netuno para evitar as terríveis tempestades ou as exasperantes
calmarias.
Dizer, enfaticamente, que o navio é grande talvez não
impressione tanto. Porém, alguns números podem nos deixar boquiabertos. Este
nosso transatlântico, o Grand Mistral, pesa 48.000 toneladas com o
comprimento de 216 metros, uma largura de 29 metros e a altura de 51 metros.
Só o calado, que fende as águas azuis ou verdes dos mares do mundo, tem 6
metros e 80 centímetros. E apesar de grandão, o navio é ágil: atinge 19,5
nós. Mas para isso, é pantagruélica sua fome de combustível: são 100
toneladas por dia!
Suavemente, o navio desatraca, e se movimenta com
lenta elegância...
Num brinde, uma dose de uísque do frigobar vai cair
bem para este marinheiro de primeira viagem em cruzeiro pela costa
brasileira.
Santos, Búzios, Salvador, Ilhéus... aqui vamos nós.
Saúde!

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O confinamento assusta. A idéia de que se está preso
num barco, em pleno oceano, afugenta muita gente. Se, além disso, surge a
perspectiva de não se ter nada para fazer durante vários dias, a coisa fica
pior.
Mas nesses passeios de transatlântico você só ficará
confinado se desejar; só se quiser curtirá sua solidão, levando-a também
sobre as ondas.
Você pode se deixar ficar na cabine isolado, ou
conectar seu confortável espaço privativo ao mundo ligando a TV
retransmitida por satélite. Ou pode optar por isolar-se com a vista luxuosa
do mar, deixando-se simplesmente ficar nos tombadilhos. Pode ler a viagem
inteira. Pode, enfim, transformar seus hábitos, manias e idiossincrasias em
navegadores. Mas que não falta o que fazer, isso não falta.
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O navio tem cinco bares, todos bem montados, com
serviço de primeira. E em cada um, quase sempre simultaneamente, toca um
conjunto. Os músicos, além de bons instrumentistas acompanhando bons
cantores, têm toda aquela manha profissional no relacionamento com o
público, tanto para atender as solicitações musicais quanto para aturar os
clássicos bebuns.
Existe também um grande teatro, onde, diariamente,
são apresentados os indefectíveis shows “para turistas”, numa pasteurização
cultural ao som de sucessos, desde “New York, New York” a “I’ll survive”, ao
sabor de uma discutível variedade musical e mesmo de opções sexuais...
Nesses shows, além de um bom conjunto, que reproduz
bem os arranjos conhecidíssimos – de Ray Coniff a Santana, passando pelo
rock e apelando para Michael Jackson, Madonna ou mesmo os Beatles –
destaca-se um balé, que além de passos elegantes ou atléticos oferece o
brinde de belas dançarinas de pernocas de fora. Não faltam também trechos
daqueles musicais cujos ingressos foram ou são disputados pelos turistas em
viagem aos EUA, indo desde “Hair” a “O Fantasma da Ópera”, transitando por
“Catch” e “Evita”.
O primeiro show é uma recepção aos passageiros. Um
desfile de bandeiras é o ponto alto dessa apresentação, com mais uma
constatação da globalização da mão-de-obra que compõe a tripulação.
Outro show interessante é o que denominam “Coquetel
do Comandante”. Aliás, esse é um verdadeiro evento, previsto até nas
instruções que se recebe antes do embarque, recomendando que se leve roupas
adequadas.
Nesse dia, o que se vê por todo o navio são ternos,
gravatas, vestidos longos e cheios de brilho. Trata-se, claro, de uma
imitação canhestra do que acontecia no tempo em que transatlânticos eram o
supra-sumo da elegância. Se a coisa for vista com bom-humor, até que é
interessante.
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Na entrada do teatro do navio, lá está o comandante, com
seu uniforme de gala, tirando fotos com os passageiros que formam uma grande
fila. E o coquetel é seguido de mais um show, onde a tripulação, a começar
por todos os oficiais, é apresentada. As nacionalidades dos oficiais: um
italiano, um russo, dois espanhóis, dois gregos, dois portugueses e um
brasileiro.
Além dos bares e shows, têm-se as atividades de
recreação. Diariamente, são realizados jogos de conhecimentos gerais,
mímica, bingo, etc. Muitas dessas disputas são feitas em torno da piscina,
situada lá no deck mais alto, onde se toma banho com água... do mar! Os
vencedores saem exibindo seus troféus pelo navio.
Claro que são diárias as sessões de ginástica
aeróbica. Afinal, centenas de passageiros desejam manter, fingidamente ou
não, a boa forma, ao mesmo tempo em que se empanturram com as cinco
refeições diárias. Isso mesmo, cinco: café da manhã, almoço, lanche da
tarde, jantar e uma ceia, servida até altas horas.
Bem, para os que levam a coisa a sério, o navio tem
uma academia bem montadíssima, com toda aquela parafernália de última
geração para as malhações, e onde se pode andar na esteira olhando a
imensidão do mar.
Outra atração inevitável é o cassino, sempre lotado.
É impressionante como tem gente que adora seu azar, a ponto de levá-lo até
quando viaja de férias!
Ah, nos corredores perto da entrada do cassino,
máquinas caça-níqueis não são deixadas em paz. Parece que alguns fazem toda
a viagem ali, sentados naqueles bancos altos e desconfortáveis, diante das
máquinas, acalentando o sonho de ouvir aquele barulho de milhares de moedas
caindo depois que o sortudo conseguiu a combinação que lhe dará direito a
uma bolada.
Claro que para a garotada também não faltam atrações.
A galerinha fica o tempo todo em atividade, atazanando e sendo atazanada
pelos recreadores.
Para a turma bem miúda, o navio tem um
jardim-de-infância completo, onde a meninada brinca na piscina de bolinhas,
faz desenhos, tudo acompanhado por professoras especializadas. Um paraíso,
enfim, para os pais que querem uma folga para curtir as atrações do navio.
Os jovens têm um espaço próprio: a discoteca, situada
no último deck superior. Todas as noites, até lá pelas três da manhã, rola
aquele som infernal, um “bate-estaca” em meio à luz negra, onde a turma
“fica” e a noite segue.
Mas não se
assustem: um tratamento acústico da melhor qualidade impede que o som
altíssimo perturbe o restante do navio, que segue, impávido, cortando as
ondas.
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Um hotel com mais de 1400 hóspedes é difícil de
administrar. Porém, como fazer isso com uma dificuldade adicional: o
hotel... navega.
Sempre imaginei como funcionaria a coisa. E, no entanto,
funciona bem.
A tripulação do transatlântico em que viajei é composta de
cerca de 500 pessoas, recrutadas nos mais diferentes países. Já aqui, essa
Babel apresenta um problema de comunicação. Dá pra perceber que nem todos
falam mais de uma língua; percebe-se, no entanto, que os monoglotas se viram
bem, usando a ancestral linguagem de sinais, a riqueza comunicativa possível
com a mobilidade do corpo.
Os tripulantes, exceto quando trabalham no restaurante em
momentos nos quais o traje a rigor é exigido, vestem camisas coloridas,
daquelas apresentadas aos turistas nos Mares do Sul. Mas as estampas variam
de cor, segundo a hierarquização que divide chefes, supervisores e
subordinados. Além disso, de vez em quando, os tripulantes responsáveis
pelas diversas áreas – restaurantes, bares, o serviço de hotel, máquinas,
etc. – dão uma circulada com seus uniformes brancos.
Sempre vemos nos hotéis, mesmo nos de maior luxo, os
empregados circulando nas áreas nobres. Uma trouxa de roupa sendo carregada
pelos corredores nunca combina com os ambientes sofisticados. No navio,
jamais vi isso acontecer, e observei até descobrir que os empregados
circulam pelas entranhas do navio num caminho só deles. Em quase todos os
corredores lá está uma porta com a inscrição “Crew only”, e outras desse
tipo. Por ali somem e aparecem tripulantes e tudo o que não é para ser
mostrado. E as portas são estrategicamente posicionadas de modo a facilitar
o trabalho de limpeza, de arrumação, de circulação de mercadorias,
mobiliário e tudo o mais.
Uma logística admirável é exigida para que tudo funcione,
para que um imenso transatlântico carregue seus passageiros-hóspedes,
oferecendo a eles (com pagamento em dólar, claro) tudo a que têm direito:
casa, comida, roupa lavada e diversão.
Certo dia, num início de manhã luminosa, após a atracação,
fiquei observando. A simples colocação de uma escada e de uma rampa de
descida mostrou cuidados e complexidade. Depois de descidas por roldanas, e
apoiadas no cais, a rampa e a plataforma receberam os cuidados de uns seis
tripulantes, empenhados em fixar suportes e amarrar cordinhas à guisa de
corrimãos. Fixa daqui, amarra dali, a operação só foi terminada quando se
chegou à conclusão de que não haveria perigo para quem subisse ou descesse.
Porém, ainda assim, ao final, um dos oficiais percorreu degrau por degrau da
escada e toda a extensão da rampa, pisando com força aqui e acolá, antes de
liberar a passagem.
Nos restaurantes, há uma obsessão pela arrumação. Se você
bobear, fica sem o prato em meio à refeição. Pudera, são milhares de bocas
para alimentar em tempo certo. A estratégia prevê a escolha prévia, feita
antes de embarcar, entre dois horários. Isto, por sua vez, é sincronizado
com o horário dos shows apresentados toda noite no grande teatro: o mesmo
show é repetido, para poder ser assistido por quem estava jantando. As mesas
dos restaurantes servem, pois, a dois grupos de comilões. Bem bolado: eis
uma conciliação entre o pão e o circo!
Mariluz. Este nome romântico é o da nossa camareira, uma
espanhola simpaticíssima, também obcecada com a limpeza e arrumação. Por
isso, nossa cabine vivia tinindo. E, num dos dias, ela mostrou sua arte:
encontramos sobre a cama nossas roupas de dormir, arrumadinhas, formando
duas figuras, lado a lado!
Imaginem: a reposição da comida, no restaurante
self-service da piscina e nos cafés da manhã; as centenas e centenas de
cadeiras na área da piscina, logo arrumadas, depois de largadas de qualquer
modo pelos passageiros; o serviço impecável nos cinco bares; a limpeza
constante de todas as dependências... Um batalhão de tripulantes, numa
verdadeira operação de guerra a serviço do lazer.
Uma pergunta que fazem: como são controladas as saídas e o
retorno ao navio? Ao embarcar, cada passageiro recebe um cartão magnético.
Esse cartão tem mil e uma utilidades, desde abrir a porta da cabine até
servir de “moeda eletrônica”. No navio se paga com duas moedas: em dólar ou
em cartão de crédito. Ao embarcar, cada passageiro, se optar pelo cartão de
crédito, já é obrigado a bloquer uma dada quantia, da qual vão sendo
deduzidas todas as despesas, para um acerto, ao final da viagem, do que
ultrapassar o valor bloqueado.
Um exemplo: você já está meio de pilequinho, curtindo a
música no bar e olhando o movimento das ondas, com reflexos de luar.
Querendo mais um drink, basta pedir a uma das bonitas garçonetes – belezas
espanholas, filipinas, porto-riquenhas, uruguaias, argentinas, chilenas,
paraguaias... e até brasileiras – e sua bebida será paga com esse cartão de
bordo. Você só terá que tentar firmar a mão de bebum na hora da assinatura
da nota...
Sobre as saídas e entradas no navio, eis a resposta: elas
são controladas no acesso ou saída utilizando-se esse cartão.
Como disse, a
coisa funciona bem. A gente pode relaxar, esquecer os problemas, como se a
vida se resumisse a esse navegar suave, brilhos de luar e sóis nascentes e
poentes.
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Nos aviões, a gente já se acostumou. Antes da decolagem,
uma aeromoça, com seu coquezinho no cabelo, uniforme impecável, fala automática
e gestos graciosos, diz:
-
Senhores passageiros, esta aeronave possui três
saídas, localizadas no fundo, no meio do corredor e na parte da frente. Em caso
de despressurização, máscaras cairão...
Depois de simular as tais máscaras caindo, ela prossegue
imperturbável, ignorando os olhos esbugalhados de alguns, as mãos suarentas de
outros e o ar blasé dos passageiros velhos de guerra.
Essa cena é infalível porque obrigatória. Trata-se de uma
exigência das normas internacionais de segurança de vôo.
Nos cruzeiros marítimos, as normas de segurança também se
impõem. Só que a coisa é bem diferente, e mais divertida.
Antes da partida, realiza-se um simulado de incêndio. Esse
exercício é bem divulgado, inclusive no jornalzinho de bordo. É obrigatório
para todos, e mobiliza o navio inteiro.
Eu nunca vestira um salva-vidas. Em minhas travessias de
barca entre o Rio e Niterói cansei de ver esses coletes, com sua cor
laranja-cheguei, dormitando tranqüilos e empoeirados em prateleiras acima das
cadeiras.
No navio, os coletes salva-vidas ficam nos armários, nas
cabines.
No dia e hora marcados, começa o simulado. Aliás, ele
começa antes, no zum-zum-zum dos comentários, na recepção, nos corredores.
Muita gente deseja saber do que se trata; vários zombam, fazendo as inevitáveis
piadas sobre naufrágios. O caso mais lembrado, claro: o do Titanic – na
realidade e no filme.
Eu estava em calma, de espírito e estômago, depois de um
farto café da manhã. Após vencer um ovo quente, um iogurte, frutas e pãezinhos
com geléia, bebericava uma xícara de café com leite, enquanto olhava o
movimento matinal no porto, deixando o pensamento navegar antes de mim na
expectativa da viagem. De repente – não mais que de repente, como diria o
poetinha -, o apito do navio soou, logo depois que uma voz estridente, vinda
dos alto-falantes, anunciou que o simulado de incêndio seria realizado.
Já tinha, claro, ouvido apitos de navio. Eles têm um som
único, cavo, poderoso. Sempre que os ouço, fico imaginando se não foram
acionados por ordem do próprio Netuno, num convite sinistro para uma visita às
profundezas...
Porém, de perto, o apito parece ainda mais poderoso e
assustador. Forte, chega a provocar uma certa trepidação; todos os demais sons
– vozerio, máquinas, barulho de bandejas sendo empilhadas, de xícaras que
colidem no põe e apanha dos que as utilizam – são abafados.
Ao saber desse exercício, fiquei imaginando uma confusão
danada. Afinal, mesmo se tratando apenas de uma simulação, sem o sal do
verdadeiro pânico, não é fácil mobilizar mais de 1800 pessoas, entre
passageiros e tripulantes.
Funciona assim: divididos por setores, designados por
letras, previamente informados por um comunicado deixado nas cabines, todos os
passageiros e a tripulação têm de se reunir nos conveses, com calma porém em
tempo curto.
É divertidíssimo observar toda essa movimentação, nos
corredores, pelas escadas e nos halls de elevadores.
Vestir colete salva-vidas deixa qualquer um engraçado. E,
como as instruções em inglês parecem inacessíveis para a maioria, embora haja
desenhos bem explicativos, tinha gente até com o colete vestido de cabeça para
baixo!
Havia gente gorda que ficou imensa enfiada no colete;
gente magérrima que engordou de repente com aquele casacão acolchoado; pais e
mães, com seus filhos – seus coletes pareciam ter dado filhotes, os coletes de
seus filhos.
Muitos não escondiam o nervosismo, apesar de ser apenas
uma simulação. E os coletes, bem desconfortáveis, parecem contribuir para que
as caras surjam mais afogueadas, os pescoços sufocados e as barrigas espremidas.
Contribuindo para uma inevitável hilaridade, cada colete
traz um apito. Não deu outra, evidentemente: depois de alguns momentos de tensa
seriedade, ao final do exercício que deu certo, com todos reunidos nos seus
respectivos locais determinados, o primeiro engraçadinho fez trilhar o seu
apito.
Foi uma loucura. Os pi-pi-pis se sucederam. O navio virou
um jardim-de-infância para adultos, numa algazarra que marcou o fim da tensão.
Apesar dessa engraçada orgia, numa profusão de
laranjas dos coletes salva-vidas, a manhã continuou luminosamente azul, e o mar
profundamente verde.
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Cassinos e jogadores atraem, fascinam. Têm sido tema tanto
de livros geniais, como “O jogador”, de Dostoievski, quanto de excelentes,
medíocres ou péssimos filmes. O glamour, a ânsia de ganhar, o jogo como
perdição e o próprio ambiente dos cassinos exercem uma atração incrível. Haja
vista, por exemplo, os turistas que o ano inteiro entopem Las Vegas – aquele
falso oásis de questionável felicidade, cheio de miragens em que as moedas de
ouro tilintam diante de jogadores que apostam fortunas ou caraminguás.
Pois bem, a muitos atrai também o cassino que existe no
navio.
Embora modestíssimo, na comparação com seus congêneres em
terra firme, o cassino à bordo também tem lá seu charme e quase uma aura de
mistério, criada, imagino, por ficar ali, à mão, no mesmo corredor por onde se
vai a dois dos restaurantes e bares. Todos – velhos, jovens, crianças –
transitam diante daquelas portas nas quais cartazes bem visíveis avisam que aos
menores é proibido o jogo, ou anunciando que o cassino só funciona com o navio
em movimento.Há máquina caça-níqueis posicionadas estrategicamente no corredor
que leva ao cassino. Vistosas, construídas em plástico negro, vidro e metal,
exibem seu display colorido, onde piscam luzes e de onde saem sons, atraindo a
atenção de todos, mesmo os não ligados em jogos, como é o meu caso.
Essas máquinas prometem aos aficcionados o momento tão
esperado, quando uma combinação mágica se estabelece, as luzes piscam
nervosamente e, finalmente, sobrevém o barulho das centenas de fichas caindo
num reservatório de metal. Isso tudo indica que um jogador ou jogadora sortudos
conseguiram acertar as combinações e terão direito a um grande prêmio.
Não vi no navio um momento desses. Mas ouvi dizer que uma
senhora ganhara o equivalente a uns 1200 dólares. Foi o bastante para que as
conversas no corredor e à entrada do cassino girassem em torno do assunto,
dizendo-se, por exemplo, que a premiada tivera sua viagem paga pela infernal
maquininha.
No interior do cassino existe uma superfície para onde convergem
todos os olhares: o famoso “pano verde”.
Acerquei-me da mesa de “Black Jack”. Uma crupier,
jovem pequenina, moreninha, mostrava sua incrível habilidade, com as cartas
dançando por entre seus dedos longos de unhas aparadas. E demonstrava também agilidade
com aquela espátula capaz de virar e desvirar com extrema rapidez as cartas.
Ouros, copas, paus e espadas exibiam-se contra o fundo verde escuro, como
símbolos de uma riqueza acessível, imediata e praticamente certa, pelo menos na
esperança dos jogadores.
Concentrei-me nos rostos dos que jogavam. Tiques nervosos,
tamborilar de dedos, mãos trêmulas denunciavam o nervosismo, a expectativa, a
angústia e a decepção. Os raros sorrisos mais pareciam esgares correspondentes
a frustrações mal disfarçadas.
Ao lado, outra mesa atraía a atenção, aliás de longe
despertada pelo tec-tec-tec-tec-tec característico da bolinha se chocando
contra as reentrâncias da roda mágica chamada roleta. Também aí mais
nervosismo, expectativa, olhos atentos, mãos e corações inquietos.
Vendo o movimento perfeito, regular e preciso da roleta,
veio-me a indagação: como é que pode acontecer isso se o navio está se movendo
e, algumas vezes, embora de forma bem suave, a gente sente bem os balanços?
Haverá um giroscópio para a roleta? Não perguntei e acabei ficando sem saber.
Uma figura um tanto estranha – mulher magérrima, com a boa
forma enfiada num vestido justíssimo e o rosto de maçãs salientes, onde era
ressaltada uma boca em batom vermelhão em meio a muita maquiagem – cruzava a
todo o momento o salão, parando nas mesas de jogo e nas máquinas caça-níqueis.
Agia como uma espécie de anjo da guarda dos jogadores, explicando a forma de
jogar e esclarecendo dúvidas.
Fiquei sabendo depois que essa mulher é russa. Pus-me a
pensar como é que ela teria deixado as estepes cobertas de neve para vir até
aqui, neste cruzeiro em águas tropicais. E deixei minha imaginação literária
voar, inventando histórias rocambolescas para essa estranha figura,
atribuindo-lhe, coerentemente, uma frieza de pedra num coração gelado e
necessário para garantir o lucro dessa casa flutuante de jogo.
Num dos cantos do pequeno cassino, dois homens metidos em
ternos impecáveis traíam sua condição de seguranças, mostrada nos olhos
atentos, constantemente voltando-se para a porta e esquadrinhando o salão de
jogo.
Bem, seguranças para quê, se estamos todos aqui,
confinados neste navegante hotel de luxo? Porém, se não houvesse isso, não se
completaria o clima misterioso que esperamos cercar todos os cassinos.
Noutro canto, estrategicamente situado ao lado da porta, o
guichê onde as fichas são compradas e os prêmios pagos. Passei por
perto, pensei, pensei, pensei e cheguei à sensata conclusão de que preferia
manter-me ao largo desse lugar de tentação. Mas com isso sei que renunciei à
emoção, ao gosto pelo perigo, às possibilidades de saborear a vitória...
Paciência.
Fui saindo, enquanto as cartas continuavam sendo
manipuladas com destreza sobre o pano verde, as bolinhas da roleta seguiam
produzindo seu ruído característico e, no corredor, as máquinas caça-níqueis
seguiam com suas cadeiras completamente tomadas, diante de ávidos apertadores
de botões.
Peço-lhes, caros leitores, que não se deixem
influenciar por este cético, que não crê na sorte nem no azar. Vale a pena
visitar o cassino do navio.
E, quem sabe, arriscar uma apostazinha.
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